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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2017 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

Faltam 2 finais-de-semana para o maior espetáculo da Terra. E é no embalo das canções que chega essa postagem: vamos analisar brevemente os 12 sambas do Grupo Especial para os desfiles de 2017 no Rio de Janeiro.

Estação Primeira de Mangueira. Atual campeã do carnaval, a Verde-E-Rosa novamente será a última escola a desfilar. E virá com um samba bem ao seu estilo: para cima. Literalmente, para cima. Se por um lado o refrão principal soa cansativo ao rimar "Aruanda" com "demanda" e "samba", por outro, há passagens belíssimas como aquela que versa: No peito patuá, arruda e guiné / Para provar que o meu povo nunca perde a fé. É uma composição de muita qualidade e que certamente vai levantar a Sapucaí. Pode botar fé que vai.

Unidos da Tijuca. Não que eu seja favorável a fazer comparações do agora ao que já passou, mas no caso da Tijuca-2017, isso ficou praticamente inevitável. Primeiramente porque a própria agremiação, em 2006, já havia trazido "música" como tema (Wantuir era o intérprete). Outro fator que força a comparação reside no fato de que o samba desse ano me lembrou demais - melodicamente - o de 2014 (homenagem a Ayrton Senna). Samba esse que, entre elogios e críticas, funcionou - e a Tijuca foi campeã. Mas a comparação final é talvez a mais cruel: do ano passado para este, é flagrante a queda na qualidade da composição. De toda forma, por mais que eu não seja fã de pegar o Borel e americanizar (prefiro fazer do Borel a Shangri-Lá, com o perdão de mais uma comparação), eu sempre hei de respeitar uma escola que tem Tinga no microfone e mestre Casagrande na condução da bateria. E eles são tão competentes, que é bem capaz de ajudarem a salvar esse samba na Sapucaí. 

Portela. Quem nunca sentiu um déjà vu se instalar ao ver a Portela sobre rio falar? A águia parece estar escolhendo as águas como habitat natural nos últimos anos. Gilsinho traz bastante suíngue para uma composição simples mas com bastante apelo emocional às raizes portelenses. Salve a Velha Guarda, os frutos da jaqueira / Oswaldo Cruz e Madureira. Agora é aguardar o rendimento do samba na avenida, com a escola tendo como grande trunfo o desenvolvimento do enredo nas mãos do genial Paulo Barros. E por falar em rendimento, ficou muito interessante o desempenho da bateria na primeira estrofe do samba, terreno fértil para bossas e paradinhas. Quem ousa vence!

Salgueiro. O samba de 2017 veio cumprindo a missão de carnavalizar a vida que é feita pra sambar. Aliás, isso vem sendo marca registrada no Salgueiro: sambas sambáveis. Daqueles que, com ou sem o título na apuração na quarta-feira de cinzas, podem ser lembrados numa roda de batuqueiros em outros carnavais. A letra é facil de memorizar - mesmo assim, eu consegui o feito de cantar "devoto dessa tal felicidade" e aprendi hoje, lendo a letra para publicar esse texto, que o verso diz "devoto da infernal felicidade". Enfim, nada que impeça de vislumbrar o paraíso no firmamento. Só entende quem é Salgueiro.

Beija-Flor. Iracema é enredo sob medida para o jeito Beija-Flor de fazer carnaval. E a narrativa do bonito samba não deixa dúvidas de que a escola explorará o modo de vida indigenista, com rituais, aldeias, divindades. Pra fazer de qualquer gringo um mameluco na Sapucaí. Neguinho, patrimônio vivo do carnaval, dá nova aula de interpretação. Há passagens muito interessantes, colocando poesia no romance entre a índia na floresta e o branco apaixonado. Porém, há que se dizer que achei cansativo o refrão principal (talvez fosse mais interessante não usar aquela seqüência de versos como refrão). De toda forma, talvez na avenida essa sensação seja atenuada em relação à gravação do CD. A conferir.

Imperatriz Leopoldinense. O primeiro ponto positivo do samba da Imperatriz foi ter mexido - mesmo que sutilmente - com o status quo. O simples fato de dizer que o belo monstro rouba a terra dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios causou reboliço no setor do agronegócio, que vestiu a carapuça no Congresso Nacional e resolver atacar a agremiação. Incrível como a essa altura do campeonato ainda tem quem ouse defender a usina hidrelétrica de Belo Monte. E o que dizer da pecuária, atividade que mais intensifica as mudanças climáticas globais com suas emissões de metano, degradações florestais e tantas outras mazelas? O samba da Imperatriz tem passagens em tom de lamento/apelo e outras em tom de grito de liberdade. Se for cantado em peso pelos componentes, proporcionará belíssimos momentos no carnaval 2017. E que a mensagem seja internalizada. Cantar - e viver - com sentimento é outra coisa. O clamor que vem da floresta não pode ser descartado ao término do desfile e precisa ecoar para muito além do carnaval. Queria ou não o Congresso Nacional.

Grande Rio. Pensa num samba com refrão fácil e pra cima. Pensou Grande Rio 2017. Não é difícil imaginar que vai rolar a festa e que vai levantar poeira quando a escola caxiense passar pela Sapucaí com a Invocada cantando Ivete. E como se não bastasse a letra fácil e o enredo altamente popular, de quebra há ainda dois versos mágicos na arte de "chamar para o refrão": Comunidade, povo do gueto eu sou / Caxias me abraçou. Outro ponto forte é a narrativa em primeira pessoa, que acontece em todo o decorrer do samba - exceto no refrão principal. Enfim, o fato é que se animação fosse quesito, esse samba estaria um degrau (talvez um palco, ou quem sabe um trio elétrico) acima dos demais.

Vila Isabel. É o samba do ano. Como se não bastasse a Vila vir conseguindo sistematicamente encaixar grandes composições com belas interpretações, em 2017 a escola superou as expectativas. Desde sacações geniais como Eu faço um pedido em oração / Ouví-la pra sempre no meu coração até trocadilhos com gêneros musicais, tudo ganha ainda mais beleza na excepcional condução de Igor Sorriso. O povo do samba deve agradecer aos envolvidos nessa obra-prima do carnaval carioca. Valeu, Zumbi, a lua no céu / É a mesma de Luanda e da Vila Isabel.

São Clemente. Depois de ouvir o samba da Vila, o CD do Grupo Especial parte para a São Clemente. E você fica na dúvida se, na verdade, não partiu foi para o Grupo de Acesso (com todo respeito à segunda divisão do carnaval do Rio de Janeiro). Não sei precisar qual o maior erro em "Onisuáquimalipanse" (sim, é esse o título do enredo clementiano). Mas a sensação é de que o caráter descritivista histórico da composição muito mais atrapalha do que ajuda a agremiação. Mas nem tudo está perdido: na Sapucaí, essa história será contada pela Rosa Magalhães. Então, a coisa deve melhorar de figura. Mas o samba em si, sinceramente, acho que não tem salvação.

Mocidade Independente. A Verde-E-Branco da Zona Oeste pode bater no peito e dizer: "temos um samba". Samba para contar o enredo. Samba para levantar o componente. Samba com o selo Wander Pires de qualidade. Samba no embalo da bateria Não Existe Mais Quente. Lembra, pelo menos levemente, o explosivo "O Quinto Império", de 2008. Mas esse de 2017 sobre o Marrocos é mais melodioso e brincalhão. Com direito a Aladin no agogô e tantan nas mãos de Simbad. Padre Miguel tem o direito de sonhar.

União da Ilha. Não se assuste com Macurá dilê no girá, tampouco com Nzambi, Kitembo ou Nzara Ndembu. Sem espantos com a raiz Nzumbarandá, com Katendê, Kiamboté ou Kiuá. Só de boa com Kukuana, Ndandalunda e Kalunga. Também são dos nossos Nzazi e Matamba. Pode não ser tão simples de cantar, mas há muita beleza no samba da Ilha desse ano. Ito Melodia, que é a cara e voz da agremiação insulana, mandou ver mais uma vez com uma firme e encaixada interpretação. E o que temos aqui é algo com aquele astral dos (bons) sambas antigos. Daqueles que lembramos anos adiante. Coisa típica da União da Ilha do Governador.

Tuiuti. A Tropicália está aí, na Tuiuti e no vozeirão do Wantuir. Li e ouvi algumas críticas a esse samba. Sim, há alguns aspectos que poderiam ser melhorados. Mas ele é muito melhor do que dizem e digitam por aí. Rico de conteúdo (talvez tenha pecado pelo excesso) e com algumas passagens melódicas saborosas, sendo a minha preferida a que diz Quanta mistura, intercâmbio cultural. A missão da escola é dificílima: abrir os desfiles num ambiente onde há preconceito com quem vem de baixo e com quem vem primeiro. Isso por si só já causa certa apreensão. Mas raiou o sol, iluminando os versos da canção.
Imagem de divulgação dos sambas-enredo 2017 no Grupo Especial. Safra boa e para (quase) todos os gostos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Marchinhas Banidas? Trago Soluções!

Está rolando um reboliço por conta de alguns blocos carnavalescos estarem banindo de seus repertórios musicais algumas marchinhas.

Primeiramente, há que se destacar o óbvio: o repertório é do bloco, então o bloco se responsabiliza pelo repertório. Simples assim. Sendo mais específico: você dificilmente verá a execução do hino do Clube de Regatas Vasco da Gama num bloco de exaltação ao Clube de Regatas Flamengo.

Desta forma, se o bloco zela por igualdade de gênero, fenótipo, espécie, escolha afetiva, religiosa ou seja lá o que for, cabe a este bloco selecionar o seu repertório. Se isso soa chocante, acho melhor terminar a leitura por aqui.

(Obrigado por continuar)

Mencionaram quatro dessas marchinhas. Vou opinar sobre cada uma delas e apresentar possíveis soluções não traumáticas.

1. Maria Sapatão

A letra é tão simples, mas tão simples, que substituí-la seria uma tarefa elementar para analfabetos funcionais. Imagine se os responsáveis por essa composição quisessem colocar em evidência um homem heterossexual em vez de uma mulher supostamente homoafetiva.

Teríamos, por exemplo:

João heterozão, heterozão, heterozão
De dia é João, de noite é João.

Lembrando que o fato da Maria ter supostamente preferências homoafetivas no período da noite, isso não gera uma mudança de nome no RG ou a necessidade de emissão de uma nova cédula identitária para uso noturno. Maria continua sendo Maria. Incrível, né?

2. Cabeleira Do Zezé

Na extrema falta do que fazer e no que refletir, não há nada como... cuidar da vida dos outros. Pausa para lembrar que estamos nesse momento na 17ª edição do Bígui Bróder Brasil. Fim da pausa.

Zezé, indivíduo de cabelo considerado grande em suas dimensões aparentes, tornou-se alvo de suspeitas comportamentais absolutamente irrelevantes para o convívio social.

Mas para não ficarmos sem essa tradicional marchinha (seria muito difícil viver sem ela, praticamente uma obra-prima da música brasileira, talvez tendo sido composta por algum pseudônimo de algum gênio do carnaval), vai uma sugestão de adaptação.

Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele quer? Será que ele quer?

Será que ele quer deixar grande?
Será que ele já vai cortar?
Parece que o cabelo é dele.
Então é melhor respeitar.

Deixa o cabelo dele!
Deixa o cabelo dele!

3. O Teu Cabelo Não Nega

Considerando que o termo "mulata" seja de origem espanhola (feminina de "mulato", "mulo", indicando um animal híbrido que descende do cruzamento de uma égua com um jumento ou de uma jumenta com um cavalo), não há muito o que fazer. Estamos nos referindo a um vocábulo propositalmente depreciativo, usado em referência aos filhos mestiços das escravas que coabitaram com os senhores (leia-se escravocratas) brancos.

Uma sugestão automática seria trocar "mulata" por uma cor. "Branca", por exemplo.

4. Índio Quer Apito

Evidentemente, índio não faz questão de apito. Índio, em 2017, está mais interessado em simplesmente existir enquanto índio mesmo. Por falar nisso, a Imperatriz Leopoldinense, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, trouxe como enredo neste ano "Xingu - O Clamor Que Vem Da Floresta". E por falar algumas verdades inconvenientes (bem sutis, por sinal), a agremiação foi repreendida por membros da bancada ruralista no Congresso Nacional. É uma boa ilustração para mostrar quem é que manda e quem é que sofre nesse país.

Trazendo um pouco mais de veracidade à marchinha, poderíamos cantar assim:

Ê, ê, ê, ê, índio quer demarcação
Tá na Constituição

Lá no bananal, capanga de branco
Deu no índio uma surra a pedido do patrão
Índio ficou dolorido e estatelado no chão
- Eu não quero violência! Eu quero demarcação!

Provavelmente, essa última marchinha seria banida. Mas não por meros mortais blocos carnavalescos...

sábado, 10 de janeiro de 2015

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2015 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

12 agremiações, duas noites, milhões de espectadores. É o carnaval carioca se aproximando e trazendo com ele o maior espetáculo já produzido pela espécie humana: o desfile das escolas de samba.

Vamos aqui analisar as doze composições de 2015 (letra, melodia e algo mais).

Unidos da Tijuca. Seu enredo é a Suíça e seu desafio imenso: não será simples para a Tijuca desenvolver um carnaval na ausência do gênio Paulo Barros. A voz de Tinga, atual bicampeão com Vila-2013 e Tijuca-2014, fortalece um samba que não empolga. Mas que tem tudo para funcionar na avenida. Ou quase tudo.

Acadêmicos do Salgueiro. Culinária mineira é dose. Sem o Quinho, então... O Salgueiro foi a escola que mais despencou na qualidade de sua composição, deixando saudades do ótimo enredo Gaia. É possível que as coisas melhorem na Sapucaí, notadamente devido à força da bateria Furiosa e da comunidade salgueirense. Além, é claro, da plástica de Renato Lage. Aguardemos. De preferência, ouvindo o samba do ano passado.

Portela. Não basta ser portelense, precisa participar. Parece que o prefeito Eduardo Paes está levando esse pensamento a sério. Desde que se tornou o manda-chuva da cidade, a Portela não cansou de falar do Rio de Janeiro. Em 2015, de novo e novamente mais uma vez. Wantuir e Wander são dois intérpretes de alto nível e o samba tem tudo para levantar poeira. Já estou até tossindo.

União da Ilha do Governador. Irreverência é a síntese e a essência de um samba descontraído e que dá o seu recado. Lembra o enredo "Fama", apresentado pelo Salgueiro em 2013. Com a voz do inconfundível Ito Melodia, a bateria do prestigiado Ciça e a concepção do talentoso Alex de Souza, a agremiação insulana tem tudo para proporcionar ótimos momentos na Sapucaí.

Imperatriz Leopoldinense. É o samba da emoção. O casamento da letra e da melodia beirou a perfeição, cabendo elogios aos compositores e ao intérprete Nêgo. O desafio é conseguir no tom poético e introspectivo da canção alcançar a energia necessária para agitar os componentes de uma escola tachada como "fria".

Acadêmicos do Grande Rio. O título é péssimo, fazendo alusão proposital a um palavrão. Só por isso, entendo já caber uma penalização. A composição em si possui passagens interessantes e um andamento melódico viciante. As repetições das rimas "ar" e "er" na estrofe que antecede o refrão principal tornam o trecho cansativo. Acredito que a grande aposta da escola resida na parte visual, pois o enredo é de fácil entendimento e o carnavalesco conseguiu fazer de Maricá um quase-paraíso em 2014.

Beija-Flor de Nilópolis. Depois de exaltar farsas como Roberto Carlos e Boninho (na primeira teve a complacência dos jurados e na segunda, não), a Beija-Flor vem com um enredo com mais cara de Beija-Flor: África. Neguinho da Beija-Flor, um patrimônio do carnaval, fez interpretação magistral: ele consegue cantar o mesmo tema na mesma entonação sem se tornar necessariamente repetitivo. "Negro canta, negro clama liberdade". A sensação é de que já ouvi isso antes. Mas, vá lá, antes repetir a exaltação à africanidade do que homenagens a marionetes da ditadura. Salve Guiné!

Estação Primeira de Mangueira. É o samba do ano. Os refrões carregam a cara e o DNA da Mangueira. Gostoso de ouvir, fácil de memorizar, prazeroso de cantar. Mulher brasileira em primeiro lugar! Só espero que não gere conotações xenófobas ou sexistas, porque pra quem curte uma polêmica, dá pra encontrar terreno fértil nesse trecho. Sugiro colocar isso de lado e deixar a Mangueira passar.

Mocidade Independente de Padre Miguel. Simples e direto, o samba da Mocidade é um prato cheio para as surpresas do inventivo Paulo Barros. Eu já fico viajando se o genial carnavalesco não vai inovar numa interação entre a ala das baianas e a bateria... Roda baiana, cai nesta folia! De verde e branco com a bateria! Que o mundo não acabe antes do desfile da Mocidade. Ironicamente, a escola que foi campeã pela última vez com a voz de Wander Pires, entregou ao Bruno Ribas (campeão com Paulo Barros) os dizeres "a hora é essa", logo após o refrão. Para quem acredita em superstição...

Unidos de Vila Isabel. Mais uma vez, a Vila traz para a Sapucaí um dos melhores sambas do ano. A letra é inteligente e o andamento é gostoso de cantar, mas talvez vacile pelo fato de não apresentar "quebras melódicas", isto é, não rola aquele suingado. De toda forma, é fato que quem nasce lá na Vila nem sequer vacila, ainda mais com a Swingueira de Noel na área. Se a dignidade volta pro ninho, é o momento certo para a comunidade de Isaac, Noel e Martinho cantar com força o samba esse ano. Com mais força do que o que se (ou)viu no primeiro ensaio de 2015.

São Clemente. A aurinegra de Botafogo trocou sua marca registrada - a irreverência - pela emoção. O enredo em homenagem a Fernando Pamplona, assinado por ninguém menos que Rosa Magalhães, chega a parecer uma declaração de amor. Se a escola (leia-se a comunidade clementiana) conseguir agitar o sambódromo mesmo tendo um samba sem explosão e sendo a primeira a desfilar na segunda-feira, o resto está em ótimas mãos: basta contar o número de carnavais conquistados por Fernando ou Rosa (ele é tetra e ela é hepta).

Unidos do Viradouro. Confesso ter dificuldades para analisar esse samba. Vejo nele qualidades e potencialidades permeadas por um ar de "tá faltando alguma coisa". É pouca coisa, acho. Até porque a letra tem beleza. Mas falta algo, principalmente por se tratar de uma escola com a incumbência de abrir os desfiles, uma posição historicamente ingrata no carnaval carioca (e isso é muito mais culpa dos jurados do que qualquer outra coisa). Torcendo para que esse algo que talvez esteja faltando apareça na Sapucaí, com a energia de uma comunidade que voltou ao seu lugar.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Minha Alma (Paes Que Eu Não Quero)

Estamos em época de eleições municipais pelo Brasil e aqui no Rio de Janeiro isso não é diferente. Com uma campanha milionária, o candidato Eduardo Paes, que tenta a reeleição com uma coligação gigantesca, tem como maior adversário o deputado estadual Marcelo Freixo, cuja candidatura pelo PSOL, humilde e sem aliados suspeitos, torna o duelo um tanto desigual. Uma desigualdade que diria ser inversamente proporcional na medida em que, enquanto um lado tem mais minutos no horário político e mais dinheiro na campanha, o outro apresenta a melhor proposta para caminharmos na direção de um Rio menos desigual. Afinal, de desigualdade basta a eleitoral.

Como "paz com voz, não é Paes, é Freixo", a música do Rappa, cujo antigo integrante Marcelo Yuka é candidato a vice com Freixo, acabou sendo a inspiração para essa postagem. Então, vamos a ela.

Minha Alma (Paes Que Eu Não Quero)

A minha alma tá armada e apontada
Para a cara do prefeito
(Feito! Feito! Feito! Feito!)
Pois paz com voz, paz com voz
Não é Paes, é Freixo!
(Freixo! Freixo! Freixo! Freixo!)

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz:

"É no Paes em quem não vou votar
Prá tentar ser feliz!"

As bases de UPP
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se não é outra forma de opressão

Me abrace e feche com Freixo,
Faça esse voto comigo!
Mas não deixe o Paes ser reeleito
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas formas de cartel
Neste Rio sem sentido...
Eduardo Paes eu não quero seguir admitindo

É com o Paes que eu não quero seguir
É com o Paes que eu não quero seguir
Eduardo Paes eu não quero seguir admitindo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Franz Ferdinand São Paulo 2012: A Arte De Contagiar O Público

Em março de 2010 tive a oportunidade de assistir aquele que era meu primeiro show internacional. A banda escocesa Franz Ferdinand se apresentaria na Fundição Progresso, casa de espetáculos situada relativamente perto de casa (vira e mexe passo em frente quando me desloco pela cidade do Rio de Janeiro). Naquele show memorável, conheci pessoas com as quais conservo relação de amizade até hoje e experienciei uma performance, uma presença de palco, uma interação artista-público absolutamente singular. Por coincidência, ou melhor, por aquilo que considero ter sido um capricho dos deuses da música, aquele show aconteceu no dia do aniversário do vocalista Alexander Kapranos, que ouviu um "parabéns para você" cantado por milhares de pessoas e foi aos braços do público, numa cena que tive a felicidade de testemunhar a alguns metros de distância, com direito a um registro fotográfico que beira o inacreditável, tamanha a improbabilidade (clique e confira).

Passados 26 meses e eu, com 26 anos de idade, pude reencontrar o quarteto britânico em solo brasileiro - dessa vez em São Paulo. Uma viagem que me animei de fazer tão logo tomei conhecimento de que o Franz Ferdinand faria uma apresentação gratuita no 16º Cultura Inglesa Festival. Embarquei à meia-noite e quinze e às sete da manhã já estava em Sampa, sentindo o frio matinal daquela que é a maior cidade do país. Os minutos se passavam, o sol aquecia o dia e já não era necessário fazer uso de casaco nem de camisa com manga comprida. Vestindo a mesma camisa do Botafogo que usei na noite de 24 de setembro, no Rock In Rio 2011, fui para a enorme fila que esperava por mim e por meu irmão, parceiro de viagem. Acho que ficamos cerca de uma hora no percurso que nos separava da entrada da área destinada aos shows. O relógio devia estar marcando algo em torno das onze horas da manhã e o momento mais esperado daquele domingo ensolarado, com ares de outono carioca, estava agendado para às 18h30. As bandas que se apresentavam entretiam, embora sem necessariamente empolgarem. Amigos virtuais de longa data foram chegando e "se tornaram reais", fazendo a ocasião ainda mais especial. Até chegar o grande momento, aquele período de tempo tão reduzido porém eterno, quando você visualiza o grupo e, ao ouvir os primeiros sons, já se deixa contagiar. Começou com Darts Of Pleasure e terminou com This Fire aquela apresentação que incendiou o Parque da Independência. Quando tocou Take Me Out, senti estar vivendo um momento mágico. Revendo a gravação, creio que aquilo ali na verdade se trata de algo épico, inapagável e impagável. Tocar ainda Michael, sair do palco e voltar com Jacqueline me fez pensar: "oh deuses da música, obrigado por fazerem um show especialmente para mim". Desconfio não ser merecedor de tamanho mimo, e sou grato eternamente por essa dádiva. 27.05.2012 é para se guardar. Na memória e no coração.

Preciso dizer se valeu cada metro percorrido e cada real investido nessa viagem?

Set list do show do Franz Ferdinand no Parque da Independência, em São Paulo, 27.05.2012

01. Darts of Pleasure
02. Tell Her Tonight
03. Right Thoughts
04. Do You Want To
05. No You Girls
06. Brief Encounters
07. Walk Away
08. Dark of The Matinée
09. Fresh Strawberries
10. Can't Stop Feeling (com I Feel Love)
11. Take Me Out
12. Ulysses
13. Trees and Animals
14. 40´
15. Outsiders
16. Michael

Bis:
17. Jacqueline
18. This Fire

Galeria de fotos











sábado, 4 de fevereiro de 2012

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2012 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

A exemplo daquilo que aqui fizemos no ano passado, cá estamos para dar alguns pitacos sobre os sambas-enredo das agremiações que figuram no Grupo Especial do Rio de Janeiro. 2012 marca o início de uma Era no sambódromo onde teremos a inauguração de alguns novos setores (uma antiga fábrica foi demolida, possibilitando uma ampliação no número de espectadores). O blogueiro, empolgado que só, conseguiu adquirir ingressos para os desfiles de domingo e de segunda-feira. Setor 4, estamos chegando!

Nessa postagem, teremos alguns vídeos incorporados. Todos eles filmados por este que vos digita, capturados em diversos ensaios realizados nas últimas semanas. 

Abraços e ótimo carnaval a todos.

Escola: Beija-Flor
Enredo: São Luís: O Poema Encantado do Maranhão
Trecho: Tem magia em cada palmeira que brota em seu chão
Análise: Não é que o produto final tenha ficado bom ou ruim, a questão é que ficou repetitivo. Dá a impressão de que teremos pela frente mais um desfile nilopolitano nos moldes "macumba amazônica", bastante visto nas últimas décadas. Não fosse o grande talento de Neguinho, diria que o samba chega a ser fraco. Mas fraco é palavra proibida quando esse intérprete está ao microfone. Pode ser que funcione bem na avenida? Sim, claro. Mas, a julgar pura e simplesmente pela composição, diria que esse samba não desfilaria no sábado das campeãs.

Escola: Unidos da Tijuca
Enredo: O Dia em que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão
Trecho: Numa serenata feliz vou cantar / No meu Pé de Serra festejo ao luar
Análise: A homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga já carrega por si só um forte apelo emotivo. E a letra do samba tijucano consegue aumentar esse aspecto emocional, com versos muito bonitos que exaltam a "cultura nordestina". Percebi uma grande evolução no rendimento do samba do estúdio para a avenida - aliás, o canto da comunidade tijucana foi impressionante no ensaio técnico que presenciei. A escola do Borel tem tudo para, aliada ao talento de Paulo Barros e à garra de seus componentes, protagonizar um desfile inesquecível.

Escola: Mangueira
Enredo: “Vou Festejar! Sou Cacique, Sou Mangueira
Trecho: Não dá pra conter tamanha emoção / Cacique e Mangueira num só coração
Análise: São tantos versos belos e melodiosos que fica até difícil de ver por onde começar a elogiar a letra. Porém, sinto que ficou faltando algo no samba da Mangueira. Não sei se é muita exigência de minha parte (até porque ano passado achei a homenagem a Nélson Cavaquinho uma composição simplesmente maravilhosa), mas o fato é que tem algo na atual obra que "não encaixou". Particularmente, achei péssima a passagem "Sou imortal e vou viver / Agonizar não é morrer". Enfim, como a safra desse ano é muito boa, no meu entender o samba da Mangueira não aparece entre os melhores de 2012. Mas guardo boas expectativas para o canto da escola no desfile oficial, sobretudo levando-se em consideração a abusada (na melhor acepção do termo) performance da bateria Surdo Um.

Escola: Vila Isabel
Enredo: Você semba lá... Que eu sambo cá! O canto livre de Angola
Trecho: Nesse cortejo (a herança verdadeira) / A nossa Vila (agradece com carinho) / Viva o povo de Angola e o negro rei Martinho
Análise: É o samba do ano. A homenagem a Angola é permeada por uma sensibilidade ímpar na descrição do enredo, com uma melodia muito bem conduzida pelo intérprete Tinga (e olha que eu sinceramente acho que essa letra pedia por alguém de estilo mais "suingado", tipo o Preto Jóia, mas Tinga saiu-se muito bem). Se por um lado penso que o samba careça de um refrão forte, por outro reconheço que em todos os ensaios que acompanhei da agremiação - e acredite, não foram poucos! - o canto da comunidade foi uma coisa contagiante. A Vila vem que vem em 2012, a Sapucaí vai ficar pequena para receber Angola.

Escola: Salgueiro
Enredo: Cordel Branco e Encarnado”
Trecho: Salgueiro, teus trovadores são poetas da canção / Traz sua côrte, é dia de coroação / Não se "avexe" não
Análise: Excelente samba. Os versos passam a temática de uma forma leve e poética, brincando com alguns vícios de linguagem típicos do nordeste brasileiro e contando com uma melodia inflamada, sobretudo nos dois refrões (seguramente, os dois refrões deste samba estão entre os mais fortes do ano). O Salgueiro tem todos os ingredientes para fazer uma apresentação memorável - o samba interpretado por Quinho já cumpriu o seu papel, e no dia do desfile oficial seremos agraciados com o bom gosto de Renato Lage.

Escola: Imperatriz
Enredo: Jorge, Amado Jorge”
Trecho: Ao mestre escritor, um canto de amor / Jorge Amado, saravá!
Análise: É sempre bom ouvir um samba na voz de Dominguinhos do Estácio, e esse da Imperatriz Leopoldinense não é diferente. Uma melodia que segue uma linha de referência e que parece muito bem amarrada do primeiro ao último verso. Versos esses que são relativamente curtos, ao meu ver curtos até demais, economizando na capacidade de passar informação sobre o enredo. Ainda mais por se tratar de uma escola que tem Max Lopes como carnavalesco, fica a sensação de que a agremiação vai apresentar muito mais do que o samba se propõe a defender.

Escola: Mocidade
Enredo: “Por Ti, Portinari, Rompendo a Tela, a Realidade”
Trecho: Quero te ver qual menino feliz / Planta a semente do sonho em verde matiz
Análise: Vejo este samba como um dos melhores do ano. Verso a verso, percebe-se que a vida e a obra de Cândido Portinari são narradas de uma forma que consegue a proeza de ser didática e poética simultaneamente. Havia ouvido a obra na interpretação do ótimo Wander Pires e digo com todas as letras que a voz de Luizinho Andanças caiu como uma luva nesse samba, dando um aspecto de algo clássico, como de certo modo o enredo sugere. Quem de alguma forma tiver alguma familiaridade com a obra de Portinari, certamente irá se emocionar ao ouvir a Mocidade Independente de Padre Miguel. Falo por experiência própria.

Escola: Porto da Pedra
Enredo: “Da Seiva Materna ao Equilíbrio da Vida”
Trecho: Vem no ritmo do Tigre de São Gonçalo / Alimenta seu povo apaixonado
Análise: De longe, o pior samba do ano. Patrocinado por uma empresa que maximiza seus lucros vendendo laticínios, a Porto da Pedra se prestou a fazer um enredo sob essa temática. Não que necessariamente levasse a um fiasco, mas a julgar pela composição da escola, estamos falando de uma forte candidata ao rebaixamento. Foi até difícil escolher um trecho do samba para figurar nessa postagem, restando saber se a grana injetada nessa dita "seiva materna" poderá salvar o tigre do Grupo de Acesso em 2013. Onde é que o Wander Pires foi se meter...

Escola: São Clemente
Enredo: “Uma Aventura Musical na Sapucaí”
Trecho: Se o samba empolgou, virou carnaval / Nossa aventura musical
Análise: Pode não ser a mais bonita, pode não ser a de melhor narrativa, pode não ser nada, mas o desenho do samba-enredo da São Clemente é de uma originalidade exaltável, principalmente em meio a tanto "lugar-comum" que vemos composições à fora. Nesse caso, diferentemente de quando falei da Imperatriz, considero que os versos curtos e diretos são altamente funcionais, dando coesão a uma obra que ficou livre, leve e solta. Poderá não ser o melhor desfile, o mais bonito, mas a São Clemente deverá levantar a Sapucaí com a sua simpática proposta de carnaval. Já conquistou meu coração.

Escola: Grande Rio
Enredo: “Eu Acredito em Você! E Você?”
Trecho: E abro o meu coração, cantando a minha emoção / Superação é o carnaval da Grande Rio
Análise: Melhor escola para fechar o carnaval 2012 do que a Grande Rio, não há. Depois de tudo que a agremiação caxiense passou em 2011, o desenvolvimento de um enredo falando de superação foi algo para entrar na história dos desfiles. Sem entrar no mérito da parte estética (que por sinal está em ótimas mãos nos cuidados de Cahê Rodrigues), a Tricolor da Baixada traz um samba gostoso de se cantar, com versos simples, de fácil entendimento. Somando esses ítens ao forte apelo do enredo - que tem tudo a ver com o passado recente da escola - e com a voz inigualável de Wantuir, fica a promessa de um desfile pra lá de especial na Sapucaí.

Escola: Portela
Enredo: “E o Povo Cantando na Rua é Feito Uma Reza, Um Ritual...
Trecho: Rola o toque de Olodum... lá na Ribeira / A Bahia me chamou
Análise: É o melhor samba da Portela nos últimos tempos. A correta interpretação de Gilsinho fortalece uma composição que já nasceu com ares de épica, onde cada verso parece encaixado naquele que o sucede e o andamento melódico segue uma rara beleza. É difícil mensurar o que será o desfile portelense, até porque a agremiação vem encontrando dificuldades de fazer uma apresentação à altura de sua tradição. Mas, sem querer bancar o vidente de plantão, boto fé que este samba será cantado em muitos outros carnaváis.

Escola: União da Ilha
Enredo: “De Londres ao Rio: Era Uma Vez... Uma Ilha”
Trecho: Vou botar molho inglês na feijoada / Misturar chá com cachaça
Análise: Costumo dizer que é perigoso fazer um enredo que enfoque eventos esportivos. No carnaval carioca, esse tipo de temática não costuma render bons frutos. Mas, a União da Ilha traz um samba interessante, diria até inteligente. Os versos denotam que há um trabalho de pesquisa sério feito pela Tricolor Insulana, e a voz de Ito Melodia é marcante na agremiação. Para o molho não azedar e o chá não esfriar, a Ilha tem o ótimo Alex de Souza para conduzir a parte estética. Diria que estamos diante de uma forte candidata a contrariar aquele cenário negativo de enredos dessa natureza. Aliás, tudo leva a crer que as Olimpíadas não serão necessariamente o fato principal no carnaval da escola - o que acho melhor para Londres, para o Rio e para o desfile da Ilha. Deve vir algo bacana por aí.

Escola: Renascer de Jacarepaguá
Enredo: Romero Britto: O Artista da Alegria Dá o Tom da Folia”
Trecho: Há tantos meninos assim / Querendo um sonho / Na liberdade das cores sem fim
Análise: Está aí um samba simpático e funcional. Creio que muitos não conheçam o artista Romero Britto, algo que aumenta a validade de torná-lo enredo - e isso é ponto positivo para a escola. Outro aspecto que vale exaltar é a qualidade das rimas. Sim, a qualidade. Os últimos cinco versos da estrofe que antecede o refrão principal configuram uma das passagens mais bonitas de todas as composições do Grupo Especial. Destacam-se também os três versos que antecedem o outro refrão, quando a letra coloca "o inverso" e, pouco depois, "universo", fazendo um desenho melódico pra lá de interessante. É difícil a missão da Renascer de Jacarepaguá, recém-promovida, se manter no Grupo Especial num ano onde duas são rebaixadas. Mas sinto que a escola saberá deixar o seu recado.

sábado, 15 de outubro de 2011

Duas Noites Memoráveis No Rock In Rio 2011

Vivi duas noites mágicas na "Cidade do Rock". Venho nesse espaço compartilhar um pouco dessa experiência, que espero guardar para sempre na memória.

24 de setembro de 2011

Cheguei por volta das 16h e logo me chamou atenção a magnitude do espaço do evento. O banheiro masculino chegava a ser engraçado: um corredor de, sei lá, vinte metros de comprimento para que os homens urinassem. As filas para uso de brinquedos como a Roda Gigante, a Tirolesa e a Montanha Russa eram também de amplas dimensões - não me candidatei a enfrentar nenhuma delas, já que o entretenimento que buscava seria exibido em cima dos palcos. Então, vamos ao que mais interessa: falar dos shows.

No Palco Sunset assisti a duas apresentações. A primeira foi uma parceria entre Tulipa Ruiz e Nação Zumbi, que animou a galera. E, se animou a galera, o saldo foi positivo. Depois vieram Milton Nascimento e Esperanza Spalding, que mostraram um entrosamento muito bacana. Já bastaria a voz de Milton para o espetáculo ficar a contento, mas o show teve mais: sanfona e violão de Milton, baixo elétrico e contrabaixo de Esperanza (artista revelação do Grammy do ano passado) e uma harmonia que fazia parecer que os dois foram criados no mesmo berço (clique e confira a música "Maria, Maria", que encerrou a apresentação). Foi uma ótima deixa para rumar ao Palco Mundo.

No Palco Mundo, quem abriu as apresentações pontualmente às 19h foi a banda paulista NX Zero, rotulada emo por uns, rock por outros. E só pra deixar ainda mais dúvida sobre qual é a desse grupo, o rapper Emicida participou da primeira música ("Só Rezo 0.2"). Mas o fato é que os garotos do NX Zero surpreenderam positivamente minhas expectativas e, rótulos de gênero à parte, cumpriram o seu papel. A exaltação do vocalista Di por tocar no Rock In Rio no mesmo dia de Red Hot Chili Peppers deve ter conquistado o público (a mim pelo menos soou muito bem). Clique aqui para ver e ouvir a música "Cedo Ou Tarde".

Caía uma chuvinha gostosa (palavras de alguém que vestia uma capa) quando o Stone Sour fazia sua apresentação. E essa banda pode ser considerada a mais grata surpresa do Rock In Rio 4. Eu nem sabia que o enérgico vocalista Corey Taylor desse sua voz também ao Slipknot. Sem máscara e com muita interação com o público, Corey tomou conta do palco, da platéia e da Cidade do Rock. Foi um baita show, sem dúvida alguma. E tudo isso sem o baterista oficial do grupo: a primeira filha de Roy Mayorga estava para nascer naquele final-de-semana, e ele não veio para o Brasil. Espero que no Rock In Rio 5, prometido para 2013, o Stone Sour esteja de volta, com Roy Mayorga e toda essa intensidade que contagiou a galera. Três vídeos para vocês: "Made Of Scars", "Through Glass" e "Get Inside" + "Hell & Consequences".

São Pedro mandou fechar a torneira e lá veio o Capital Inicial para a 3ª apresentação no Palco Mundo naquela noite de sábado, 24 de setembro de 2011. O vocalista Dinho Ouro Preto sacodiu a multidão com músicas que estavam na ponta da língua da galera e com discursos de cunho político que chegaram a arrancar homenagens a José Sarney, convidado a tomar naquela região do corpo humano reduzida a duas letras - era a deixa para "Que País É Esse?". Sensível às pessoas que pareciam sofrer esmagadas na grade, Dinho distribuiu água e isotônico arremessando os recipientes para os eleitos. E, entre uma boa música e outra, foi tocante quando lembrou o desencarne de Rafael Mascarenhas, "fã de Red Hot Chili Peppers mais do que tudo", e que comemoraria vinte anos de nascimento naquela noite.

A 4ª banda a se apresentar era a escocesa Snow Patrol, a qual fui conhecer recentemente (depois de tomar ciência de que eles tocariam no dia do Red Hot Chili Peppers). Gostei de muitas das composições, e isso elevou as minhas expectativas com relação ao show. Mas, apesar da simpatia do vocalista e guitarrista Gary Lightbody, achei essa apresentação a mais fraca da noite. Não é que as músicas não tenham funcionado no palco - elas continuaram belas (clique e confira a 1ª música da apresentação: "You're All I Have"). Acho que o que faltou foi energia, sobretudo porque a galera vinha de três shows vibrantes. No festival de boas intenções, tiveram lugar a participação da brasileira Mariana Aydar, elogios ao futebol brasileiro e uma bandeira brasileira exibida de cabeça-para-baixo. A guitarra, por um momento, parou de funcionar. O público aguardou o reparo do instrumento, mas o que todos queriam mesmo é que aquela apresentação acabasse logo e que começasse o quanto antes o show mais esperado da noite - e um dos mais aguardados do Rock In Rio 2011.

E era chegada a hora! O Red Hot Chili Peppers iniciou sua épica apresentação com "Monarchy Of Roses", emendando "Can't Stop", "Charlie", "Otherside" e "Look Around". Ou seja, cinco músicas de quatro álbuns diferentes (incluindo duas do mais recente trabalho do grupo). Que banda no mundo consegue isso mantendo o mais alto nível nas composições? E isso porque ainda viriam, logo na seqüência, "Dani California" e "Under The Bridge", para delírio de cem mil pessoas e emoção desse que vos relata. Quando o RHCP tocou "Californication" era o êxtase na Cidade do Rock. E o que dizer quando, imediatamente após, vinha "By The Way"? Não tenho condições de descrever o sentimento. Os Chili Peppers deixaram o palco. Mas quem arredou pé? A multidão queria mais! E eles voltaram, vestindo camisas brancas estampadas com o rosto de Rafael Mascarenhas, em bonita homenagem ao filho de Cissa Guimarães. Voltaram tocando "Around The World"! E fecharam aquela noite inesquecível com "Blood Sugar Sex Magik" e "Give It Away". Só tenho a agradecer ao Red Hot por aquele momento que presenciei na minha cidade natal. E a Deus, por possibilitar que tudo isso acontecesse. Naquela noite, os deuses da música sonharam com os anjos. Dream on Californication. Dream on Californication. Clique e confira o solo de bateria de Chad Smith, minutos antes de a banda voltar ao palco.

2 de outubro de 2011

Com a experiência de quem estava indo pela segunda vez à Cidade do Rock (uau!), me posicionei mais ou menos perto de onde estive no dia 24 de setembro. E a vibração já começou lá em cima, com Tico Santa Cruz chamando a galera pra pular: o vocalista do Detonautas Roque Clube foi performático em cima do palco, alternando o visual que começou sob uma capa preta até a nudez do peito exibindo suas incontáveis tatuagens e incluindo o uso de uma máscara de Guy Fawkes (anarquista inglês que tentou explodir o parlamento britânico no século dezessete). A abertura foi com "Mercador Das Almas" e, com um repertório musical recheado de sucessos ("Olhos Certos", "O Dia Que Não Terminou" e "Quando O Sol Se For" são alguns exemplos) a harmonia da galera com o Palco Mundo foi total. E o negócio ficou ainda melhor quando rolou uma homenagem a Raul Seixas, com "Metamorfose Ambulante". Foi um bom "esquenta" para a noite de dois de outubro.

Pitty veio logo em seguida, tocou hits, tentou conversar com a multidão, enfim, até se esforçou. O ponto alto do show ficou para o final, quando homenageou Nirvana (o disco "Nevermind" completa vinte anos de lançamento) com a música "Smells Like Teens Spirit" - foi naquele momento que testemunhei a primeira rodinha da noite. O repertório da cantora não me agrada e também não gosto do seu linguajar, mas paciência. Até que passou rápido. Clique e confira trecho de "Na Sua Estante".

Para deleite de tímpanos e retinas, Evanescence chegou ao Palco Mundo exibindo belas músicas e toda a exuberância de Amy Lee. Tudo começou com "What You Want" , música do mais novo trabalho da banda. Aliás, funcionou muitíssimo bem a mesclagem de músicas novas com sucessos anteriores, mantendo lá em cima o nível do show. A apresentação terminou com o hit "Bring Me To Life" e, embora todos aguardassem por System Of A Down, o término do show de Evanescence já deixou saudades - a performance de Amy Lee no piano ficou certamente entre os momentos mais marcantes do Rock In Rio 2011 ("My Immortal" não permite que me desmintam).

Em vez de imagens nos telões, uma enorme cortina contendo os dizeres "System Of A Down" anunciava o que estava por vir. O delírio começou antes mesmo de os primeiros sons vindos dos instrumentos e, tão logo começava "Prison Song", a massa pulava enlouquecida na Cidade do Rock. Logo em seguida, "B.Y.O.B." (confira esse início de show clicando aqui)! E se o som do Palco Mundo ia aos trancos e barrancos (em alguns momentos era difícil escutar a voz de Serj Tankian), o uníssiono do público deu conta de manter a vibração lá no topo. Foram vinte e oito músicas na generosa apresentação, incluindo "Radio/Video", "Lost In Hollywood" e fechando com "Sugar". A banda, que tem um discurso político bastante ativo e presente em diversas composições, deixou o seu recado aos brasileiros, referindo-se aos povos indígenas, vítimas de um desenvolvimento desnecessário. Inspirador na luta contra a usina de Belo Monte! Ah! E pra quem curte uma rodinha, confira essa que rolou durante a música "Deer Dance".

Chovia firme sobre a grama sintética da Cidade do Rock, e várias poças se formavam sob os pés do público e também sobre o palco. O hiato de quase duas horas (que em pé, parado e molhado dão uma sensação de eternidade) entre o fim do show do SOAD e o início do show do Guns N' Roses foram o teste para ver quem estava disposto naquela madrugada de dois para três de outubro. Graças a Deus, resisti e pude curtir o show dessa banda de vinte e cinco anos de carreira e recheada de sucessos, que tocou trinta e duas músicas e sacodiu a galera. Um dos melhores momentos foi durante "Sweet Child O' Mine".

Se a edição de 2013 se confirmar, espero lá estar!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Contagem Regressiva Para O Rock In Rio 2011

Chegamos a setembro de dois mil e onze, mês que no dia vinte e três terá a abertura do maior festival de música nesse planeta. São sete dias de shows, num dos eventos mais aguardados do ano. Estou com ingresso para os dias 24.09 (motivação: Red Hot Chili Peppers) e 02.10 (motivação: System Of A Down).

Sou uma pessoa que pode ser considerada tranqüila - pelo menos se usarmos essa massa histérica como parâmetro - e aquela ansiedade louca que costuma anteceder momentos pelos quais estamos aguardando atenciosamente não tomou conta do meu inconsciente. Pelo menos não por enquanto.

Tenho ótimas expectativas para essas duas noites em que estarei na "Cidade do Rock", e hoje ouvi pela primeira (e também pela segunda) vez o mais novo lançamento do Red Hot, que é este álbum denominado I'm With You. A primeira impressão é de aprovação, espero inclusive voltar a este blogue para fazer comentários mais extensos a respeito deste trabalho.

Apesar da grande empolgação em assistir RHCP e SOAD na base do contato visual, estimo que o evento poderia ser ainda melhor. Farão falta bandas como Arctic Monkeys, Foo Fighters, Franz Ferdinand, R.E.M., The Offspring e U2, para só citar essa meia dúzia. Por outro lado, me parecem dispensáveis as escalações de NX Zero, Ivete Sangalo e Shakira, também para citar o mínimo de exemplos. Mas vá lá que seja, vou mirar em Capital Inicial, Snow Patrol, Detonautas, Evanescence e Guns N' Roses para não deixar cair o astral. Mas mirando com moderação, porque sabe-se lá como seria controlar a ansiedade para tudo isso que me espera.

Se você está entre os incontáveis indivíduos que deseja ir ao Rock In Rio 2011 mas não tem posse de ingresso, recomendo que fique atento a essas promoções que estão rolando. A disponiblidade de bilhetes para as pessoas físicas, como nós, foi limitada para que as empresas pudessem lucrar algo mais às custas da aproximação do evento. Uma pena. Aquele tanto de fila poderia ter sido minimizado se fosse adotada uma estratégia mais voltada para o público amante da boa música do que para o marketing empresarial. Coisas assim dificultam que encontremos alguma lógica no slogan "por um mundo melhor". Por ora, essa postagem fica por aqui. Abraços musicalizados.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Coincidência? Sincronia? A Conexão Limp Bizkit-Andrey Arshavin


Eventos que acontecem com alguma semelhança mas sem que ocorra uma relação de causa e conseqüência entres eles. A esse fenômeno damos o nome de "coincidência".

Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de "sincronicidade" para definir acontecimentos que se relacionam não por uma questão causal, mas sim de significado.

Há dois trechos na enciclopédia virtual Wikipédia que acho interessantes e aqui os reproduzo.
A sincronicidade difere da coincidência, pois não implica somente na aleatoriedade das circunstâncias, mas sim num padrão subjacente ou dinâmico que é expresso através de eventos ou relações significativas.

Acredita-se que a sincronicidade é reveladora e necessita de uma compreensão, e essa compreensão poderia surgir espontaneamente, sem nenhum raciocínio lógico. A esse tipo de compreensão instantânea Jung dava o nome de "insight".
Mas por que estou colocando isso por aqui? Na verdade, nem eu sei a razão. Mas sei o que me motivou: agora pouco comecei a ouvir Limp Bizkit (estou ouvindo até o presente momento dessa postagem). Conheço a banda há vários anos, mas não é um hábito meu escutá-la com freqüência, embora até goste de algumas músicas. Outro hábito que não tenho é o de rever lances futebolísticos do passado. Mas, agora pouco (pouco depois de começar a ouvir Limp Bizkit e dar pausa no reprodutor de áudio para assistir o vídeo) resolvi rever os gols de Liverpool e Arsenal numa partida que terminou empatada por 4a4, na temporada 2008-9.

Nesse mês de abril completam-se dois anos do jogaço em Anfield Road, que teve como destaque a participação do russo Andrey Arshavin, autor dos quatro gols do Arsenal.

Então, chegou a hora de mostrar a "coincidência": pausei o Limp Bizkit para assistir o vídeo. Inicio a reprodução do vídeo e ouço... Limp Bizkit! Pausei o vídeo e fui ver se o reprodutor de áudio estava em execução. Não estava. Era o vídeo mesmo! Ou seja, o camarada que editou o vídeo com os gols da partida escolheu, assim "por acaso", a música "My Way" como trilha sonora.

Eu disse "My Way"? Foi essa música a primeira que ouvi da banda.

Em tempo, eis o vídeo em questão.


Sábado tem Arsenal e Liverpool, em Londres. Ao que tudo indica, Andrey Arshavin estará em campo. Será que a boa é eu acompanhar o jogo ouvindo Limp Bizkit? De repente "dá sorte"...