quarta-feira, 25 de julho de 2012

Tomar Partido E Fazer Política: Onde Estão Os Direitos Dos Animais?

2012 é ano de eleições municipais pelo Brasil e, embora o pleito seja realizado em outubro, em julho já vemos - e ouvimos - propagandas políticas de diversos candidatos.

Vivemos em um país pluripartidário, com dezenas de legendas diferentes e coligações bizarras, daquelas que fazem dividir o palanque dois sujeitos hoje abraçados e ontem inimigos declarados.

Recentemente, foi fundado o 30º partido (denominado PEN - Partido Ecológico Nacional). O nome é sugestivo e insere-se num contexto histórico onde o debate ambientalista é crescente em praticamente todos os cantos do mundo, notadamente pela ameaça global das mudanças climáticas.

Não sei, sinceramente, o que esperar do PEN no cenário nacional. E nem é meu objetivo especular isso nesse presente momento. Quero, isto sim, apresentar dois partidos políticos de fora do Brasil que colocam como tema central os direitos dos animais, algo que seria muito bem-vindo no país que mais exporta carne no mundo e que financia fortemente a pecuária (perceba como acaba se tratando, também, de uma questão ambiental).

Na Holanda, em 2002, surgiu o Partido pelos Animais (Partij voor de Dieren, em holandês), atualmente presidido pela ativista Marianne Thieme, figura simpaticíssima que tive a felicidade de conhecer em julho de 2009, no Festival Vegano Internacional, realizado no Rio de Janeiro. O trabalho que vem sendo realizado na Holanda é inspirador no sentido de que nós podemos - e devemos - aplicar algo dessa natureza nessa nação, onde a exploração animal concentra renda, degrada ecossistemas e tortura milhões de seres inocentes.

O outro exemplo ocorre em Portugal, país onde, em 2009, surgiu o PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza), que elegeu seu primeiro deputado nas eleições de 2011. Pode-se acompanhar as atividades desse partido através da rede social Facebook.

Vejo esses casos na Holanda e em Portugal como feixes de luz a iluminarem uma escuridão que assola os direitos dos animais. No Brasil, a legislação determina que nenhum animal deverá ser submetido à crueldade. Precisamos, portanto, fazer valer esse direito. Talvez seja necessário, para isso, criar um partido político focado nesse ideal de libertação animal. Pode ser que, com ele, nasça uma nova ética de respeito pela vida, que não vem sendo zelada como deveria pelos trinta partidos já existentes.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Luz Do Bhagavata - Verso 25

O Senhor reciprocava os sentimentos dos habitantes da floresta de Vrndavana. Quando a chuva caía, o Senhor Se refugiava aos pés das árvores ou nas cavernas e desfrutava o sabor de diferentes frutas com Seus associados eternos, os vaqueirinhos. Ele brincava com eles, sentava-Se com eles e comia frutas com eles.

Tornar-se uno com Deus nem sempre indica que o ser vivo tenha de se fundir na existência do Senhor. Tornar-se uno com Deus significa que a pessoa alcança sua qualidade espiritual original. A menos que obtenha essa qualidade espiritual, ela não poderá entrar no reino de Deus. Os membros da escola impersonalista explicam sua idéia de unidade através do exemplo da água do rio que se mistura com a água do mar. Contudo, devemos saber que dentro da água do mar existem seres vivos que não se fundem na existência da água, senão que conservam suas identidades separadas e gozam a vida dentro da água. Eles são unos com a água no sentido de que alcançaram capacidade de viver dentro da água. Analogamente, o mundo espiritual não está à parte de sua parafernália separada. O ser vivo pode conservar sua identidade espiritual distinta no reino espiritual e gozar a vida com o ser espiritual supremo, a Personalidade de Deus.

Em Vrndavana, todas as entidades espirituais - os vaqueiros, as vaqueirinhas, a floresta, as árvores, as colinas, a água, as frutas, as vacas etc - desfrutam a vida espiritual na associação do Senhor, Sri Krsna. Eles são simultaneamente unos com o Senhor e diferentes dEle. Mas, em última análise, eles são iguais em diferentes variedades.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Crueldade Que Compactuamos

Na última edição do programa CQC (Custe o Que Custar), exibido ontem, 25.06.2012, na TV Bandeirantes, o quadro Proteste Já tratou de um tema absolutamente necessário para debate: abatedouros.

No Brasil, estima-se que aproximadamente metade dos matadouros de animais atuem na clandestinidade, isto é, sem qualquer inspeção quanto aquilo que é regulamentado para funcionamento. Se você pensar que o CQC foi até um matadouro municipal (isto é, sob "os cuidados" da Prefeitura) e encontrou o que encontrou, imagine o que não existe pelo país naqueles estabelecimentos tidos como ilegais.

E estamos falando de um país onde existe mais boi do que gente, alimentando o mundo com 1/3 da carne bovina consumida nesse planeta. O programa mostrou as questões de ordem sanitária, escancarando um cenário caótico para a saúde pública. Mas a abordagem, por se limitar a essa esfera, acabou pecando por omissão: é eticamente inaceitável falar de matadouros sem entrar no mérito do direito dos animais. Direito dos animais não se resume ao fato de matar à marretadas ou via pistola pneumática. Direito dos animais inclui - ou pelo menos deveria incluir - o direito de viver em liberdade, livre de qualquer forma de exploração. Como diz o filósofo Tom Regan, não interessa se foi aumentado o tamanho da jaula - o que interessa é que a jaula esteja vazia.

A Band, através do CQC, perdeu uma grande oportunidade de realizar uma reportagem revolucionária na TV aberta brasileira, expondo para o público fatos que, para alegria da indústria alimentícia que lucra horrores pela exploração animal, estão convenientemente ocultos aos olhos da massa. E fez pior, pois quando o repórter Oscar Filho coloca como considerações finais a sua preocupação com os postos de trabalho perdidos pelos funcionários do matadouro (o estabelecimento foi fechado pelo poder público), ele deixa a mensagem de que a barbárie de ceifar vidas de seres sencientes se justifique pelo argumento de que gere renda para um sujeito. Argumento inválido, além de perigoso. Ou será que Oscar Filho não pouparia esforços para promover o sustento honesto dos coveiros?

Numa sociedade onde se procura justiça, ética e respeito, é fundamental que esses valores atemporais sejam colocados acima do dinheiro. Custe o que custar.
Abaixo, a matéria veiculada pelo programa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Luz Do Bhagavata - Verso 24

Quando o Senhor entrou na floresta de Vrndavana, todos os habitantes da floresta, tanto animados quanto inanimados, ficaram ansiosos por recebê-lO. Ele viu que todas as flores da floresta, desabrochando inteiramente, choravam de êxtase, com mel a fluir de suas pétalas. As cascatas fluíam alegremente das rochas das montanhas, e podia-se ouvir sons doces provenientes das cavernas próximas.

O Senhor possui multifárias energias, entretanto, o Senhor e Suas energias são idênticos. A energia material é uma de Suas variadas energias, e afirma-se no Bhagavad-gita que a energia material, em qualidade, é inferior à energia espiritual. A energia espiritual é superior porque sem o contato com a energia espiritual a energia material sozinha não pode produzir nada. Mas a fonte de todas as energias é a todo-atrativa Personalidade de Deus, Sri Krsna.

Este mundo material é uma combinação de matéria e espírito, mas o mundo espiritual, que está muitíssimo distante do céu material, é puramente espiritual e não tem nenhum contato com a matéria. No mundo espiritual, tudo é espírito. Já expusemos isso. A Personalidade de Deus, a fonte original de todas as energias, é capaz de converter espírito em matéria e matéria em espírito. Para Ele não há diferença entre matéria e espírito. Portanto, ele é chamado de kaivalya.

Nos passatempos transcendentais do Senhor Sri Krsna, Ele reciproca com o espírito, e não com a matéria. Quando Ele está no mundo mortal, as qualidades materiais não podem influenciá-lO. Um eletricista sabe como produzir força da eletricidade. Com a ajuda da eletricidade ele pode congelar ou ferver a água. De forma semelhante, a Personalidade de Deus, através de Seu poder inconcebível, pode transformar a matéria em espírito e o espírito em matéria. Logo, mediante a graça do Todo-poderoso, tudo é matéria e espírito, embora, do ponto de vista do ser vivo comum, haja diferença entre matéria e espírito.

Flores, cascatas, árvores, frutas, colinas, cavernas, pássaros, feras e seres humanos não são mais do que combinações de energia de Deus. Portanto, quando a personalidade de Deus apareceu, todos eles manifestaram sua inclinação espiritual, e em virtude da afeição natural desejaram servir ao Todo-poderoso segundo suas diferentes capacidades.

Existem níveis distintos de desenvolvimento espiritual na matéria. No mundo material, as centelhas espirituais da Personalidade de Deus estão cobertas pela energia material em diferentes proporções, e gradualmente, enquanto transmigram em várias espécies de vida, elas vão se espiritualizando. A forma de vida humana representa o desenvolvimento completo dos sentidos através dos quais pode-se lograr a realização espiritual da afeição original pelo Senhor. Por conseguinte, se a despeito desta oportunidade da vida humana formos incapazes de reviver nossa afeição natural pelo Senhor, é bom que saibamos que estamos desperdiçando nossa vida em troca de nada. Entretanto, pela graça do Senhor, a consciência espiritual de todas as espécies de vida pode ocupar seu lugar apropriado, e estas espécies podem exprimir sua afeição espiritual pelo Senhor na santa-rasa, como exibida pela terra, pela água, pelas colinas, pelas árvores, pelas frutas e pelas flores de Vrndavana durante a presença do Senhor Sri Krsna, a Personalidade de Deus.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Franz Ferdinand São Paulo 2012: A Arte De Contagiar O Público

Em março de 2010 tive a oportunidade de assistir aquele que era meu primeiro show internacional. A banda escocesa Franz Ferdinand se apresentaria na Fundição Progresso, casa de espetáculos situada relativamente perto de casa (vira e mexe passo em frente quando me desloco pela cidade do Rio de Janeiro). Naquele show memorável, conheci pessoas com as quais conservo relação de amizade até hoje e experienciei uma performance, uma presença de palco, uma interação artista-público absolutamente singular. Por coincidência, ou melhor, por aquilo que considero ter sido um capricho dos deuses da música, aquele show aconteceu no dia do aniversário do vocalista Alexander Kapranos, que ouviu um "parabéns para você" cantado por milhares de pessoas e foi aos braços do público, numa cena que tive a felicidade de testemunhar a alguns metros de distância, com direito a um registro fotográfico que beira o inacreditável, tamanha a improbabilidade (clique e confira).

Passados 26 meses e eu, com 26 anos de idade, pude reencontrar o quarteto britânico em solo brasileiro - dessa vez em São Paulo. Uma viagem que me animei de fazer tão logo tomei conhecimento de que o Franz Ferdinand faria uma apresentação gratuita no 16º Cultura Inglesa Festival. Embarquei à meia-noite e quinze e às sete da manhã já estava em Sampa, sentindo o frio matinal daquela que é a maior cidade do país. Os minutos se passavam, o sol aquecia o dia e já não era necessário fazer uso de casaco nem de camisa com manga comprida. Vestindo a mesma camisa do Botafogo que usei na noite de 24 de setembro, no Rock In Rio 2011, fui para a enorme fila que esperava por mim e por meu irmão, parceiro de viagem. Acho que ficamos cerca de uma hora no percurso que nos separava da entrada da área destinada aos shows. O relógio devia estar marcando algo em torno das onze horas da manhã e o momento mais esperado daquele domingo ensolarado, com ares de outono carioca, estava agendado para às 18h30. As bandas que se apresentavam entretiam, embora sem necessariamente empolgarem. Amigos virtuais de longa data foram chegando e "se tornaram reais", fazendo a ocasião ainda mais especial. Até chegar o grande momento, aquele período de tempo tão reduzido porém eterno, quando você visualiza o grupo e, ao ouvir os primeiros sons, já se deixa contagiar. Começou com Darts Of Pleasure e terminou com This Fire aquela apresentação que incendiou o Parque da Independência. Quando tocou Take Me Out, senti estar vivendo um momento mágico. Revendo a gravação, creio que aquilo ali na verdade se trata de algo épico, inapagável e impagável. Tocar ainda Michael, sair do palco e voltar com Jacqueline me fez pensar: "oh deuses da música, obrigado por fazerem um show especialmente para mim". Desconfio não ser merecedor de tamanho mimo, e sou grato eternamente por essa dádiva. 27.05.2012 é para se guardar. Na memória e no coração.

Preciso dizer se valeu cada metro percorrido e cada real investido nessa viagem?

Set list do show do Franz Ferdinand no Parque da Independência, em São Paulo, 27.05.2012

01. Darts of Pleasure
02. Tell Her Tonight
03. Right Thoughts
04. Do You Want To
05. No You Girls
06. Brief Encounters
07. Walk Away
08. Dark of The Matinée
09. Fresh Strawberries
10. Can't Stop Feeling (com I Feel Love)
11. Take Me Out
12. Ulysses
13. Trees and Animals
14. 40´
15. Outsiders
16. Michael

Bis:
17. Jacqueline
18. This Fire

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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Luz Do Bhagavata - Verso 23

As vacas que seguiam o Senhor dentro da floresta movimentavam-se vagarosamente por causa de seus pesados úberes cheios de leite. Mas quando o Senhor as chamava por seus nomes elas imediatamente ficavam alertas, e enquanto se apressavam em direção a Ele suas tetas derramavam leite no chão devido à afeição pelo Senhor.

Compreende-se através de escrituras tais como o Brahma-samhita que na morada espiritual do Senhor as casas são feitas de pedra filosofal e as árvores são todas árvores-dos-desejos. Lá, o Senhor costuma apascentar milhares e milhares de kamadhenus (vacas capazes de suprir ilimitada quantidade de leite). E todas as casas, árvores e vacas são qualitativamente não-diferentes do Senhor. O Senhor e Sua parafernália na morada espiritual são idênticos em qualidade, embora, para o prazer do Senhor, existam diferenças. No mundo material, também temos uma diversidade de parafernália para os prazeres de nossa vida, contudo, porque toda esta parafernália é feita de matéria, ela é, afinal, perecível. No céu espiritual, existem as mesmíssimas variedades de prazer, mas todas elas são destinadas ao Senhor. Lá, apenas o Senhor é o desfrutador e beneficiário supremo, e todos os demais são desfrutados por Ele. O Senhor é servido por todas as classes de servos, e tanto o amo quanto os servos são da mesma qualidade. Esta variedade espiritual é exibida pelo Senhor quando Ele desce em Vrndavana, e assim temos conhecimento de que o Senhor desce com Seu cortejo pessoal de vacas, vaqueirinhos e vaquerinhas, todos os quais são tão somente expansões espirituais do Senhor para o Seu próprio prazer. Dessa maneira, ao serem chamadas pelo Senhor, as vacas ficaram dominadas pela afeição e prazer, assim como o seio de uma mãe verte leite quando a criança chora por ele.

Todos nós, seres vivos, somos expansões diferenciadas do Senhor. Porém, nossa afeição pelo Senhor está latente em nós, artificialmente coberta pela qualidade material da ignorância. A cultura espiritual tem como propósito reviver esta afeição natural do ser vivo pelo Senhor. Os ingredientes do fogo já estão presentes num palito de fósforo, e basta apenas um leve atrito para acender o fogo. De igual modo, nossa afeição natural pelo Senhor tem de ser revivida através de um pouco de cultura. Sobretudo, devemos receber o conhecimento acerca do Senhor com um coração purificado.

Para lograr a compreensão espiritual, deve-se purificar o coração e conhecer as coisas na sua perspectiva verdadeira. Tão logo alguém faça isto, o fluxo de sua afeição natural começa a fluir em direção ao Senhor, e com o progresso desse fluxo a pessoa torna-se cada vez mais auto-realizada nos vários relacionamentos com o Senhor. O Senhor é o centro de toda a afeição de todos os seres vivos, os quais são todos suas partes integrantes. Quando o fluxo da afeição natural pelo Senhor fica obstruído pelo desejo de imitar Seu domínio, diz-se que a pessoa está em maya, ou seja, ilusão. Maya não tem existência substancial, mas enquanto suas alucionações prosseguirem, sentir-se-á sua influência. O Senhor, por Sua misericórdia imotivada, exibe a realidade da vida de modo que nossas alucinações possam ser completamente dissipadas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Aborto E Abandono

Recentemente, uma discussão acerca do aborto de anencéfalos foi parar no Supremo Tribunal Federal e dividiu opiniões pelo país. A maioria dos ministros do STF mostrou-se favorável à prática abortiva, opinião a qual não compartilho. Por definição, o aborto consiste na expulsão ou remoção prematura de um embrião ou feto do útero, matando a vítima. No caso dos anencéfalos (em caso de dúvidas, leia sobre anencefalia), muitos argumentam que o aborto se justifica pelo fato de a criança com má formação cerebral estar condenada biologicamente a morrer logo após o nascimento - o que não é necessariamente verdadeiro e, creio, tampouco razoável para deliberar pela antecipação proposital do encerramento das funções biológicas de alguém.

Fazer a conexão entre aborto e abandono é simples: o aborto trata-se do abandono intra-uterino. Reciprocamente, abandono seria o aborto fora do útero. A diferença básica é que o aborto mata instantaneamente, enquanto o abandono deixa a vítima entregue à própria sorte. Acho curioso observar o código penal brasileiro no que tange o "abandono de incapaz", caracterizando no artigo 133 o incapaz como sendo qualquer pessoa que não possui condições de se defender dos riscos resultantes do abandono. Pergunta-se: existe, então, alguém mais incapaz de se defender dos riscos resultantes do abandono do que um feto ligado à sua progenitora pelo cordão umbilical?

Paradoxalmente, no mesmo país em que se delibera pena de 4 a 12 anos de reclusão nos casos de abandono que resultam em morte, passa a ser legalizado o abandono, digo, o aborto de anencéfalos.

Considero-me um defensor da liberdade. Acontece que, em casos como esses aqui mencionados, a liberdade de dar seqüência ou não a uma gestação ocasiona uma decisão com vítima fatal. Não seria nada razoável apoiar a liberdade de um em detrimento da vida de outro. Até porque o exercício da liberdade de qualquer ser depende, fundamentalmente, de que este ser esteja vivo.

Encerro esse texto com um dado que ilustra firmemente como o abandono é algo meramente subjetivo: um estudo realizado na Alemanha, país onde o aborto terapêutico é permitido, demonstrou que as mães optam menos pela interrupção da gravidez em casos de anencefalia do que em casos de síndrome de Down. Não dizem por aqui que devemos respeitar as diferenças? Que façamos isso então, dentro e fora das fronteiras uterinas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Luz Do Bhagavata - Verso 22

Terminada a estação das chuvas, a floresta de Vrndavana encheu-se de frutas, tais como tâmaras e amoras silvestres que amadurecem nas árvores e arbustos. O Senhor Sri Krsna, juntamente com Seu irmão mais velho, Sri Baladeva, e outros vaqueirinhos da vizinhança, entraram na bela floresta acompanhados das vacas para exibir passatempos transcendentais com Seus amigos eternos.

O Senhor Sri Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, aparece com Seu séquito pessoal a cada 4.320.000.000 de anos e exibe Sua parafernália transcendental, só para atrair as almas condicionadas do mundo material. Embora o mundo material seja apenas uma sombra do mundo espiritual, as entidades vivas encarceradas pela matéria buscam aqui a felicidade espiritual sob a forma pervertida decorrente do apego material. Filósofos empiristas com pobre fundo de conhecimento imaginam um quadro espiritual impessoal. Porém, o ser vivo espiritual, menos atraído pela forma impessoal da emancipação espiritual, torna-se mais atraído pela forma material, ficando sem nenhuma esperança de emancipação espiritual.

Portanto, a Absoluta Personalidade de Deus, em virtude de Sua misericórdia ilimitada e imotivada, desce do reino espiritual e exibe Seus passatempos pessoais em Vrndavana, a réplica do planeta Krsnaloka do céu espiritual. Vrndavana é o lugar mais sagrado dentro deste universo cósmico, e as pessoas que procuram alcançar a emancipação espiritual e entrar no reino de Deus podem fazer um lar em Vrndavana e tornar-se estudantes sérios dos seis Gosvamis, que foram instruídos pelo Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu. Os seis Gosvamis eram encabeçados por Srila Rupa Gosvami, que era seguido por Srila Sanatana, Srila Bhatta Raghunatha, Srila Jiva, Srila Gopala Bhatta e Srila Raghunatha dasa Gosvami. Todos eles se ocuparam seriamente na pesquisa e escavação do mistério de Vrndavana-dhama.

O Senhor Sri Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, apareceu em Vrndavana cerca de cinco mil anos atrás, e as relíquias de Seu aparecimento em Vrndavana desapareceram de vista. Contudo, o Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu, que é o mesmíssimo Senhor Sri Krsna sob a forma de um grande devoto, apareceu em Navadvipa, um distrito da Bengala Ocidental, e escavou os locais sagrados dos transcendentais passatempos do Senhor Sri Krsna. Ele ordenou aos seis Gosvamis que escrevessem livros autorizados sobre o culto de Vrndavana. Logo, todo estudante sério e ansioso por conhecer acerca do Senhor Supremo pode tirar proveito desta literatura inestimável e da orientação de eruditos autorizados e assim informar-se a respeito do Senhor de Vrndavana, Sri Krsna, a Personalidade de Deus.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A Fé Ateísta

O argumento básico - pelo menos aquele com o qual mais me deparo - para não se acreditar em divindades (posicionamento defendido pelo ateísmo) reside no fato de vivermos num mundo recheado de dor, sofrimento e crueldade, aspectos que não condiziriam com a existência de um Deus amoroso e onipotente. Se esse Deus amoroso e onipotente existisse, pensam muitos ateus, ele interviria no sentido de não permitir que alguém fosse oprimido por outro alguém. Não quero aqui entrar no debate sobre o livre-arbítrio, mas faz necessário deixar uma pergunta no ar: se fosse para intervir arbitrariamente na criação, onde estaria a liberdade e o mérito na evolução? De toda forma, compartilho da ideia de que devemos extirpar do mundo qualquer relação de exploração, de opressão. E pergunto: o que você, sujeito livre, faz nesse sentido? OK, vamos parar esse parágrafo por aqui.

O presente tópico não procura discutir criação do universo, leis de ação e reação etc. O que estou propondo nesse texto é observarmos a fé ateísta no sentido do esforço que é acreditar (ou pelo menos dizer acreditar) que todo o cosmos como é concebido tenha se configurado única e exclusivamente pela força do acaso. Se for esse o caso, Acaso daria um bom nome para Deus. No fundo, me parece muito mais fácil atribuir a um ser supremo toda a confecção das maravilhas que testemunhamos, de tamanha complexidade que não damos conta de explicar - quando achamos que estamos convictos, surge outra teoria para colocar a anterior em dúvida. Então, o ateísta é, basicamente, alguém de muita fé no coração. Claro que há também aquele sujeito que "escolhe o ateísmo" meio que como forma de protesto ao fato de ver tantas incoerências nas instituições religiosas. Mas aí é uma outra discussão. Gosto de ilustrar o que penso a esse respeito com um pensamento de Huberto Rohden: "o maior cristão do século vinte foi um hindu".

Enfim, o importante mesmo é agirmos no bem. No final das contas, agir no bem estará agradando a Deus - existindo Ele ou não. Aos ateístas, deixo um recado final: que Deus conserve essa sua capacidade de ter fé. Desde que isso não atente contra seu livre-arbítrio, é claro...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Luz Do Bhagavata - Verso 21

O vento carrega as nuvens para diferentes partes do globo, e as nuvens distribuem chuvas, para a satisfação das pessoas em geral, assim como os reis e os mercadores ricos distribuem sua riqueza acumulada, inspirados pelos sacerdotes.

Como já explicado, as quatro classes da sociedade - isto é, a classe de homens inteligentes (os brahmanas), a classe governante (os ksatriyas), a classe mercantil (os vaisyas) e a classe dos trabalhadores braçais (os sudras) - destinam-se a alcançar um objetivo na vida: auto-realização, ou seja, o cultivo do espírito humano. A classe de homens inteligentes, os brahmanas, deve estimular os ksatriyas e os vaisyas a executar sacrifícios em prol do cultivo espiritual, e assim a cooperação dos brahmanas, ksatriyas e vaisyas elevará as pessoas em geral, ou a classe dos trabalhadores comuns. Tão logo esta cooperação entre as quatro classes de homens na sociedade é interrompida e os princípios básicos da cultura espiritual são negligenciados, a estrutura social da humanidade torna-se uma reedição da vida animal, baseada nas propensões a comer, dormir, temer e acasalar-se. É dever dos homens inteligentes induzir os membros de comunidades mais ricas - os ksatriyas e os vaisyas - a fazer sacrifícios conducentes ao cultivo espiritual. Só desta maneira poderá a tensão entre os capitalistas e os operários ser devidamente mitigada.

Nesta era de Kali, quando uma mera diferença de opinião conduz à discórdia, chegando a ponto de causar motins, é dever dos homens inteligentes, os brahmanas, estimular altruistamente as pessoas mais ricas a fazer sacrifícios para este propósito. Sugere-se com isso que os próprios homens da classe inteligente não devem tentar tornar-se ksatriyas ou vaisyas, nem devem imiscuir-se nas ocupações das outras classes; em vez disso, os brahmanas devem apenas guiá-las no cultivo espiritual, assim como o vento transporta as nuvens para outros lugares para derramarem água. O vento por si mesmo não assume a responsabilidade de derramar a água. 
Os homens mais inteligentes da sociedade são os santos e os sábios que sacrificaram tudo a serviço do cultivo espiritual. Sempre prontos a sacrificar suas palavras, dinheiro, inteligência e vida, seu dever é viajar por toda a parte e estimular todos os seres humanos a se ocuparem em atividades conducentes ao cultivo espiritual. Esse deve ser o objetivo da vida humana a fim de fazer dela um êxito completo. Uma sociedade que não tem gosto pelo cultivo espiritual é como um incêndio ardente, onde todos sofrem perpetuamente as três classes de misérias. Assim como as nuvens derramam água sobre um incêndio ardente na floresta e assim o extinguem, os homens inteligentes, que agem como mestres espirituais da sociedade, derramam água no incêndio ardente das misérias, ao disseminar o conhecimento espiritual e estimular as classes mais ricas da sociedade a ajudar esta causa. Templos de adoração, por exemplo, são construídos pelos ricos, e esses templos visam dar educação espiritual às pessoas em geral. Cerimônias espirituais periódicas são realizadas para dar inspiração, e não para explorar. Se existem falhas agora, devido à era de Kali, elas deverão ser retificadas, mas a instituição tem que ser salva.

domingo, 25 de março de 2012

Sobre O Jejum

Muitos afirmam que há maior credibilidade no discurso de uma pessoa que tenha vivenciado aquilo que esteja abordando. Concordo, mas não acho que a experiência seja requisito obrigatório para se analisar o que quer que seja. Por exemplo: é necessário que um comentarista esportivo seja um craque na modalidade por ele analisada? É necessário que um indivíduo tenha se tornado um viciado em entorpecentes para afirmar que o consumo de drogas é degradante ao usuário? Provavelmente, você respondeu "não" para ambas as indagações.

De toda forma, devemos reconhecer que há maior impacto quando vemos que quem está falando, de alguma forma, tem alguma ligação com aquilo que é dito (ligação esta que é reforçada pela experiência, mas que não se limita a ela). E o tema que tratamos aqui é o jejum. Tema esse que iremos observar do ponto de vista teórico e, com a ajuda da experiência deste que vos digita, também do ponto de vista prático. O que seria o jejum? Por que fazê-lo? Como fazê-lo? Quando fazê-lo?

O que é o jejum

Numa definição bem básica (disponível na Wikipédia), o jejum consiste na opção do indivíduo em reduzir ou até mesmo eliminar a ingestão de alimentos, geralmente por um período de tempo pré-determinado. Particularmente, acho essa definição um pouco problemática, pois acho que reduzir o consumo alimentício está mais para "dieta" do que para jejum. No meu entendimento, jejuar é cessar o consumo por completo.

Analogamente, a noção de jejum é freqüentemente utilizada no jornalismo esportivo: "time está num jejum de vitórias há sete rodadas no campeonato". Isso indica que o time ganhou poucas vezes nas últimas sete rodadas ou que simplesmente não somou nenhuma vitória nesse período? Se você pensou na segunda opção, é sinal que pensa de modo semelhante a mim. Portanto, jejum seria o zero de consumo. 


Motivos para jejuar

São diversas as razões que levam alguém a praticar o jejum. Entre elas, me identifico com algumas e vejo outras como repugnantes. Por exemplo, há pessoas que optam por jejuar motivadas meramente pela vaidade (geralmente estética, isto é, buscando "melhorias" na aparência física). Se você entrou nesse tópico com essa motivação, direito seu, mas o foco aqui não é esse. De toda forma, sugiro que continue a leitura.

A busca que me parece a mais usual na prática do jejum é a de ordem espiritual. Escrituras sagradas abordam o jejum apontando para uma transcendentalidade, motivando os adeptos a reservarem dias na semana, no mês ou no ano para essa atividade. Coincidentemente - ou não - estamos nesse exato momento num período no calendário cristão que remete ao histórico jejum de Jesus no deserto, por quarenta dias consecutivos (a Quaresma). Não que os religiosos jejuem como Jesus, muito pelo contrário, o que vemos nas festas das igrejas ao longo do ano mais se assemelham a um incentivo a comilança do que a prática do jejum. Certamente, Jesus não seria um adepto dessas insituições religiosas que o carregam como símbolo e referência.
Ilustração remetendo ao Mestre Jesus de Nazaré, meditativo no deserto: quarenta dias de jejum não é para qualquer um.

De toda forma, retornemos ao jejum como prática espiritual. A idéia de jejuar gira em torno de causar aflição ao corpo, dando, assim, prioridade para a alma. Os judeus, que no Yom Kippur (Dia Do Perdão) ficam por 25 horas em jejum e em oração, têm uma interessante analogia sobre essa relação: o cavalo seria o corpo, e o cavaleiro seria a alma - é sempre melhor o cavaleiro estar acima do cavalo. Quer dizer, particularmente acho que o melhor é que humano e cavalo sigam seus caminhos sem que um explore o outro, em harmonia plena, sem qualquer relação hierárquica. Mas a analogia ajuda a entender a essência do jejum para os judeus.

Mahatma Gandhi, hindu que o filósofo Huberto Rohden classificou como "o maior cristão do século XX", praticou cerca de dezessete jejuns ao longo da vida. Suas motivações eram de ordem espiritual, sem dúvidas, mas com forte conotação político-social. Afinal, mostrar solidariedade com os oprimidos e reivindicar a libertação destes é, fundamentalmente, um ato espiritual.
 "Seja a mudança que você quer ver no mundo", frase de Mahatma Gandhi, que deu ao mundo um exemplo experienciado através de seus próprios atos.

Como jejuar

Acho que não precisa de uma explicação pormenorizada. Bastaria não consumir alimentos e o jejum estaria automaticamente em curso. Mas isso quer dizer que, dormindo, estamos em jejum? Sim e não. Sim, porque nesse período não há a ingestão de alimentos. Não, porque não se trata de um movimento consciente.

Se eu pudesse dar somente dois conselhos a quem pretende praticar o jejum, seriam esses: [1] busque uma motivação nobre para isso e [2] esteja consciente durante o processo, perceba o seu corpo, vigie seus pensamentos e contemple o quão maravilhoso é o auto-conhecimento. Em última análise, a vigilância completa dos pensamentos, palavras e ações é a meditação.

Quando jejuar

Se você chegou até esse ponto no texto, sinal de que as coisas parecem ter caminhado bem. Nas mais variadas religiões, o jejum tem recomendações de acordo com o calendário. Particularmente, não acho que seja necessário seguir uma data rígida - se você sentir que o momento para jejuar e buscar um auto-conhecimento através de uma experiência dessa natureza é o próximo sábado, então prepare-se e faça no próximo sábado, independentemente de que dia seja o próximo sábado. Alguns ativistas jejuam de acordo com o momento político em curso, como por exemplo jejuar em frente a uma sede governamental em protesto contra alguma medida considerada prejudicial para a coletividade - e isso não tem uma data rígida.

Venho jejuando sistematicamente desde 2007 ou 2008 (não recordo exatamente), buscando uma maior percepção dos meus processos internos, bem como diminuir a minha "pegada ecológica", optando geralmente pelo último domingo de cada mês para realizar a prática - sendo essa escolha muito mais uma questão disciplinar para comigo mesmo do que qualquer outra coisa. Às vezes, tenho ciência prévia de que terei algum compromisso no dia que seria o do jejum, e no caso de entender que o compromisso possa afetar a "eficiência" do jejum, constumo antecipar a data (mas isso é bem raro de ocorrer). Ano passado (2011), por exemplo, o último domingo de dezembro foi o Natal de Jesus Cristo. Uma data maravilhosa para jejuar, a qual tive o prazer de manter para o dia 25 de dezembro (até porque abomino essa cultura ocidental de achar que comer animais na ceia seja um ato religioso). Hoje, não por acaso, é o último domingo do mês de março. E cá estou, em jejum há cerca de quinze horas, tentando compartilhar um pouco dessa experiência. E que venham as próximas nove!