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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2017 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

Faltam 2 finais-de-semana para o maior espetáculo da Terra. E é no embalo das canções que chega essa postagem: vamos analisar brevemente os 12 sambas do Grupo Especial para os desfiles de 2017 no Rio de Janeiro.

Estação Primeira de Mangueira. Atual campeã do carnaval, a Verde-E-Rosa novamente será a última escola a desfilar. E virá com um samba bem ao seu estilo: para cima. Literalmente, para cima. Se por um lado o refrão principal soa cansativo ao rimar "Aruanda" com "demanda" e "samba", por outro, há passagens belíssimas como aquela que versa: No peito patuá, arruda e guiné / Para provar que o meu povo nunca perde a fé. É uma composição de muita qualidade e que certamente vai levantar a Sapucaí. Pode botar fé que vai.

Unidos da Tijuca. Não que eu seja favorável a fazer comparações do agora ao que já passou, mas no caso da Tijuca-2017, isso ficou praticamente inevitável. Primeiramente porque a própria agremiação, em 2006, já havia trazido "música" como tema (Wantuir era o intérprete). Outro fator que força a comparação reside no fato de que o samba desse ano me lembrou demais - melodicamente - o de 2014 (homenagem a Ayrton Senna). Samba esse que, entre elogios e críticas, funcionou - e a Tijuca foi campeã. Mas a comparação final é talvez a mais cruel: do ano passado para este, é flagrante a queda na qualidade da composição. De toda forma, por mais que eu não seja fã de pegar o Borel e americanizar (prefiro fazer do Borel a Shangri-Lá, com o perdão de mais uma comparação), eu sempre hei de respeitar uma escola que tem Tinga no microfone e mestre Casagrande na condução da bateria. E eles são tão competentes, que é bem capaz de ajudarem a salvar esse samba na Sapucaí. 

Portela. Quem nunca sentiu um déjà vu se instalar ao ver a Portela sobre rio falar? A águia parece estar escolhendo as águas como habitat natural nos últimos anos. Gilsinho traz bastante suíngue para uma composição simples mas com bastante apelo emocional às raizes portelenses. Salve a Velha Guarda, os frutos da jaqueira / Oswaldo Cruz e Madureira. Agora é aguardar o rendimento do samba na avenida, com a escola tendo como grande trunfo o desenvolvimento do enredo nas mãos do genial Paulo Barros. E por falar em rendimento, ficou muito interessante o desempenho da bateria na primeira estrofe do samba, terreno fértil para bossas e paradinhas. Quem ousa vence!

Salgueiro. O samba de 2017 veio cumprindo a missão de carnavalizar a vida que é feita pra sambar. Aliás, isso vem sendo marca registrada no Salgueiro: sambas sambáveis. Daqueles que, com ou sem o título na apuração na quarta-feira de cinzas, podem ser lembrados numa roda de batuqueiros em outros carnavais. A letra é facil de memorizar - mesmo assim, eu consegui o feito de cantar "devoto dessa tal felicidade" e aprendi hoje, lendo a letra para publicar esse texto, que o verso diz "devoto da infernal felicidade". Enfim, nada que impeça de vislumbrar o paraíso no firmamento. Só entende quem é Salgueiro.

Beija-Flor. Iracema é enredo sob medida para o jeito Beija-Flor de fazer carnaval. E a narrativa do bonito samba não deixa dúvidas de que a escola explorará o modo de vida indigenista, com rituais, aldeias, divindades. Pra fazer de qualquer gringo um mameluco na Sapucaí. Neguinho, patrimônio vivo do carnaval, dá nova aula de interpretação. Há passagens muito interessantes, colocando poesia no romance entre a índia na floresta e o branco apaixonado. Porém, há que se dizer que achei cansativo o refrão principal (talvez fosse mais interessante não usar aquela seqüência de versos como refrão). De toda forma, talvez na avenida essa sensação seja atenuada em relação à gravação do CD. A conferir.

Imperatriz Leopoldinense. O primeiro ponto positivo do samba da Imperatriz foi ter mexido - mesmo que sutilmente - com o status quo. O simples fato de dizer que o belo monstro rouba a terra dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios causou reboliço no setor do agronegócio, que vestiu a carapuça no Congresso Nacional e resolver atacar a agremiação. Incrível como a essa altura do campeonato ainda tem quem ouse defender a usina hidrelétrica de Belo Monte. E o que dizer da pecuária, atividade que mais intensifica as mudanças climáticas globais com suas emissões de metano, degradações florestais e tantas outras mazelas? O samba da Imperatriz tem passagens em tom de lamento/apelo e outras em tom de grito de liberdade. Se for cantado em peso pelos componentes, proporcionará belíssimos momentos no carnaval 2017. E que a mensagem seja internalizada. Cantar - e viver - com sentimento é outra coisa. O clamor que vem da floresta não pode ser descartado ao término do desfile e precisa ecoar para muito além do carnaval. Queria ou não o Congresso Nacional.

Grande Rio. Pensa num samba com refrão fácil e pra cima. Pensou Grande Rio 2017. Não é difícil imaginar que vai rolar a festa e que vai levantar poeira quando a escola caxiense passar pela Sapucaí com a Invocada cantando Ivete. E como se não bastasse a letra fácil e o enredo altamente popular, de quebra há ainda dois versos mágicos na arte de "chamar para o refrão": Comunidade, povo do gueto eu sou / Caxias me abraçou. Outro ponto forte é a narrativa em primeira pessoa, que acontece em todo o decorrer do samba - exceto no refrão principal. Enfim, o fato é que se animação fosse quesito, esse samba estaria um degrau (talvez um palco, ou quem sabe um trio elétrico) acima dos demais.

Vila Isabel. É o samba do ano. Como se não bastasse a Vila vir conseguindo sistematicamente encaixar grandes composições com belas interpretações, em 2017 a escola superou as expectativas. Desde sacações geniais como Eu faço um pedido em oração / Ouví-la pra sempre no meu coração até trocadilhos com gêneros musicais, tudo ganha ainda mais beleza na excepcional condução de Igor Sorriso. O povo do samba deve agradecer aos envolvidos nessa obra-prima do carnaval carioca. Valeu, Zumbi, a lua no céu / É a mesma de Luanda e da Vila Isabel.

São Clemente. Depois de ouvir o samba da Vila, o CD do Grupo Especial parte para a São Clemente. E você fica na dúvida se, na verdade, não partiu foi para o Grupo de Acesso (com todo respeito à segunda divisão do carnaval do Rio de Janeiro). Não sei precisar qual o maior erro em "Onisuáquimalipanse" (sim, é esse o título do enredo clementiano). Mas a sensação é de que o caráter descritivista histórico da composição muito mais atrapalha do que ajuda a agremiação. Mas nem tudo está perdido: na Sapucaí, essa história será contada pela Rosa Magalhães. Então, a coisa deve melhorar de figura. Mas o samba em si, sinceramente, acho que não tem salvação.

Mocidade Independente. A Verde-E-Branco da Zona Oeste pode bater no peito e dizer: "temos um samba". Samba para contar o enredo. Samba para levantar o componente. Samba com o selo Wander Pires de qualidade. Samba no embalo da bateria Não Existe Mais Quente. Lembra, pelo menos levemente, o explosivo "O Quinto Império", de 2008. Mas esse de 2017 sobre o Marrocos é mais melodioso e brincalhão. Com direito a Aladin no agogô e tantan nas mãos de Simbad. Padre Miguel tem o direito de sonhar.

União da Ilha. Não se assuste com Macurá dilê no girá, tampouco com Nzambi, Kitembo ou Nzara Ndembu. Sem espantos com a raiz Nzumbarandá, com Katendê, Kiamboté ou Kiuá. Só de boa com Kukuana, Ndandalunda e Kalunga. Também são dos nossos Nzazi e Matamba. Pode não ser tão simples de cantar, mas há muita beleza no samba da Ilha desse ano. Ito Melodia, que é a cara e voz da agremiação insulana, mandou ver mais uma vez com uma firme e encaixada interpretação. E o que temos aqui é algo com aquele astral dos (bons) sambas antigos. Daqueles que lembramos anos adiante. Coisa típica da União da Ilha do Governador.

Tuiuti. A Tropicália está aí, na Tuiuti e no vozeirão do Wantuir. Li e ouvi algumas críticas a esse samba. Sim, há alguns aspectos que poderiam ser melhorados. Mas ele é muito melhor do que dizem e digitam por aí. Rico de conteúdo (talvez tenha pecado pelo excesso) e com algumas passagens melódicas saborosas, sendo a minha preferida a que diz Quanta mistura, intercâmbio cultural. A missão da escola é dificílima: abrir os desfiles num ambiente onde há preconceito com quem vem de baixo e com quem vem primeiro. Isso por si só já causa certa apreensão. Mas raiou o sol, iluminando os versos da canção.
Imagem de divulgação dos sambas-enredo 2017 no Grupo Especial. Safra boa e para (quase) todos os gostos.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2015 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

12 agremiações, duas noites, milhões de espectadores. É o carnaval carioca se aproximando e trazendo com ele o maior espetáculo já produzido pela espécie humana: o desfile das escolas de samba.

Vamos aqui analisar as doze composições de 2015 (letra, melodia e algo mais).

Unidos da Tijuca. Seu enredo é a Suíça e seu desafio imenso: não será simples para a Tijuca desenvolver um carnaval na ausência do gênio Paulo Barros. A voz de Tinga, atual bicampeão com Vila-2013 e Tijuca-2014, fortalece um samba que não empolga. Mas que tem tudo para funcionar na avenida. Ou quase tudo.

Acadêmicos do Salgueiro. Culinária mineira é dose. Sem o Quinho, então... O Salgueiro foi a escola que mais despencou na qualidade de sua composição, deixando saudades do ótimo enredo Gaia. É possível que as coisas melhorem na Sapucaí, notadamente devido à força da bateria Furiosa e da comunidade salgueirense. Além, é claro, da plástica de Renato Lage. Aguardemos. De preferência, ouvindo o samba do ano passado.

Portela. Não basta ser portelense, precisa participar. Parece que o prefeito Eduardo Paes está levando esse pensamento a sério. Desde que se tornou o manda-chuva da cidade, a Portela não cansou de falar do Rio de Janeiro. Em 2015, de novo e novamente mais uma vez. Wantuir e Wander são dois intérpretes de alto nível e o samba tem tudo para levantar poeira. Já estou até tossindo.

União da Ilha do Governador. Irreverência é a síntese e a essência de um samba descontraído e que dá o seu recado. Lembra o enredo "Fama", apresentado pelo Salgueiro em 2013. Com a voz do inconfundível Ito Melodia, a bateria do prestigiado Ciça e a concepção do talentoso Alex de Souza, a agremiação insulana tem tudo para proporcionar ótimos momentos na Sapucaí.

Imperatriz Leopoldinense. É o samba da emoção. O casamento da letra e da melodia beirou a perfeição, cabendo elogios aos compositores e ao intérprete Nêgo. O desafio é conseguir no tom poético e introspectivo da canção alcançar a energia necessária para agitar os componentes de uma escola tachada como "fria".

Acadêmicos do Grande Rio. O título é péssimo, fazendo alusão proposital a um palavrão. Só por isso, entendo já caber uma penalização. A composição em si possui passagens interessantes e um andamento melódico viciante. As repetições das rimas "ar" e "er" na estrofe que antecede o refrão principal tornam o trecho cansativo. Acredito que a grande aposta da escola resida na parte visual, pois o enredo é de fácil entendimento e o carnavalesco conseguiu fazer de Maricá um quase-paraíso em 2014.

Beija-Flor de Nilópolis. Depois de exaltar farsas como Roberto Carlos e Boninho (na primeira teve a complacência dos jurados e na segunda, não), a Beija-Flor vem com um enredo com mais cara de Beija-Flor: África. Neguinho da Beija-Flor, um patrimônio do carnaval, fez interpretação magistral: ele consegue cantar o mesmo tema na mesma entonação sem se tornar necessariamente repetitivo. "Negro canta, negro clama liberdade". A sensação é de que já ouvi isso antes. Mas, vá lá, antes repetir a exaltação à africanidade do que homenagens a marionetes da ditadura. Salve Guiné!

Estação Primeira de Mangueira. É o samba do ano. Os refrões carregam a cara e o DNA da Mangueira. Gostoso de ouvir, fácil de memorizar, prazeroso de cantar. Mulher brasileira em primeiro lugar! Só espero que não gere conotações xenófobas ou sexistas, porque pra quem curte uma polêmica, dá pra encontrar terreno fértil nesse trecho. Sugiro colocar isso de lado e deixar a Mangueira passar.

Mocidade Independente de Padre Miguel. Simples e direto, o samba da Mocidade é um prato cheio para as surpresas do inventivo Paulo Barros. Eu já fico viajando se o genial carnavalesco não vai inovar numa interação entre a ala das baianas e a bateria... Roda baiana, cai nesta folia! De verde e branco com a bateria! Que o mundo não acabe antes do desfile da Mocidade. Ironicamente, a escola que foi campeã pela última vez com a voz de Wander Pires, entregou ao Bruno Ribas (campeão com Paulo Barros) os dizeres "a hora é essa", logo após o refrão. Para quem acredita em superstição...

Unidos de Vila Isabel. Mais uma vez, a Vila traz para a Sapucaí um dos melhores sambas do ano. A letra é inteligente e o andamento é gostoso de cantar, mas talvez vacile pelo fato de não apresentar "quebras melódicas", isto é, não rola aquele suingado. De toda forma, é fato que quem nasce lá na Vila nem sequer vacila, ainda mais com a Swingueira de Noel na área. Se a dignidade volta pro ninho, é o momento certo para a comunidade de Isaac, Noel e Martinho cantar com força o samba esse ano. Com mais força do que o que se (ou)viu no primeiro ensaio de 2015.

São Clemente. A aurinegra de Botafogo trocou sua marca registrada - a irreverência - pela emoção. O enredo em homenagem a Fernando Pamplona, assinado por ninguém menos que Rosa Magalhães, chega a parecer uma declaração de amor. Se a escola (leia-se a comunidade clementiana) conseguir agitar o sambódromo mesmo tendo um samba sem explosão e sendo a primeira a desfilar na segunda-feira, o resto está em ótimas mãos: basta contar o número de carnavais conquistados por Fernando ou Rosa (ele é tetra e ela é hepta).

Unidos do Viradouro. Confesso ter dificuldades para analisar esse samba. Vejo nele qualidades e potencialidades permeadas por um ar de "tá faltando alguma coisa". É pouca coisa, acho. Até porque a letra tem beleza. Mas falta algo, principalmente por se tratar de uma escola com a incumbência de abrir os desfiles, uma posição historicamente ingrata no carnaval carioca (e isso é muito mais culpa dos jurados do que qualquer outra coisa). Torcendo para que esse algo que talvez esteja faltando apareça na Sapucaí, com a energia de uma comunidade que voltou ao seu lugar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Salve A Mocidade (Nunca Foi Tão Sério)

O hino composto por Elza Soares e que em muitos carnavais foi o "esquenta" da tradicional escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel (inclusive em 2013) é uma exaltação à agremiação, notadamente à bateria, que revolucionou os desfiles com a invenção da paradinha.

Hoje, talvez mais do que nunca, "Salve A Mocidade" virou uma expressão de clamor por dias melhores à verde-e-branco de Padre Miguel. Desde que Paulo Vianna assumiu a presidência desse grêmio recreativo é público e notório o declínio da estrela-guia.

O acúmulo de maus resultados foram se acentuando. Já não se entra na Sapucaí para disputar o título. Desfile das campeãs, outrora habitual, não acontece desde 2003. E, para piorar, são três vezes na 11ª colocação nos últimos sete anos, perigando o rebaixamento para o Grupo de Acesso.

A situação chegou a tal ponto que, mesmo quando desfila em grande nível (caso de 2012, quando Alexandre Louzada desenvolveu enredo sobre Cândido Portinari de maneira magistral), a escola não conquista "o respeito" do corpo de jurados. Em 2013, o rigor nas notas mais pareceu perseguição.

Mas quem será que estão perseguindo? Por que será que estão perseguindo? Questões políticas à parte, há que se cobrar justiça nas notas, pois o carnaval é um entretenimento e competição, envolvendo paixões humanas e investimentos financeiros. Só que não. Não é apenas no âmbito do mau julgamento que reside a preocupação independente. É, também, no fato de que falta à Mocidade aquela cara de Mocidade. De escola que chega de maneira arrebatadora na avenida e deixa o sambódromo aos gritos de "é campeã".

É chegada a hora de o senhor presidente Paulo Vianna reconhecer que não será trocando de carnavalesco, de mestre-sala, de porta-bandeira, de intérprete de samba-enredo, de coreógrafo de comissão-de-frente, de diretor de bateria (tudo isso e muito mais já foi mexido e alterado) que a escola irá retomar seu brilho. É preciso mudar um posto. O posto máximo. O de presidente da escola. E, a partir daí, fazer a renovação que Padre Miguel tanto deseja. A estrela pode estar decadente. Mas o coração independente há de guiá-la de volta, firme e forte, à fortaleza do firmamento.

Salve a Mocidade! Renuncie, Paulo Vianna!



O vídeo acima é uma manifestação de ilustres independentes, pessoas com trajetória de vida que se confundem com a da própria Mocidade. É também uma convocação à mobilização popular, com passeata marcada para o sábado, 23.02.2013, às 19h, em Padre Miguel.

Petição pública pedindo a renúncia do presidente Paulo Vianna disponível em http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2013N36079.

Salve a Mocidade!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval 2013 - Eu, Jurado

Quesito a quesito, jurado a jurado, saberemos somente na quarta-feira de cinzas o resultado do carnaval na Sapucaí. A maioria dos desfiles foi de alto nível, embora o número de imprevistos também tenha sido relativamente elevado.

Vou aqui fazer uma espécie de avaliação comparativa e escolher as melhores exibições de acordo com cada objeto de análise. Depois, coloco uma lista de classificação de acordo com a preferência pessoal e as expectativas com relação aos julgadores oficiais selecionados pela LIESA.

Repetindo que assisti os desfiles de domingo no setor 10 e os de segunda-feira no setor casa. São inversamente proporcionais na questão do conforto e da precisão em torno do que está acontecendo. Eis as notas. Digo, vamos em frente.

Imagem do carro abre-alas da Unidos de Vila Isabel
Melhor desfile: Vila Isabel
Bateria: Mocidade
Samba: Vila Isabel
Intérprete: Luizinho Andanças (Mocidade)
Enredo: Salgueiro
Alegorias: Vila Isabel
Fantasias: Ilha
Baianas: Imperatriz
Ala: Torta alemã (Tijuca)
Carro alegórico: Floresta Encantada (Tijuca)
Comissão de frente: Imperatriz
Mestre-sala e porta-bandeira: Vila Isabel
Carnavalesco: Rosa Magalhães (Vila Isabel)
Personalidade: Mestre Marcão (Salgueiro/São Clemente)

Parte da frente de alegoria da Império da Tijuca
Melhor desfile no Grupo de Acesso (Série A): Império da Tijuca
Bateria: Cubango
Samba: Viradouro
Intérprete: Davi do Pandeiro (Viradouro)
Enredo: Cubango
Alegorias: Estácio
Fantasias: Império Serrano
Baianas: Alegria da Zona Sul
Ala: Tatus (Renascer)
Carro alegórico: Abra-alas da Estácio
Comissão de frente: Império Serrano
Mestre-sala e porta-bandeira: Unidos de Padre Miguel
Carnavalesco: Paulo Barros (Renascer)
Revelação: Júnior Pernambucano (Império da Tijuca)
Personalidade: Shangai (Cubango) e Davi Corrêa (Tradição)


Classificação por preferência e expectativa na apuração

1º Vila Isabel (termina entre os 3 primeiros lugares)
2º Tijuca (entre o 3º e 5º)
3º Salgueiro (entre 2º e 4º)
4º Imperatriz (entre 4º e 6º)
5º Beija-Flor (termina entre os 3 primeiros lugares)
6º Mocidade (entre 8ºe 10º)
7º Ilha (entre 6º e 8º)
8º Mangueira (entre 7º e 9º)
9º Grande Rio (entre 6º e 8º)
10º Inocentes (11º ou 12º)
11º Portela (entre 8º e 10º)
12º São Clemente (11º ou 12º)

No Grupo de Acesso, acredito que o título fique entre Viradouro, Estácio, Império da Tijuca e Cubango. O descenso fica entre Jacarezinho, Vila Santa Tereza, Parque Curicica, Tuiuti e Tradição. Aliás, das três que caem, dá para afirmar que será Vila Santa Tereza e mais duas.

Grupo Especial 2013 - Segunda Noite De Desfiles

Assistir pela TV é muito diferente de estar presente na Sapucaí. Mas vamos assim mesmo analisar a noite de desfiles que encerrou as apresentações no carnaval 2013 no Rio de Janeiro (veja os comentários sobre a noite dominical).

São Clemente

Com um canto forte (que ficou evidenciado nas ousadas paradinhas da bateria onde até o intérprete Igor Sorriso parava de cantar) e um desfile irreverente, a São Clemente abriu bem a segunda noite de apresentações no sambódromo. O carro "Caminho das Índias" estava primoroso, com esculturas irrepreensíveis de Shiva. As baianas vieram com um bonito colorido, mas num chapéu que parecia desconfortável de tão grande. Mas talvez pior do que o chapelão seja o fato de as senhoras clementianas desfilarem enfileiradas, o que me passa uma idéia de restrição à liberdade de movimentos. Quem mais do que as baianas merece passar pela Sapucaí bem à vontade?

Entre altos e baixos na passagem da aurinegra de Botafogo, foi a primeira vez que vi um merchandising em pleno tripé de comissão de frente, onde os telões mostravam o logotipo da mesma emissora de televisão que transmitia o desfile e que monopolizava o "Horário Nobre" enredado. O que se viu foi muito mais uma reverência à empresa de comunicações, pois não houve espaço para nenhuma obra que tenha sido transmitida em outros canais. A bateria, ponto alto da apresentação tanto pela fantasia irreverente quanto pela performance dos ritmistas, contava com ninguém menos do que Mestre Marcão (ele mesmo, que dirige a bateria Furiosa do Salgueiro) tocando caixa. Humildade e competência.

Mangueira

A Mangueira teve um grande avanço na parte estética se compararmos esse desfile de 2013 com o de 2012, ambos com Cid Carvalho como carnavalesco contratado. Se naquele ano a escola conseguiu um sétimo lugar, poderíamos pensar que não seria difícil a Mangueira partir em direção ao título dessa vez, notadamente por se tratar de uma escola de forte apelo popular e que parecia encontrar uma plástica funcional para narrar o enredo. Mas o desfile da Manga teve problemas. Algumas alas pareciam repetitivas, a evolução foi irregular, componente da comissão de frente deixou o chapéu cair em frente a uma das cabines de jurados e, de quebra, a escola concluiu o desfile sete minutos além do tempo máximo regulamentar.

Mas a Estação Primeira tem mais motivos para ser lembrada por seus acertos do que erros. A bateria ousou em vir com 496 ritmistas, fazendo transições entre os grupos que tocavam os instrumentos. Porém, o que mais me impressionou não foi nem essa transição, e sim o recuo "inventado", pois o tradicional não comportaria todos eles - foi uma parte para o recuo de sempre e outra para um corredor, do lado oposto, alguns metros a frente. Manobra arriscada e muito interessante. Só que a agremiação não soube lidar com as inovações conciliadas à grandeza da escola, e a correria e o atraso foram consequências quase naturais. O agravante foi o último carro alegórico, que tinha uma libélula em altura maior do que o último obstáculo. Tentaram de várias maneiras abaixar a libélula, mas a solução acabou sendo inusitada e inédita: o inseto voador passou por cima do concreto! Isso sim é que é passar voando pela Sapucaí. No geral, considero que a Verde-e-Rosa esteja de parabéns, principalmente pela homenagem ao eterno Delegado, em plena comissão de frente.

Beija-Flor

Chamando de "Amigo Fiel" aquele mesmo ser que é explorado e escravizado para as mais diversas atividades, a Beija-Flor fez do Mangalarga Marchador um enredo trágico filosoficamente. Primeiramente, pela falácia de que haja uma relação de amizade com o oprimido. Segundo, e não menos importante, pelo uso abusivo de penas de animais para a confecção de fantasias e alegorias. Fantasias e alegorias essas que souberam transmitir a mensagem calculada pela agremiação, a maioria delas de uma estética belíssima e efeitos deslumbrantes.

A alegoria com 20 mil tufas de palha foi um ponto alto no desfile nilopolitano. Além do visual bem resolvido e funcional visto nesse carro alegórico, antes 20 mil tufas de palha do que uma pena de faisão. O carnaval precisa se desvincular do sofrimento animal. Urgência ética. Diria que o desfile da Beija-Flor nessa segunda-feira foi a antítese do desfile da Renascer de Jacarepaguá, no sábado, onde a mensagem de preservação foi passada pelo enredo e pela escolha dos materiais. Ademais, parabéns ao Kennedy pelo magnífico trabalho de pintura desenvolvido na agremiação.

Grande Rio

Como de hábito, Roberto Szaniecki e Grande Rio trouxeram um carnaval carregado de gigantismo. O tema patrocinado dos royalties foi um prato cheio para a megalomania, que passava por fantasias individuais como a dos robôs, alas como a das baianas e alegorias como a da plataforma petrolífera. Sobrou até pra comissão de frente, trajando pés-de-pato enormes e passando pela Sapucaí de maneira heróica, pois imagine você a dificuldade de andar naquelas condições.

O pior samba do ano não foi de todo trágico, e isso se deve à sensacional bateria Invocada. Sob o comando de Mestre Ciça, os ritmistas caxienses deram um show com paradinhas e coreografias que são o atestado de genialidade desse ícone do carnaval carioca. O final do desfile da escola foi arrebatador, com uma das mais belas alegorias de todo o carnaval desse ano: um lindo iguana com deslumbrantes águas vivas que pareciam flutuar na Sapucaí, seguidos pelo contraste com a poluição de desastres ambientais. Adoraria ter visto a saída da bateria do recuo, até por se tratar de um momento do desfile conhecido por os ritmistas fazerem uma graça. Mas a emissora preferiu filmar o próprio estúdio montado na dispersão...

Imperatriz

Cahê Rodrigues estreou de maneira sublime na escola de Ramos. Foi possivelmente o desfile mais surpreendente do Grupo Especial: poucos falavam da Imperatriz como capaz de trazer uma bela apresentação, mas o que se viu foi uma passagem digna de escola campeã do carnaval. A comissão de frente estava sensacional, as alegorias de muito bom gosto e as fantasias eram praticamente todas elas de um visual limpo e caprichado. Não sei se houve alguma escola mais bem vestida do que a Imperatriz Leopoldinense, com destaque para a ala das baianas e a bateria. Aliás, que som da Swing da Leopoldina... #MestreMarconeVive

O Pará e os paraenses devem ter ficado orgulhosos pela homenagem prestada, mas há que se dizer que faltou um teor crítico. O tal "exemplo pro mundo" é um verso muito sério para retratar um cenário onde índios são assassinados por fazendeiros, coisa que em momento algum foi exposto no desfile, desfile esse que trouxe a figura de indígenas em praticamente todos os setores. Ótimas fantasias, alegorias e esculturas, mas a mensagem mascarou um estado de covardia que nem todos querem admitir que existe. Oremos à Virgem de Nazaré, pois mesmo se um dia a força nos faltar, a luz do seu olhar vai nos abençoar.

Vila Isabel

Os gritos de "é campeã" vieram sob medida para a apresentação arrebatadora da Vila de Noel, Martinho e... Rosa Magalhães. A Maga do carnaval acertou a mão mais uma vez e trouxe a escola praticamente impecável para a Sapucaí. A comissão de frente era de arrancar lágrimas dos olhos. O abre-alas, de uma deslumbrante riqueza e limpeza. As primeiras alas, impactantes.

Mas a grande covardia era o samba-enredo, um dos melhores da história catalogada do carnaval. Poesia do início ao fim. Coube à bateria dos Mestres Paulinho e Wallan a tarefa de não ofuscar o samba, pois não havia nada que precisasse ser melhorado. Missão cumprida. E, não satisfeitos, fizeram mais: sob coreografia de Carlinhos de Jesus, a Swingueira de Noel saiu do recuo e montou um arraiá em plena Sapucaí. Me arrepiam os pêlos só de digitar, olhos começam a lacrimejar. Enfim, não haveria maneira melhor de se encerrar as apresentações. Faltou só o dia clarear. Ainda era noite na manhã de terça-feira. Mas o galo jamais cantou tão alto. Parabéns, Vila Isabel!
O espantalho Julinho e o canavial Rute: casal de mestre-sala e porta-bandeira da Vila Isabel estava arrebatador. Desfile coloca a escola como forte candidata a levantar o terceiro título.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Noite De Encerramento Da Série A 2013 Foi Belíssima No Rio De Janeiro

A segunda noite de desfiles no novo Grupo de Acesso no carnaval do Rio de Janeiro (Série A 2013) foi maravilhosa. Além de apresentações bonitas visualmente e alguns sambas interessantes, tivemos um memorável encerramento através da Renascer de Jacarepaguá de Paulo Barros: um desfile sem uso de nada de origem animal. Considero isso como um marco para o carnaval. A prova viva de que é possível, viável e aconselhável trazer uma escola ética, colocando na prática a preservação e o respeito que tantas vezes são teorizados em diversos enredos. Espetacular. Que vire tendência! A vida agradece!

Agora vamos analisar as apresentações dessas últimas dez escolas, assim como fizemos com relação às nove primeiras.

União de Jacarepaguá

Veio falando da cidade de Vassouras e, enquanto desfilava, a emissora que deveria transmitir a passagem da escola preferiu manter sua grade habitual, com novelas, reáliti e companhia. O jeito foi aguardar o VT, que passou após o encerramento da Renascer de Jacarepaguá. E valeu esperar: a escola veio bem, desfilando um colorido muito bem distribuído. Os primeiros setores foram quase que integralmente nas cores da agremiação alviverde, com direito à presença do carnavalesco Jorge Caribé num belo tripé vegetacional. Foi um desfile leve, com três alegorias (a maioria das escolas trouxe quatro) e o encerramento com um tripé (nesse caso não achei uma escolha acertada, pois "esfriou" o desfecho da apresentação). A bateria de Mestre Marquinhos foi generosa em suas bossas, sendo o destaque nessa "abertura" da segunda noite (abertura para quem estava lá, quase fechamento para quem acompanhava pela emissora noveleira).

Paraíso do Tuiuti

Carente de irreverência, o enredo sobre Chico Anysio passou pela Sapucaí de maneira sem graça. Teve um ou outro momento interessante, mas o conjunto da obra foi um desfile pesado esteticamente, por vezes beirando a confusão visual. A comissão de frente, que teve dois componentes sendo flagrados com mal-estar após a apresentação, me pareceu mal concebida, não aproveitando a versatilidade do humorista retratado no enredo. De mais belo, achei a rainha de bateria Mayra Cardi. De mais engraçado, a entrevista de um repórter com uma integrante da ala das baianas (elas vieram vestidas de noivas): "Dona Edna, como você faz para segurar seu casamento?", perguntou. Ao que a componente respondeu: "Eu matei os dois". Chico deve ter sorrido, onde quer que estivesse.

Tradição

Foi a primeira escola pela transmissão televisiva, a terceira para quem estava lá. Estou aqui pensando se seria melhor (ou menos pior) para a escola entrar abrindo a noite ou vir na posição que veio. Sinceramente? Pouco importa. O desfile foi feio visualmente, com fantasias de gosto pra lá de duvidoso. Sem entrar no mérito do orçamento limitado, já sabendo que isso realmente interfere significativamente na execução das idéias, mas o fato é que não é porque não se tem de dinheiro que as coisas tenham que ser bizarras. De toda forma, a Tradição possibilitou um dos grandes momentos da Série A: o compositor Davi Corrêa, autor da obra original de 1981 e que foi reeditada 32 anos depois, não apenas estava lá esbanjando carisma como cantou junto do intérprete oficial, Marquinhos Silva. Uma viagem no tempo. Irregular esteticamente, a Tradição foi a dona da noite na parte sonora do espetáculo, com um samba que funcionou novamente. E tem cara de que funcionará sempre, sobretudo na ilustre presença de Davi Corrêa. Cabe também elogiar a proposta da escola de reciclar os materiais. O gosto a gente discute, uns podem se agradar e outros nem tanto (meu caso). Mas um desfile reciclado e com uso de materiais alternativos será sempre melhor que um degradante ética e ambientalmente.

Império Serrano

Trazendo a cidade de Caxambu como enredo, o Império Serrano conseguiu fazer um desfile abordando as águas sem cair na mesmice que o tema tanto escorrega. Mérito para o carnavalesco Mauro Quintaes, que proporcionou um desfile com alguns momentos memoráveis. A começar pela comissão de frente, que sofreu o desfalque do tripé (por alguma razão, o elemento alegórico ficou de fora do desfile) mas que não sentiu a falta da alegoria: com uma coreografia funcional e fantasias sensacionais, a comissão imperiana inovou e encantou. O carro abre-alas, limpo e tecnológico, remete ao estilo raitéqui de Renato Lage, com direito a um telão circular que deu um efeito muito legal de movimentos de água. Por fim, o último carro alegórico foi belíssimo: mulheres grávidas formavam a coroa, símbolo da agremiação. As fantasias foram de alto nível, mantendo um padrão de qualidade do início ao fim. Se vai subir para o Grupo Especial, não sei. Mas foi um baita desfile da escola.

Cubango

"Teimosias da Imaginação" foi a confirmação do talento desse carnavalesco chamado Severo Luzardo. Acertou a mão na ala das baianas (espetaculares em preto-e-branco), trouxe o mais belo tripé da Série A 2013 (um rinoceronte em vime) e teve na figura de Shangai, homenageado, um momento a ser lembrado por muitos carnavais, de emocionar mesmo. Um enredo ousado e uma bateria abusada, com o talento de Mestre Jonas ajudando a tornar o desfile ainda melhor. Faltou o canto dos componentes, prejudicando a harmonia, mas foi um desfile com vários atributos que colocam a Cubango entre as mais fortes concorrentes ao troféu.

Sereno de Campo Grande

Caçula do grupo, a Sereno de Campo Grande nem alcançou a maioridade e já fez um desfile de gente grande. O enredo é daqueles que são sempre bem-vindos, trazendo a proposta de um mundo com mais consciência. É uma temática que cai para o abstracionismo, mas que materializada em alegorias e fantasias consegue passar a mensagem. O samba era praticamente um hino à paz, com passagens belíssimas, porém de difícil memorização. Fantasia e maquiagem da comissão de frente, esculturas no florestal abre-alas e a ala da reciclagem foram momentos fortes no desfile. Lamento é o camarada falar em paz, harmonia, unicidade e colocar tantas penas de seres abatidos covardemente. A se repensar, para que teoria e prática caminhem e desfilem juntas.

Império da Tijuca

Juninho Penambucano, carnavalesco da escola, é pra mim a revelação do carnaval 2013. A África estilizada no abre-alas causou bonito impacto visual, que me remeteu ao desfile da Vila Isabel homenageando Angola, ano passado. Deve ter rolado influência sobre esse desfile. O jogo cromático foi dos mais bonitos na noite e há que se dizer que encerrar o desfile sobre mulheres negras com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida trata-se de algo formidável. Abençoando a apresentação. Teve perfil de campeão. Aguardemos a apuração.

Caprichosos de Pilares

Com um dos enredos mais originais do ano (diria até que possivelmente o mais original), a Caprichosos trouxe sua irreverência habitual para falar sobre os fanatismos. A performance ilusionista da comissão de frente, a bateria vindo de Profeta Gentileza e a crítica ao fanatismo religioso foram momentos para se recordar. Pelo conjunto, tivemos um desfile cheio de mensagens, algumas talvez até mesmo menos explícitas do que outras, mas também presentes, sendo ao mesmo tempo crítico e irreverente, porém, pecando no visual. E pecar no visual após uma apresentação como a da escola que a antecedeu tem um peso maior. Uma questão de fanatismo por comparações.

Unidos de Padre Miguel

África novamente. E lá vamos nós comparar com tantos desfiles que retrataram o continente. Dessa forma, por mais que a Unidos de Padre Miguel tenha conseguido uma apresentação correta, pouco ou nada acrescentou de novo. Achei belíssima a roupa do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, reunindo cores que não são habituais nessas vestimentas. Também gostei muito do setor em torno da alegoria da Galinha de Angola: o carro ficou bacana, a ala que o antecedeu era uma das mais bonitas da noite e ala seguinte, das crianças, estava o maior barato. Possivelmente a ala de crianças que melhor passou pela Sapucaí. No final das contas, um desfile que você gosta mas se pergunta se é só isso. Era.

Renascer de Jacarepaguá

Um encerramento de Série A para lavar a alma. Com um enredo preservacionista, a Renascer desfilou o preservacionismo em todos os seus componentes, da comissão de frente ao último integrante da escola. As alegorias-vivas marcaram presença com a assinatura do gênio Paulo Barros, proporcionando momentos como o belíssimo carro das joaninhas nas plantas, onde humanos faziam uma revoada de pássaros. Soluções como os guarda-chuvas floridos foram muito interessantes. Mas o grande destaque foi o conjunto das fantasias, impecável. Impecável na estética, impecável na mensagem, impecável na confeccção. Nada de origem animal, ou seja, a crueldade com faisões, patos, gansos, araras, pavões e tantas outras vítimas da depenagem não esteve presente. Desfile pra nos fazer renascer em uma nova consciência. Que se esteja criando uma nova tendência! Parabéns, Renascer! Parabéns, Paulo Barros!
 Renascer de Jacarepaguá fechou os desfiles na Série A 2013 com uma apresentação memorável, que marca época pela confecção de um carnaval sem uso de penas nem plumas, preservando a vida e trazendo soluções muito felizes para fantasias e alegorias. Mais uma marca deixada por Paulo Barros, para o bem do carnaval.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Ótima Noite De Desfiles No Rio De Janeiro

A primeira noite de desfiles na Sapucaí no carnaval 2013 foi altamente positiva. Com essa história de inchar o novo Grupo de Acesso (agora chamado de Série A), ficou ensacarada uma diferença no nível de organização e investimento entre as apresentações de escolas menos badaladas e outras mais conhecidas.

Vou aqui fazer breves análises sobre as nove agremiações que passaram pelo sambódromo na noite de sexta-feira para sábado. Assisti todos os desfiles pela televisão, cuja emissora detentora dos direitos de transmissão só foi mostrar as duas primeiras escolas depois de concluída a passagem da última, dando preferência a um VT do que àquilo que acontece ao vivo, o que considero um desrespeito ao samba.

Unidos do Jacarezinho

Abriu o carnaval da Série A fluminense com uma homenagem ao eterno Jamelão, maior intérprete de todos os tempos. O desfile em si foi bastante simples, pecando no acabamento em algumas alegorias, mas mantendo um conjunto sem grandes oscilações. Não há como deixar de comentar o fato de o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira ter assumido o posto de primeiro casal instantes antes de iniciar a apresentação: é que rolou um imprevisto de última hora (talvez de últimos minutos) com a roupa da primeira porta-bandeira, Raessa. Se você acha isso um absurdo, fique calmo, pois ainda vamos mostrar nesse tópico contratempos ainda mais bizarros. No mais, foi legal ver a última alegoria da escola trazendo uma escultura do Jamelão com um largo sorriso, em homenagem bem-vinda e que poderia - e deveria - ter sido prestada pela Mangueira. Então, obrigado à "Estação Primeira" do Jacarezinho pelo enredo.

Porto da Pedra

Fazendo uma viagem sobre o mundo dos calçados, o Tigre passeou do fútil a uma crítica social forte, passando pelo irreverente, num desfile de qualidade estética digna de uma escola acostumada ao Grupo Especial. O grande destaque na apresentação da escola de São Gonçalo foi a bateria Ritmo Feroz, comandada pelo competente Thiago Diogo. Ousada, cadenciada e intensa, a bateria foi um dos pontos altos de toda a noite de desfiles, pronta para arrebatar as quatro notas máximas, assim como conseguiram ano passado, apesar do rebaixamento. Muitas mulheres bonitas e pouco fantasiadas também deram uma levantada na performance da Porto da Pedra. Rose Barreto, por exemplo, foi uma que veio a frente do último carro alegórico e me deixou na dúvida: seria ela componente, tripé ou alegoria? Um espetáculo, isso com certeza. A escola, embora não tendo sido uma das minhas favoritas, tem chance de título.

Santa Cruz

Terceira escola a desfilar e primeira a ter sua transmissão ao vivo, a Acadêmicos de Santa Cruz trouxe um desfile colorido e com fantasias bem elaboradas. Houve problemas com a evolução devido às manobras de pelo menos dois carros no momento de entrar na avenida, mas a escola conseguiu, no geral, uma apresentação correta. Foi pouco para tentar disputar o título mas mais do que o suficiente para se manter no grupo. Cumpriu o seu papel, trazendo um desfile compacto e agradável de se assistir. Inclusive na parte sonora, pois o samba era bacana e contava com ninguém menos que o multicampeão Paulinho Mocidade no microfone.

Vila Santa Tereza

Para quem acredita naquela idéia de que os obstáculos aparecem para que futuramente possamos evoluir, então a Vila Santa Tereza deu um passo largo para a perfeição em anos vindouros. Foram muitos os contratempos que atingiram a agremiação, incluindo as fantasias da ala das passistas (as meninas vieram de calcinha e sutiã), da bateria (os ritmistas foram com trajes improvisados daqueles que vemos em blocos de carnaval bem xexelentos) e até a ala das baianas, que desfilou com apenas vinte e duas componentes, abaixo do mínimo exigido por regulamento. O chão da escola está de parabéns pela alegria genuína de desfilar nessas condições supracitadas. Destaque para a comissão de frente estilo afro, de coreografia ousada e com um visual simples e funcional.

Parque Curicica

Homenageando os noventa anos da Portela e reeditando o samba portelense de 1994, a União do Parque Curicica esteve bem na voz de Ronaldo Yllê e na bateria faceira de Lolo, mas o desfile não emplacou. A comissão de frente afro acaba nos levando a compará-la com a escola anterior, e a agremiação que a antecedeu pareceu-me superior nesse quesito. De toda forma, há que se dar os parabéns: a escola quase fechou as portas e somente definiu enredo três meses atrás. Exemplo de superação.

Estácio de Sá

Excelente. A Berço do Samba trouxe uma comissão de frente de arrepiar, um abre-alas imponente e um desfile de estética bem definida, com bastante luxo permeando alas e alegorias. Tudo isso num samba de refrão forte e com as bênçãos de uma bateria de pegada intensa. Foi um dos melhores carnavais assinados por Jack Vasconcelos que tenha assistido até hoje. A dúvida que fica é o quanto a correria e o décimo perdido pelo minuto excedente no cronômetro poderão impactar na busca da Estácio em retornar ao Grupo Especial. Subindo ou não, o fato é que a escola conseguiu um desfile à altura de suas tradições, numa bonita homenagem ao músico Rildo Hora.

Alegria da Zona Sul

Para mostrar toda sua alegria, a escola enfrentou incêndio no barracão e até uma enchente, sendo desafiada para conseguir trazer seu enredo para a Sapucaí. E não apenas trouxe como saiu-se bem homenageando o Cordão do Bola Preta, com uma simpática bateria vestida de Nêga Maluca e a ala das baianas mais bonita que passou pelo sambódromo nessa primeira noite - coloridonas sem perder a leveza, fugindo das fantasias brancas monocromáticas que predominaram entre as demais agremiações, as baianas da Alegria da Zona Sul foram o grande destaque da apresentação da escola.

Acadêmicos da Rocinha

Novamente com um enredo original, a Rocinha trouxe a alimentação como tema, numa abordagem criativa e irreverente por parte de Luiz Carlos Bruno. Uma pena que a temática tenha sido desenvolvida sem o teor crítico que merecia, banalizando a matança de animais para promover churrasquinhos de gato (comissão de frente), feijoada (em vários trechos do desfile), junk food (que teve uma alegoria inteirinha só para si) etc. Dado o talento inventivo do carnavalesco, diria que se ele fosse vegetariano poderíamos estar diante de um desfile para marcar época. Mas não foi o caso. Apesar dos pesares, foi maior barato ver componentes trajados de almôndegas pulando contentes num pratão de macarronada. Coisas do carnaval. Ah! Cabe aqui elogiar a bateria de Mestre Maurão, com um andamento muito legal e a quantidade recorde de 37 cuícas.

Viradouro

A Unidos do Viradouro fechou a primeira noite de desfiles com chave-de-ouro. Diria que foi uma apresentação arrebatadora por parte da escola carnavalizada por Max Lopes, homenageando o Salgueiro de maneira encantadora e emocionante. O samba-enredo é uma maravilha, disparado o melhor que ouvi até agora na Série A - se fosse no Grupo Especial, diria que só não é melhor que o da Vila Isabel, superando todos os demais. Davi do Pandeiro interpretou com maestria, trazendo uma melodia belíssima num samba sem refrão, mas que ecoou fortemente entre a passarela e as arquibancadas: houve um problema no som e, quando não se ouviam intérpretes, foi possível ouvir e se arrepiar com o canto forte das vozes humanas, sem microfones, a plenos pulmões. Mestre Pablo totalmente caracterizado, Carlinhos Coreógrafo espetacular, comissão de frente funcional e integrada ao primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, um abre-alas memorável, uma belíssima rainha de bateria e um carnaval onde Max mais uma vez mostrou porque é chamado de "Mago das Cores". Teve tudo isso e algo mais. A Viradouro está mais do que na disputa pelo título. Está de parabéns.
Homenageando a Acadêmicos do Salgueiro, a Unidos do Viradouro fechou a primeira noite de desfiles no Rio de Janeiro com uma apresentação sensacional. Para o blogueiro, uma forte concorrente ao título na Série A 2013.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Por Um Carnaval Sem Covardia Na Fantasia


O presente tópico vem em clima e ritmo de carnaval. Numa das épocas mais festivas do ano e considerado por muitos como o maior espetáculo da Terra, os desfiles das escolas de samba costumam trazer temas que muitas das vezes remetem para o bem, para pensamentos de preservação etc e tal. Mas de que adianta falar de preservação se não se faz a preservação?

Então, o blogueiro reeditou refrões de sambas-enredo desse ano de 2013, fazendo uma brincadeira com coisa séria. Na melhor das intenções. Quem sabe, um dia, olhemos para trás e pensemos: "caramba, a gente fazia fantasia violando corpos animais?". Precisamos parar com essa cultura de exploração. Viva o carnaval com ética e respeito. No falar e no fazer.

Deus Thor me chamou, vou nessa viagem
Que felicidade, é vegan meu bem
Metade da minha fantasia é sem plumas
A outra metade é sem plumas também
(Unidos da Tijuca)

Tá na capa da revista, o meu pavilhão
E na cara dessa gente, o orgulho a emoção
Sem plumas de bicho no peito
Tem banca, moral, respeito
(Acadêmicos do Salgueiro)

Fantasia sem crueldade, é pra lá de bom
Ao som do fole, eu e você
A Vila vem plantar felicidade no amanhecer
(Unidos de Vila Isabel)

Sou coerente, meu amor
Um vencedor, meu limite é o céu
Eu vim brilhar com a Beija-Flor
Valente e guerreiro, vegano fiel
(Beija-Flor de Nilópolis)

Um animal que sente dor, sou eu
Vem cá, me dá, o que é meu, é meu
(Acadêmicos do Grande Rio)

Cai na folia sem pluma, meu bem, vem na fé
Na ilusão da fantasia
Tem consciência quem quer
(Portela)

Mangueira... o trem da emoção
Viaja na imaginação
Minha fantasia é sem pluma, matou ninguém não
É poesia que faço de coração
(Estação Primeira de Mangueira)

Onde anda você, "ararinha"?
Saudade mandou te buscar
A Ilha é vegan na avenida
Mais que nunca vou te respeitar
(União da Ilha)

Uma onda me embala, invade a alma
No peito explode a minha paixão
Um mundo melhor, que felicidade
Minha fantasia não tem crueldade
(Mocidade Independente)

No norte a estrela que vai me guiar
Exemplo pro mundo: Pará
O talismã do meu país
Sem plumas a Imperatriz
(Imperatriz Leopoldinense)

Olha quem chegou, tem caçador na mata
As aves estão fugindo desesperadas
Fantasia sem pena, por favor, minha gente
Na tela da São Clemente
(São Clemente)

Meu oriente é você
Vim mostrar o meu valor
Inocentes, as aves merecem viver
Boicote penas e plumas, amor
(Inocentes de Belford Roxo)
Exemplo de "resto de uma fantasia". Abaixo, vídeo mostrando exemplo de uma indústria de penas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2013 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

Já virou tradição nesse blógui analisarmos os sambas-enredo das agremiações no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Fizemos isso em 2010, em 2011, em 2012 e, pela quarta vez, estamos marcando presença para comentar as impressões a respeito de cada composição. Como esse tópico está sendo publicado antes dos ensaios técnicos na Sapucaí, não teremos vídeos como aqueles que foram vistos ano passado. De toda forma, espero que seja proveitosa a leitura.

Escola: Unidos da Tijuca
Enredo: "Desceu Num Raio, É Trovoada! O Deus Thor Pede Passagem Para Mostrar Nessa Viagem A Alemanha Encantada"
Trecho: Vai brilhar em cada cinema, um anjo sonhar / Em prosa e poema, se eternizar
Análise: O enredo é um passeio pela Alemanha, e o passeio é tão longo que pode ser considerado um mérito da escola o fato de o samba não ter ficado enfadonho. Pelo contrário. Tirando o refrão principal, que destoa pelo vazio de conteúdo, merece elogios a obra tijucana. E tudo deverá ficar ainda melhor quando se revelar cada ala e cada alegoria no desfile elaborado pelo genial Paulo Barros.

Escola: Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: "Fama"
Trecho: Sou eu o artista, famoso sambista / Me chamo Salgueiro
Análise: É impressionante como qualquer coisa que caia nas mãos e no gogó do Quinho, dá samba. Se analisarmos friamente a letra do Salgueiro para 2013, a composição é muito abaixo da do ano passado. Mas a alegria é a mesma de sempre e dá aquela vontade de se mexer, de sambar sem parar quando se ouve essa parceria dos intérpretes com a Furiosa Bateria.

Escola: Unidos de Vila Isabel
Enredo: "A Vila Canta O Brasil Celeiro Do Mundo – Água No Feijão Que Chegou Mais Um…"
Trecho: Agradeço a Deus por ver o dia raiar / O sino da igrejinha vem anunciar
Análise: A Vila está se mostrando especialista em fazer samba que concilia poesia e empolgação. No meu entendimento, é isso o que se espera de um bom samba-enredo. Essa é a segunda ou terceira vez nos últimos quatro anos que vejo na escola de Noel Rosa a melhor composição da safra. Salve, Martinho! Parabéns, Tinga!

Escola: Beija-Flor
Enredo: "Amigo Fiel – Do Cavalo Do Amanhecer Ao Mangalarga Marchador"
Trecho: Eu vou cavalgar pra encontrar / A minha história nesse mundo de meu Deus
Análise: É a Era dos patrocínios. Exploradores de equinos derramaram dinheiro em Nilópolis e a escola resolveu falar sobre o "puro sangue". Estivéssemos no século dezenove, grandes seriam as possibilidades de algum grêmio recreativo escola de samba se prestar a promover a escravidão de pretos para honrar as verbas injetadas pelos senhores de engenho. E Neguinho, de tão "profissional", se prestaria a cantar. E sabe o que mais? Muitos sambariam...

Escola: Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: "Amo O Rio E Vou À Luta: Ouro Negro Sem Disputa"
Trecho: Um Grande Rio de amor, sou eu / Vem cá, me dá, o que é meu, é meu
Análise: É a Era dos patrocínios... A Grande Rio, que "surgiu" como uma escola que dava um banho de cultura, passou a ser uma captadora de recursos sem critérios. Dessa vez, foram os royalties do petróleo que seduziram a agremiação caxiense. O pior não é nem isso: a letra é medonha e há inclusive comentários levianos sobre a extração do combustível fóssil. Levianos para não dizer falaciosos. A palavra "preservar" deveria ser proibida de ser colocada em vão. Fico eu aqui imaginando se Nêgo, que retornou à tricolor, não sente saudades daqueles tempos em os enredos da Grande Rio eram escolhidos com menos influência financeira do que filosófica.

Escola: Portela
Enredo: "Madureira… Onde O Meu Coração Se Deixou Levar"
Trecho: Cai na folia comigo, meu bem, vem na fé
Análise: O samba portelense desse ano me lembra muito o do ano passado. Gilsinho seguiu a mesma linha melódica de 2012 e, novamente, a escola virá com uma composição gostosa de se cantar. Dessa vez, o apelo aos torcedores da escola é maior, pois o enredo conta a história do bairro de Madureira. Ninguém me perguntou nada, mas preferi o samba do ano passado.

Escola: Estação Primeira de Mangueira
Enredo: "Cuiabá, Um Paraíso No Centro Da América"
Trecho: Meu samba é madeira, é Jequitibá / É poesia dedicada a Cuiabá
Análise: Achei interessante o fato de as rimas mangueirenses serem verso-a-verso, praticamente na totalidade da letra. Isso não é receita de sucesso, mas quando a melodia ajuda, facilita demais para o samba cair na boca do povo. E essa é a impressão que tenho: será um dos sambas mais cantados em 2013. Com as bênçãos da Surdo Um.

Escola: União da Ilha do Governador
Enredo: "Vinícius, No Plural. Paixão, Poesia E Carnaval"
Trecho: Onde anda você, "Poetinha"? / Saudade mandou te buscar
Análise: Não apenas gostei - e muito - do samba da Ilha como achei esse trecho acima um dos mais belos feitos nos últimos anos. É simples e profundo, direto e reflexivo. Ito Melodia, mais uma vez, acertou no tom. Na Era dos patrocínios, há que se valorizar um enredo autoral homenageando um "imortal". Dinheiro nenhum compra isso.

Escola: Mocidade Independente
Enredo: "Eu Vou De Mocidade Com Samba E Rock In Rio – Por Um Mundo Melhor"
Trecho: Um mundo melhor… que felicidade / No Rock in Rio eu vou de Mocidade
Análise: Sou suspeito pra falar de samba da Mocidade pois não sei precisamente onde fica a fronteira entre o analista e o apaixonado. E, somando-se a isso o fato de ser um apreciador do festival denominado Rock In Rio, o melhor a fazer seria ficar calado dada tamanha parcialidade. Mas há pelo menos duas coisas que não posso deixar de dizer. A primeira é que não achei um grande samba e muito disso se deve às limitações que o próprio enredo impõe. A segunda é que, apesar disso, acho que há grandes chances de o samba puxado pelo Luizinho Andanças casar com o desfile preparado pelo Alexandre Louzada. De toda forma, nada que possa se comparar com a poesia que se fez ao Portinari no carnaval passado.

Escola: Imperatriz Leopoldinense
Enredo: "Pará, O Muiraquitã Do Brasil"
Trecho: Oh! Mãe… Mesmo se um dia a força me faltar, / A luz que emana desse teu olhar / Vai me abençoar
Análise: Muito legal ver um samba nas vozes de Dominguinhos e Wander. E o samba da Imperatriz tem muito a cara deles, principalmente do Dominguinhos. Não sei como será o funcionamento disso na avenida, mas torço para que seja o melhor possível. O refrão principal me parece um pouco problemático no sentido de que pouco passa de mensagem. Mas o trecho que o antecede é de tamanha beleza que talvez consiga amenizar um eventual estrago.

Escola: São Clemente
Enredo: "Horário Nobre"
Trecho: Nem adianta me ligar agora / Eu estou grudado na tela
Análise: Tem a irreverência característica da São Clemente. Ano passado, o "bububu no bobobó" funcionou bem na Sapucaí, ajudando a agitar componentes e arquibancadas. Resta saber se, em 2013, nessa apologia noveleira, o resultado poderá ser semelhante. A letra não me agrada, mas em meio a uma safra tão fraquinha, esse samba está longe dos piores do ano.

Escola: Inocentes
Enredo: "As Sete Confluências Do Rio Han – 50 Anos Da Imigração Sul-coreana No Brasil"
Trecho: Coréia do Sul, suas águas cristalinas são o espelho / Na cadência da Baixada / Deságuam no meu Rio de Janeiro
Análise: Estreante no Grupo Especial, a Inocentes traz um samba com cara de Grupo de Acesso. Mas isso não é problema para quem tem um gogó como o do Wantuir puxando o samba da escola. A melodia até flui bem, mas sinto a falta de um suingue daqueles que ajudem a bateria a brincar um pouco na avenida. O trecho que antecede o refrão principal me parece o ponto alto da obra belford-roxense.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Brincando De Jurado No Carnaval 2012

Caros companheiros na arte de admirar a expressão máxima da cultura popular brasileira (considerada também o maior espetáculo da Terra), pela primeira vez nessa presente existência material, consegui assistir aos dois dias de desfiles oficiais no Grupo Especial do Rio de Janeiro. E o que é melhor: numa boa localização (o setor 4, inaugurado por esses dias). E o que é ainda melhor: muito bem acompanhado. Então, cá estamos para fazer uma breve análise e também um breve julgamento (não necessariamente nessa ordem) sobre aquilo que foi visto/ouvido/sentido nessas duas noites memoráveis.

Renascer de Jacarepaguá. Muito agradável o desfile dessa escola, nem parecendo se tratar de uma estreante no Grupo Especial. O colorido e o traço de muito bom gosto do carnavalesco Édson Pereira no enredo homenageando o artista Romero Britto levaram a Renascer a desempenhar um belo papel, abrindo lindamente os desfiles nesse ano. O ponto forte da escola esteve justamente na parte estética, me levando a crer que esse carnavalesco tem muito a acrescentar nos desfiles do Grupo Especial futuramente. O bonito samba, embora não tenha contagiado a massa, também foi um ponto positivo. Mas cabe colocar que o intérprete Rogerinho Renascer cometeu um deslize grave aos 22 minutos de desfile, quando puxou a palavra "sensibilidade" em momento inoportuno, ignorando a repetição do refrão. A escola também vacilou no quesito evolução (seu último carro passava pelo setor 1 com cerca de 56 minutos no cronômetro, e os componentes aceleraram o passo para que a agremiação não estourasse o tempo-limite condedido em regulamento). Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente, vídeo da bateria.

Portela. Guiada por um chão forte e por um samba altamente funcional, a Portela empolgou a massa ao falar sobre a Bahia. E nesse sentido foi um contraste muito grande com relação ao desfile anterior (também pudera, estamos colocando em sucessão uma estreante no Grupo Especial com a maior campeã no carnaval no Rio de Janeiro). O ponto forte do desfile foi o samba-enredo interpretado por Gilsinho, que, aliado a uma comunidade bastante animada, foi capaz de fazer um saldo positivo na apresentação. Esteticamente, o início do desfile me pareceu melhor do que o final e, embora a escola de Madureira tenha sido a mais premiada pelo júri do "Estandarte De Ouro" (5 nomeações: samba-enredo, intérprete, bateria, passista masculino e passista feminino), não acho que o conjunto da obra portelense vá levar a águia para o desfile das campeãs. Se o andamento do barracão preocupava alguns quanto a um rebaixamento da escola, esse pensamento pode ser afastado: pelo que foi apresentado no domingo, é mais fácil a escola desfilar no sábado das campeãs em 2012 do que no sábado de carnaval em 2013 (embora ache que não vá acontecer nem uma coisa, nem outra). Clique para ver foto do desfile.

Imperatriz. A escola de Ramos fez um desfile recheado de bonitas fantasias (como por exemplo a da bateria), de alegorias interessantes (como por exemplo o belo carro que trazia uma sensacional escultura de uma baiana mexendo a panela com a colher) e apresentou uma impactante comissão de frente. Mas devo confessar que achei o desenvolvimento do enredo sobre Jorge Amado aquém. Não aquém de uma escola concorrente, mas aquém das próprias capacidades do ótimo carnavalesco que é o Max Lopes. Em alguns momentos, sequer reconheci o "Mago das Cores" pela sucessão cromática das alas - embora, no conjunto, ainda tenha sido um belo desfile. Problemas com pelo menos dois carros alegóricos deverão sacramentar a ausência da Imperatriz no desfile das campeãs. E eu já tenho dúvidas de se Max durará muito tempo mais nessa agremiação. Clique para ver foto do desfile.

Mocidade. Nesse momento o blogueiro torna-se (mais) suspeito para falar. Foi a primeira vez que assisti a um desfile da Mocidade de corpo presente na Sapucaí e a emoção tomou conta desde antes mesmo do cronômetro ser iniciado. E a Mocidade, tão capenga nos últimos anos, fez uma linda apresentação nesse ano de 2012. A homenagem a Portinari ratificou o talento de Alexandre Louzada, que trouxe um conjunto alegórico dos mais belos da noite, mostrando bom gosto na concepção e fácil leitura para os espectadores. A performance da bateria foi um espetáculo marcante, para coroar uma apresentação de alto nível da escola de Padre Miguel. O orçamento inferior ao das demais escolas (diz-se que foi o menor nesse ano) foi compensado pela força da comunidade, pela beleza artística do desfile e pelo bonito samba-enredo da escola. Se vai voltar no sábado é outra história - penso que não voltará, infelizmente -, mas o independente deve se lembrar de 2012 como um grande ano para escola, no que foi talvez o melhor desfile da estrela-guia desde a saída de Renato Lage. Clique para ver foto do desfile, foto do carro abre-alas, foto da bateria, vídeo da comissão de frente, vídeo da bateria, vídeo do 5º carro alegórico ("Êxodo Sertanejo").

Porto da Pedra. O patrocínio vindo de uma empresa que enriquece comercializando laticínios trouxe ônus e bônus para a agremiação de São Gonçalo. Se por um lado parece ter entrado bastante dinheiro na escola (haja visto a monumentalidade de determinadas alegorias e o uso de tecnologias em diferentes pontos do desfile), por outro o desenvolvimento de um enredo onde o samba diz coisas como "iogurte é leite, tem saúde e muito mais" foi um negócio complicado. Plasticamente, o resultado foi até satisfatório. Mas temo, ou melhor, torço para que a Porto da Pedra caia para o Grupo de Acesso. Acho que fará bem a escola, que pensará como mais critério da próxima vez que um investimento pomposo bater a porta. E fará bem também para o samba em geral, já que esse daí destoou da safra atual. Clique para ver foto do desfile.

Beija-Flor. Rica, exuberante, com um visual impactante. Patrocinada pelo governo do estado do Maranhão, a escola nilopolitana homenageou a capital São Luís com um desfile emocionante. Alegorias que retratavam os infortúnios passados na "escravidão negra" e a homenagem a Joãosinho Trinta no último carro alegórico foram de arrancar lágrimas. Mas não consigo admitir que São Luís do Maranhão se limite a escravismo, reggae e Joãosinho, conforme parece ter sugerido a escola. O uso de monstros na Beija-Flor voltou a marcar presença com força e foi visto com tamanha intensidade que fica difícil imaginar que alguém possa se atrair por um dia visitar a capital maranhense após assistir essa apresentação. Ano passado, a Unidos da Tijuca foi penalizada no quesito enredo. Creio que o mesmo possa - e deva - ser feito com a Beija-Flor nesse ano: o desfile da agremiação de Laíla e companhia mais parecia com "Essa Noite Levarei Sua Alma" do que qualquer outra coisa. Tudo indica que brigará pelo título, mas, na leitura de quem viu uma escola cuja comissão de frente passou por todo um setor sem fazer qualquer coreografia, não é merecedora nem de voltar no sábado. Clique para ver foto do desfile.

Vila Isabel. O melhor desfile da noite. Talvez o melhor desfile do ano. A Vila Isabel incorporou mais uma vez Kizomba e apresentou Angola com um vigor e uma autoridade narrativa dignas de campeonato. Rosa Magalhães deu um show na concepção das fantasias e foi muito correta no traço das alegorias. A comissão de frente representando a savana africana foi simplesmente sensacional, tendo sido possivelmente o fato mais marcante no Grupo Especial 2012. Vencedora de seis Estandartes de Ouro (escola, mestre-sala, porta-bandeira, enredo, baianas e personalidade com Rosa Magalhães), a Vila é favorita ao título. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente, vídeo da bateria.

São Clemente. O samba de ritmo acelerado interpretado por Igor Sorriso funcionou plenamente na avenida e embalou a escola numa apresentação bastante correta. Será difícil cravar se a São Clemente conseguirá escapar do descenso, mas a boa estética do carnavalesco Fábio Ricardo e a fácil leitura do enredo são dois fatores que podem pesar a favor da agremiação de maneira decisiva na empreitada de saborear por mais tempo um lugar no Grupo Especial. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente.

União da Ilha. Não era um samba tão fácil de cantar quanto o "bububu no bobobó" que o antecedeu. Nem de uma melodia tão atraente quanto o que viria a sucedê-lo. Mas a riqueza contida no enredo, a inteligente maneira de narrar a temática escolhida, o bom gosto para a elaboração de alegorias e fantasias e a sensacional comissão de frente (vencedora do prêmio "Estandarte De Ouro" foram ingredientes que compuseram um excelente desfile por parte da União da Ilha do Governador. O problema presente no último carro foi talvez o grande lamento do Grupo Especial esse ano, sobretudo levando-se em consideração a maravilha que era cada alegoria anterior àquela derradeira. De toda forma, a Ilha passou muito bem e fica a torcida para que possamos ver a chama olímpica acesa no sábado das campeãs. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente.

Salgueiro. Depois de assistir um desfile desenhado por Alex de Souza, que tal acompanhar um de autoria de Renato Lage? Presente dos deuses do samba essa seqüência de tão alto nível. E o Salgueiro veio belíssimo, como não poderia deixar de ser: o samba interpretado pelo ótimo Quinho sacudiu, a bateria conduzida por Mestre Marcão levantou e a agremiação passou a mensagem do "Cordel Branco E Encarnado" lindamente. No meio de tantos pontos positivos, onde era difícil eleger uma alegoria mais bonita em meio a tantas obras de arte, cabe colocar um porém: a escola teve dificuldades na entrada de pelo menos dois carros alegóricos e deixou um clarão nos primeiros metros de Sapucaí, restando saber se o jurado de evolução presente no primeiro módulo identificou a falha. Ano passado o gigantismo salgueirense também complicou a evolução da escola, só que dessa vez o dano foi, felizmente, muito menor que o visto naquela oportunidade. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente.

Mangueira. A Estação Primeira vestiu a camisa do Cacique de Ramos e incorporou o bloco festejado pela Verde-e-Rosa. A desenvoltura dos componentes, a leveza do desfile, a intensidade da interação com o público e a fluidez do samba fizeram mais parecer que na avenida passava um grande bloco do que exatamente uma escola de samba. E a Mangueira contagiou, emocionou, tocou. Só que ficou devendo na parte estética, vítima do gosto duvidoso do carnavalesco Cid Carvalho e talvez de alguma restrição orçamentária, embora o presidente Ivo Meirelles tenha exaltado algumas corporações instantes antes do início do desfile, fazendo uma propaganda pra lá de deselegante. A bateria de Mestre Aílton voltou a mostrar a sua marca e marcou época com outra performance ousada, com os ritmistas ficando por mais de dois minutos sem tocar seus instrumentos. Vamos ver para que lado essa balança de pontos altos e baixos vai pesar - pelo aspecto emocional, a Mangueira seria muito bem-vinda ao desfile das campeãs. Pelo lado puramente estético, é candidata ao rebaixamento. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente, vídeo da bateria.

Unidos da Tijuca. Da comissão de frente novamente surpreendente e impactante ao último carro, Paulo Barros voltou a trazer para o sambódromo um desfile recheado de sacadas geniais. Pode não ter sido o seu carnaval mais inspirado (particularmente achei que faltou um "algo mais" naquilo que tange as alas, embora sem compromenter a mensagem do enredo), mas sem dúvidas a Tijuca, mais uma vez, deu um espetáculo ímpar na Sapucaí. O carro alegórico homenageando Mestre Vitalino foi o ponto alto do desfile. Acho que a apresentação teria sido ainda melhor se a Tijuca desfilasse após uma escola menos "explosiva" que a Mangueira, pois houve um contraste nítido entre os dois sambas e as duas baterias. De toda forma, o trabalho foi bem realizado e os gritos de campeão ouvidos no setor 4 soaram bem. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente, vídeo do 3º carro alegórico ("Do Barro, Se Fez A Vida"), vídeo do 6º carro alegórico ("Festas Juninas"), vídeo do 7º carro alegórico ("Festa Da Coroação"), vídeo da saudação do público presente no setor 4.

Grande Rio. Não sei se a Grande Rio conseguiu superar os desfiles de Vila Isabel e Unidos da Tijuca, mas quer saber? Não importa. A história contada pela escola foi realmente de emocionar, fechando com chave-de-ouro os desfiles pelo Grupo Especial. Alegorias como a "Superação Sobre Rodas" e alas como a "Lembrando Gabrielle Andersen: Maratonistas" foram de levar às lágrimas. A mensagem foi passada com as boas soluções artísticas de Cahê Rodrigues, o gogó de Wantuir e a bateria de Mestre Ciça, levando a crer que a Grande Rio não somente volte a desfilar no sábado das campeãs, como também pode mostrar que chegou a sua hora de faturar o carnaval. Mas, depois de tudo o que foi mostrado, isso não importa. Importa é a beleza da mensagem que foi transmitida, renovando o sentimento de esperança. Clique para ver foto do desfile, vídeo da comissão de frente, vídeo da bateria, vídeo do 4º carro alegórico ("Superação Sobre Rodas").

Classificação (sem dar notas, mas basicamente pelo gosto de assistir o desfile)

Vila Isabel
Unidos da Tijuca
Grande Rio
União da Ilha
Salgueiro
Mocidade
Renascer de Jacarepaguá
Beija-Flor
Mangueira
São Clemente
Imperatriz
Portela
Porto da Pedra

Pitaco: Beija-Flor, Vila Isabel, Unidos da Tijuca e Grande Rio disputam o título. Salgueiro retorna no sábado. Outra vaga no desfile das campeãs fica entre Ilha, Mangueira, Mocidade e Portela. Caem Renascer e Porto da Pedra.

(Nos pitacos feitos ano passado, até que cheguei perto).