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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Festival De Cinema Francês 2013

Já virou tradição este blogueiro assistir e comentar sobre o Festival de Cinema Francês. Ano após ano, desde 2010, o público brasileiro foi agraciado com ótimas seleções da recente filmografia francesa, podendo desfrutar de obras de altíssimo nível. E dessa vez não foi diferente. A grande maioria dos filmes assistidos entram, no mínimo, na lista dos recomendados. E não são poucos os que merecem o rótulo de imperdíveis.

Infelizmente, porém, esse ano o festival teve um acúmulo de inconvenientes jamais visto antes na história desse evento anual. Filme cortado (sim, cortado, com sequências inteiras não aparecendo, fragmentando abruptamente a obra), filme dessincronizado entre áudio e imagem (palavras do próprio diretor, que compareceu na sessão), sessões praticamente vazias com a ilustre presença dos artistas (testemunhei isso noutros anos e o cenário se repete) e artistas que não compareceram (incluindo a garota-propaganda do festival). De quebra, o Rio de Janeiro, que ano passado teve duas semanas de exibições e ainda uma bela repescagem, dessa vez não contou com mais que uma semaninha em cartaz. Nem assistindo dois filmes por dia o cinéfilo conseguiria dar conta das quinze obras disponíveis. Enfim, muitos erros cometidos mas, mesmo assim, aquele sabor de quero mais. Quero mais tempo, quero mais respeito, essas coisas.
  
Há também tópicos sobre as edições de 2010 (este e mais este), 2011 e 2012 do Festival.

Renoir
Confesso ser um completo ignorante sobre a vida de Pierre-Auguste Renoir. E como o filme dirigido por Gilles Bourdos aborda um curto espaço temporal do artista, além do azar de ter assistido uma exibição defeituosa (com cenas e sequências que não foram apresentadas no cinema Odeon Petrobras), teoricamente seria um ingresso jogado no lixo. Só que não. A delicadeza da filmagem, a exuberante fotografia, a atuação magistral de Michel Bouquet (87 anos de idade e uma performance tão precisa que parece que ele e o pintor são uma pessoa só), além da beleza estonteante de Christa Theret (a musa do artista) são ingredientes que engrandecem esse belo filme. Pretendo assistir novamente, pois se já foi emocionante acompanhar a história entrecortada por problemas técnicos, creio que vê-la na íntegra será ainda melhor. Também teria sido ainda melhor se os artistas convidados tivessem comparecido, embora eles merecessem uma sala lotada e uma exibição correta.

Adeus, Minha Rainha
Uma ousada reconstrução dos últimos dias de Maria Antonieta no trono, sob uma ótica que jamais tinha visto na história da retratação da Tomada da Bastilha. O diretor Benoît Jacquot conseguiu fazer uma sólida narrativa que colocou a leitora da rainha (a belíssima Léa Seydoux) como protagonista numa obra que polemiza ao supôr uma relação homoafetiva entre Maria Antonieta (Diane Kruger) e sua grande amiga Gabrielle de Polignac (Virginie Ledoyen). Além de ser um retrato de época muito bem realizado e proporcionar uma forte mensagem sobre o conceito de fidelidade, o filme também vale pela beleza feminina daquelas três. Um final capaz de arrancar lágrimas, um trio capaz de arrancar suspiros.

Anos Incríveis

Com um ótimo tempo de comédia, Michel Leclerc foi muito feliz ao tratar de temáticas polêmicas permeadas pelo bom humor. A história corre com um dinamismo marcante, com ótimas sacadas que vão ajudando a manter o filme interessante, embora possam haver algumas cenas desnecessárias. As críticas à sociedade capitalista e à mídia golpista não eliminam uma reflexão sobre os ideais revolucionários socialistas, onde a grande conexão entre uma coisa e outra é cada risada que é proporcionada ao espectador. Comédia com cê maiúsculo mesmo. Achei particularmente muito bacana rever a atriz Maiwenn, que esteve ótima em Polissia (Festival de Cinema Francês 2012) fazendo uma personagem também ativista pelos direitos humanos, mas com uma personalidade um tanto distinta desta em Anos Incríveis. Ah! Fica comprovado que a combinação Michel Leclerc + Sara Forestier + Revolução = boa comédia. Palavras de quem assistiu Os Nomes Do Amor (Festival de Cinema Francês 2011).

Camille Claudel 1915

Filmaço. Os elogios feitos ao diretor Bruno Dumont após assistir Hadewijch mostram que o blogueiro não estava sendo precipitado: é, sim, um dos grandes diretores do cinema atual. O andamento lento do filme é na medida certa para retratar o drama de Camille Claudel (na pele da ótima Juliette Binoche). Há na obra uma virtude louvável de passar mensagens e reflexões com tamanho vigor e sutileza que é como se não pudéssemos escapar à nossa própria consciência - mérito de todos os envolvidos com direção, roteiro, fotografia, atuação etc. A cena final com as legendas retratando a biografia do que aconteceria com a protagonista é alguma coisa arrebatadora, de fazer reduzir o estoque líquido armazenado no aparelho lacrimal. De novo: filmaço.

O Homem Que Ri
De uma sacada genial os perfis dos três personagens que conduzem o filme. Do homem de semblante amargo mas que parece sempre sorrir (vivido por Marc-André Grondin) à mulher cega mas que tudo parece enxergar (Christa Theret, aquela que faz a musa de Renoir), passando pelo filósofo encarnado por Gérard Depardieu, são muitos os elementos que colocam em xeque as sociedades humanas, não faltando argumentos para questionar a ética monárquica, cristã e a própria conduta individual. Muitas vezes caminha para o clichê, mas mensagens dessa natureza são sempre bem-vindas, assim como este filme dirigido por Jean-Pierre Améris também o é. Diria que a obra completa é muito melhor do que o trêiler pode sugerir (e olha que assisti ele umas três vezes).

Aconteceu Em Saint-Tropez

Para quem gosta de um filme onde simplesmente não há como definir onde começa e onde termina a tríplice fronteira entre o drama, a comédia e o romance, eis uma obra cinematográfica daquelas imperdíveis. O conflito familiar em torno de dois irmãos cheios de diferenças consegue conciliar o que muitos suporiam impossível, com a capacidade de preencher até o supostamente trágico com altas possibilidades de risadas. Falando em risada, o pai dos irmãos protagonistas é a garantia certa. E pra quem identificar a semelhança física dele com o Roberto Carlos (aquele indivíduo que comete algumas canções), as coisas podem ficar ainda mais cômicas. E pra quem acredita que tudo está bem quando termina bem, o negócio é relaxar e curtir o muito bem dirigido filme de Danièle Thompson.

O Menino Da Floresta

Os brutos também amam. Esta frase talvez seja a síntese da animação dirigida por Jean-Christophe Dessaint. Para o público acostumado aos filmes produzidos pelos estúdios Pixar, é possível que O Menino Da Floresta pareça superficial demais. Mas acredito haver neste filme muito mais coisa oculta do que propriamente explícita. A amizade construída entre o pequeno selvagem e a simpática Manon, além de reflexões em torno do quanto a nossa personalidade é moldada pela forma como somos educados por nossos pais (e como há momentos em que a desobediência é a única alternativa ética) são alguns dos ingredientes que compõem um filme que tem na simplicidade da leitura uma de suas maiores virtudes.

Prenda-me
Diferente de tudo o que já vi, essa foi provavelmente a história mais genial (ou, pelo menos, original) que assisti no Festival de Cinema Francês 2013. E a genialidade (ou, pelo menos, originalidade) gira em torno de algo relativamente simples, só que absolutamente incomum: a autora de um dito crime perfeito resolve assumir, anos depois, a autoria do assassinato do seu marido (até então visto como suicida). Mas o que torna esse filme imperdível transcende esse ato em si, pois o grande barato está em observar as nuances que levam a mãe de família à delegacia e a delegada ao perdão. Destaque também para a técnica de filmagem onde a câmera filma em primeira pessoa, fazendo o espectador enxergar com os olhos da protagonista (grande sacada!). Conceitos de liberdade e prisão transitam filosoficamente de maneira a repensarmos o que é, em essência, estar livre. Sophie Marceau e Miou-Miou estão ótimas em seus papéis, mas talvez nem precisassem: Jean Paul-Lilienfeld dirige algo tão brilhante que é como se a história em si já se bastasse. Mas vá lá, as duas estão realmente muito bem (sem esquecer do altamente convincente Marc Barbé). E você não pode deixar de assistir. Do contrário, estará preso.

Ferrugem E Osso
Aquele que teve a oportunidade de assistir o pesadíssimo O Profeta e associou o filme ao nome do diretor já deve ter ido ao cinema "preparado" para acompanhar o mais novo filme de Jacques Audiard. Pesado, de novo. Talvez não tanto quanto aquele, mas, como bem definiu minha mãe: visceral (e olha que ela só assistiu o anterior, mostrando que tem os dez dedos do diretor nessa arte de fazer filmes marcantes). A personalidade de Ali (Matthias Schoenaerts, absolutamente excepcional) e a química dele com os demais personagens (sobretudo a Stéphanie vivida magistralmente por Marion Cotillard) é uma coisa de louco. E, assim sendo, muito se deve às ótimas atuações destes e de todo o elenco em geral. Só que faço questão de exaltar também o genial Audiard, que dirige, produz e faz o roteiro de maneira a beirar a perfeição. Com intensidade e sensibilidade até dizer chega, Ferrugem E Osso é um filme para ficar para sempre na memória. E a cena do pai querendo salvar o filho no gelo me dá arrepios só de digitar... Assista. Mas vá "preparado".

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Festival De Cinema Francês 2012


Vamos aqui fazer breves considerações sobre os filmes assistidos, mais ou menos nos mesmos moldes de como analisamos ano passado e retrasado. Dessa vez, tive a felicidade de, durante os dezesseis dias de festival, assistir 14 dos 17 filmes exibidos (a grande maioria deles de altíssimo nível). Que venha a edição 2013. E viva o cinema francês!

E Agora, Aonde Vamos?
Vamos falar aqui de um filme maravilhoso. Ousado, trata de um tema delicado como o confilto entre cristãos e muçulmanos mesclando drama e comédia (e vice-versa). Prima pela sensibilidade na narração dos acontecimentos, sendo capaz de proporcionar risos e lágrimas. Ou seja, sucesso completo a obra assinada por Nadine Labaki. Imperdível.

O Barco Da Esperança

Retratando a realidade de uma travessia oceânica perigosa que parte de uma faminta África para um suposto paraíso europeu, O Barco Da Esperança navega por águas que conduzem o espectador a momentos de angústia e alívio. O diretor Moussa Touré conseguiu cumprir a proposta, mostrando ao mundo algo que não costuma aparecer nos noticiários.

Uma Garrafa No Mar De Gaza
Com o poder de debater sob uma ótica diferenciada a já banalizada guerra entre palestinos e israelenses em Gaza e adjacências, o filme consegue mergulhar no drama de uma família de cada lado "do muro". Com um roteiro muito bem amarrado, o desenrolar da história vai prendendo a atenção de um espectador que acaba se vendo condenado a torcer para que o encontro entre a bela Tal e o tal "Gazaman" aconteça. Surpreendente, o filme guarda o clímax para o final. Ou para depois dele.

A Filha Do Pai
Tinha todo o enredo para ser mais uma história de amor proibido daquelas que estamos cansados de assistir. Mas não. Eis um filme que capricha em cada sequência, em cada diálogo, em cada proposta de reflexão, fluindo num ritmo precisamente adequado para que a obra dialogue com o espectador da melhor maneira possível. Fiquei fã de Daniel Auteil, que deu aula de direção e de atuação. E também da bela Astrid Berges-Frisbey, protagonista que encanta e convence em sua interpretação. Vida longa a essa dupla!

Adeus Berthe Ou O Enterro Da Vovó
Como comédia, o filme funciona relativamente bem, com boas sacadas. Mas, no contexto geral, acaba deixando a impressão de que faltou (ou sobrou) alguma coisa para deixar a história melhor amarrada. Pode ser que o filme seja melhor do que a mim pareceu, mas assistí-lo depois dos dois filmes que tinha acabado de assistir talvez tenha pesado contra, pois definitivamente este não se encontra no mesmo nível daqueles anteriores.

Paris-Manhattan
A história cativa pela simplicidade, com a relação entre a protagonista e Woody Allen sendo um tempero especial que possibilita alguns risos e muitas reflexões. Embora tenha saído da sessão com a sensação de que alguma coisa não encaixou bem no filme, o agradável desenrolar da história e a própria personalidade de Alice (Alice Taglioni) compensam qualquer eventual falha.

Aqui Embaixo
Poderia indicar esse filme simplesmente pela espetacular atuação de Céline Sallette, irrepreensível na pele de Irmã Luce. Não bastasse isso, há que se enaltecer que a história (real) dessa religiosa foi um achado cinematográfico, tratada de maneira brilhante pelo diretor Jean-Pierre Denis. Filmaço.

Um Evento Feliz
A maternidade é tratada de maneira tão real que o filme parece conseguir a proeza de fazer o espectador se sentir um pouco mãe - no meu caso, foi perturbador "encarar" as cenas do parto, e naquele momento dava graças a Deus de ter nascido homem. As reflexões da protagonista e a química do casal principal são dois pontos fortes numa obra que abusa do poder de passar as emoções vividas pelos personagens.

Americano
Tinha tudo para ser um filme comum, mas, como num toque de mágica, a história ganha força e o que temos é um final arrebatador, daqueles para serem guardados na memória. Mas o nome disso não é mágica, não: é a ótima direção de Mathieu Demy.

O Monge 
Suspense com "S" maiúsculo, pra fazer acelerar os batimentos cardíacos, prender a respiração, arrancar o fôlego. Daqueles filmes que acompanham nossos pensamentos pra muito além do final da sessão, fazendo-nos (re)pensar muitas condições da existência humana. Com o perdão do trocadilho, a atuação de Vincent Cassel está impecável.

Abaixo, filmes assistidos durante o período de Repescagem.

Intocáveis
A obra dirigida por Olivier Nakache e Eric Toledano é conduzida de maneira magistral. Isso se deve não somente à exímia direção, mas também às ótimas músicas e, talvez principalmente, às irrepreensíveis atuações de François Cluzet e Omar Sy. Ao mesmo tempo cômico e comovente, este é daqueles filmes para rir muito e refletir bastante.

Polissia
Com cara de longa-metragem e alma de documentário, Polissia é um filme necessário. Pelo tema que aborda, já não há como ignorá-lo. E como se não bastasse a ousadia na narrativa, há um outro mérito exaltável na obra de Maiwenn (diretora e atriz): o de conseguir mergulhar no drama de praticamente todos os personagens que aparecem no filme, mesmo que presentes por apenas alguns segundos. O desfecho é exuberante, pra emocionar de tão perturbador e genial.


Alyah
No retrato da vida de Alex (Pio Marmai vai muito bem no papel, auxiliado pela atuação convincente de Cédric Kahn), o jovem de 27 anos que leva uma vida sem grandes projetos e aspirações acaba contagiando o próprio filme em si, que também acaba por parecer uma obra despretensiosa. Talvez esse seja justamente seu grande atrativo, embora, mesmo entre tantos encontros e desencontros, a história careça de emoção.


A Vida Vai Melhorar
Realista até dizer chega, o filme ilustra de maneira simples e direta aquilo que deve fazer parte do cotidiano da maioria dos seres humanos que vivem nas cidades: sonhos e poder aquistivo em grandezas inversamente proporcionais. Guillaume Canet brilha na pele do protagonista (o cozinheiro Yann) e, amparado pela ótima direção de Cédric Kahn, carrega o filme no colo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Festival De Cinema Francês 2011

A exemplo de 2010, lá fui eu para o Festival de Cinema Francês. Nesse ano de 2011, 22 cidades brasileiras receberam o evento, e fico na torcida para que o festival continue crescendo ano após ano, pois me ficou muito claro que o cinema francês está em grande nível. A seguir, os 7 filmes que assisti (deixando um sabor de "quero mais").

Xeque-Mate
Foi o primeiro e também o melhor filme que assisti nesse festival. Caroline Bottaro conduz o filme com uma suavidade e precisão digna dos grandes diretores, enquanto as atuações irretocáveis de Sandrine Bonnaire e Kevin Kline aliadas a um roteiro bem amarrado também contribuem para que o resultado final seja excelente. Uma história que comove pela simplicidade. Como disse minha mãe: "simplesmente magnífico; magnificamente simples". Para adeptos ou não do jogo de xadrez, o conselho é o mesmo: assista.

Uma Doce Mentira
O maior mérito do filme dirigido por Pierri Salvadori é o de conseguir ser engraçado na maioria de suas empreitadas de fazer humor (o que definitivamente não é nada fácil). A história, porém, segue aos trancos e barrancos, deixando a impressão de que algumas seqüências poderiam simplesmente ser descartadas do filme, não esclarecendo nem acrescentando nada. Se Audrey Tatou atua de forma correta (o que não é nenhuma surpresa), quem acaba roubando a cena - e ela faz isso sem aparecer nem falar muito - é Judith Chemla, hilária como Paulette. Ri muito!

Os Nomes Do Amor
Se levarmos em consideração a temática abordada pelo filme, o fato de se conseguir extrair humor numa história que encara a guerra franco-argelina e o holocausto é digno de aplausos ao diretor Michel Leclerc, feliz na sua ousadia. O destaque fica para a belíssima atriz Sara Fostier, daquelas capazes de transformar um direitista ortodoxo em esquerdista revolucionário sem precisar fazer muito esforço. Fazendo então, aí vira covardia.

Lobo
Um show de imagens. É mais ou menos como pegar o que há de melhor documentado (sem nada dever a NatGeo ou Discovery Channel), transformar em cinema e passar uma mensagem ao público. O trabalho do diretor Nicolas Vanier é tão deslumbrante que o mais sensato a se fazer é tomar nota desse nome e correr atrás do que quer que esse sujeito possa se envolver daqui para frente. Afinal, o que duvidar de alguém que supera um desafio de 50 graus abaixo de zero?

Copacabana
Babou (Isabelle Ruppert) poderia dar nome ao filme. Com uma atuação que encanta pela sutileza, a "despreocupada jovem-senhora" costura fio-a-fio o que no final das contas é o grande tecido denominado "Copacabana". O bairro da zona sul carioca nem precisou aparecer para ficar muito bem representado na alma da protagonista.

Senhorita
Além do Festival de Cinema Francês, o Rio de Janeiro teve o privilégio de sediar também a "Retrospectiva Bonnaire". E a atriz Sandrine Bonnaire (a mesma de "Xeque-Mate") tem novamente grande atuação, encarnando uma senhorita (ou "mademoiselle", se preferir) que por si só já torna o filme agradável, algo reforçado pela leveza do roteiro. Hoje Sandrine está no topo da lista de atrizes/diretoras que tenho vontade de assistir.

Simon Werner Desapareceu
É puro suspense, do primeiro ao último suspiro (talvez esse seja o maior mérito do diretor Fabrice Gobert). A história é contada com idas e vindas, reconstruindo as cenas sob a visão de diferentes personagens, o que torna o filme especial. E talvez essa sensibilidade de ir e voltar no tempo sem tornar a obra entediante - pelo contrário - seja o ponto que diferencie este filme de tantos outros já realizados, escapando daquela manjada ótica "hollywoodiana".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Festival De Cinema Do Rio

Do dia 23 de setembro até hoje, cariocas e/ou viajantes que encontram-se na Cidade Maravilhosa puderam curtir o Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Não me considero um cinéfilo (esse termo me sugere algo como "sujeito alucinado por cinema", creio que esteja num estágio pouco mais são que esse) mas o fato é que consegui ver vários filmes. De segunda-feira até ontem foram 4 (sendo um de fora do Festival). Vamos a alguns pitacos.

Comer, Rezar, Amar

É, esse não era pelo Festival (estava sendo exibido no circuito comercial). O filme tem várias paradas com as quais me identifico: aborda a Itália, a Índia, futebol, devoção, vegetarianismo, espiritualidade, trilhazinha sonora brasileira. E tem a Júlia Roberts, né? De toda forma, achei o olhar demasiado hollywoodiano (leia-se superficial). O início do filme parece fragmentado, meio que sem sentido, mas aos poucos a história vai ficando interessante. A atuação de Júlia é convincente (pra variar) e, mesmo com o tanto de estereótipos toscos (por acaso é comum no Brasil o pai beijar o filho na boca?), vale dar uma olhada. Pra quem não sabe, esse filme deu bastante polêmica entre os torcedores da Lazio: no livro que deu origem à obra audiovisual o personagem torcia pelo clube da camisa celeste, enquanto na película o cara "virou" torcedor da Roma. Roma, justamente a maior rival da Lazio. Alguns adeptos mais exaltados sugeriram o seguinte: "coma, reze, ame, leia o livro, mas não vá ao cinema". Eu, teimoso, acabei indo. Não empolgou, mas achei que valeu. Detalhe: meiaentrada segunda-feira por R$3,50 é o que há!

José Martí: O Olho Do Canário

Inspirador! História bem contada, que flui bem, se desenrola com coerência. O diretor conseguiu adentrar no drama dos personagens de uma forma muito sensível e contar a história de um dos pilares da Revolução Cubana. Confesso que pouco - quase nada - sabia a respeito da opressão espanhola sob o povo da ilha da América Central, e a biografia de José Julián Martí Pérez me comoveu. O desfecho da história com uma das poesias de José Martí associada à imagem da cena foi absolutamente memorável. "Viva Cuba libre"! Viver por um ideal, pense nisso.

Poesia

Filme coreano que retrata a vida de uma senhora humilde, empregada doméstica e que cuida do neto sozinha. A história, ao meu ver, carece de um clímax, mas é de alta sensibilidade. A relação da senhora com o Alzheimer, a vida do neto, o trabalho que lhe dá sustento e a poesia tecem uma trama cheia de mensagens sutis. Me lembrou um pouco o filme "Mother". Esse seria o "Grandmother". Grandiosa é a atuação da atriz Yun-Jung Hee.

Lope

Na cerimônia de encerramento do Festival de Cinema do Rio, muita badalação no Cinema Odeon. Lá estava eu, quase que de penetra, sendo cumprimentado por alguns "famosos" que deveriam achar que eu também tô no ramo haha... Falando do filme, pode-se dizer que a obra cresce. Cresce absurdamente, a ponto de parecer que trata-se de uma co-produção onde os primeiros enfadonhos minutos foram de autoria de algum amador da indústria cinematográfica e, a partir de um certo momento, a obra ganha vida e toma ares de um filmaço. Recomendo que assista e dou a dica: não saia antes de terminar. Mais um daqueles filmes com um final para se guardar na memória.

Também assisti o filme israelense "O Errante" (semana passada). Esse daí achei de uma genialidade sinistra. Tão genial que foi mal compreendido pelo público. Justifica-se: quadros mal encaixados (certamente propositalmente, talvez para causar desconforto), 0 de trilha sonora (a vida real também não tem musiquinha de fundo, senhoras e senhores), seqüências demoradas de cenas (pela primeira vez pude ver um ovo ser fritado na grande tela). A realidade perturbadora do protagonista é tratada de forma seca, mostrando que o diretor Avishai Sivan veio não para ser mais um, mas para deixar a sua marca. Em tempos onde o cinema-entretenimento trás cenas em ritmo alucinante e tirando do espectador a mera possibilidade de "pensar o filme", O Errante está aí. Vá preparado para algo que escapa do comum. Ou então, nem vá.

O Errante: pessoas acostumadas com o "jeito Hollywood de ser" terão dificuldades de encarar o filme israelense.

Antes ou depois de "O Errante" (desculpem, não lembro mesmo), assisti ao filme "A Última Estação", que conta a biografia de Liev Tolstói. Como não poderia deixar de ser, o filme tem significativo viés filosófico, apoiado na mente iluminada daquele russo, que optou por um modo de vida baseado no voto de pobreza, no vegetarianismo e na castidade. É agradável o fluir do filme, mas senti que a história de Tolstói "não coube" na película de 112 minutos. Merece uma trilogia. E, se possível, com a mesma equipe que participou dessa obra.

A Última Estação: Christopher Plummer parece a própria encarnação de Tolstoi, em filme com sabor de quero mais.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um Novo Caminho

Um Novo Caminho foi um dos filmes que estiveram no Festival de Cinema Francês, realizado em junho desse ano (veja esta e também esta postagem). Não rolou de assistí-lo na ocasião do festival, mas a sinopse e o visual do trêiler me convidaram a não desistir da empreitada e, ontem, tive a grata oportunidade de ver essa obra de Philippe Godeau.

Usando poucas palavras, cravo aqui que trata-se de um filmaço. A atuação de François Cluzet dispensa adjetivos e o filme flui no ritmo certo para passar a mensagem. E que mensagem! Deveriam disponibilizar uma cópia de Um Novo Caminho em cada bar desse planeta.

Um Novo Caminho

Direção: Philippe Godeau

Com: François Cluzet, Mélanie Thierry, Michel Vuillermoz

Título original: Le dernier pour la route

Drama - 1h47 - 2009
(Faixa etária 14 anos)

Hervé, dono de um agência de notícias, decide se livrar da dependência ao álcool. Longe de tudo e graças aos outros, consegue lutar e começar uma nova vida...

"Um filme profundamente humano (…) François Cluzet, sombrio, misterioso, tenso, irônico, deixa aflorar uma sensibilidade, uma dor, uma humildade comoventes" – Le Figaroscope.

Nosso Lar

O filme baseia-se na obra de Chico Xavier e homenageia, dignamente, o centenário de nascimento desse médium que dedicou toda a sua experiência humana em serviço do próximo. "Nosso Lar" é um dos 16 títulos desenvolvidos na parceria Chico-André Luiz e, obviamente, está vinculado à doutrina espírita. Seja você espírita, católico, budista, evangélico, Hare-Krishna, islâmico, candomblecista, ateísta ou o que quer que seja, recomendo que assista esta produção brasileira em cartaz nos cinemas desde sexta-feira.

Não é por uma questão de concordar ou discordar daquilo que é exposto, mas por se tratar de algo absolutamente plausível de ser observado. Imersos em tanta futilidade veiculada pela grande mídia, uma obra como "Nosso Lar" surge como um oásis no deserto e o fato de colocar em discussão valores espiritualistas (não necessariamente religiosos) já é algo louvável.

Para saber mais a respeito do filme, recomendo que acesse esta página. Mas o importante mesmo é que você não desencarne antes de assistí-lo. Parabéns ao diretor e roteirista Wagner de Assis e a todos os que participaram. Chico e André, onde quer que agora estejam, certamente sorriem.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Terminou O Festival, Mas Começou A Copa

Assisti a 7 filmes no Festival de Cinema Francês, que exibiu 10 obras em 9 cidades brasileiras, entre os dias 2 e 10 de junho de 2010. Uma maravilha ver o grande nível do cinema da França na atualidade e muito gostoso poder assistir a debates com os atores, vê-los de perto etc. Ficou um sabor de "quero mais", além daquele desejo de aprender o idioma local. Os 3 filmes que ainda não assisti estão na minha lista, espero vê-los o quanto antes.

Comentarei, brevemente, os dois filmes que assisti anteontem. Ontem iria assistir mais um, mas o trânsito caótico me obrigou a mudar os planos e acabei tendo que me contentar em ver o "show de abertura" da Copa do Mundo (e nem deu tempo de ficar pra ver a Shakira...).

O Dia Da Saia
História muito, mas muito, mas muito bem proposta. O filme narra o dia de uma professora que experiencia a violência e o mau comportamento dentro de uma escola pública francesa. O desenrolar dos fatos impressiona, onde o diretor consegue a proeza de conciliar o trágico ao cômico, arrancado suspiros de tensão e risos de graça numa obra que reserva um final sensacional, muito profundo.

O Refúgio
Filme que acompanha a gravidez de uma mãe bonita, com conforto financeiro, mas que tem como principal adversidade na sua vida o fato de ser viciada em drogas. A história flui com ares melancólicos e tem uma transmutação quando a protagonista passa a se aproximar do irmão de seu falecido parceiro amoroso, pai da criança que carrega no ventre. Nasce uma relação interessante entre eles e o final do filme sugere uma reflexão bastante admirável no assunto "maternidade".

Merci beaucoup, França! Au revoir, amigos! Aller au cinéma!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Festival De Cinema Francês

Está rolando desde o dia 2 e irá até o próximo dia 10 o festival de cinema francês, presente em 9 capitais brasileiras. Tive a oportunidade de saborear 5 filmes desse festival e planejo ver mais (se possível, todos).

Vou aqui comentar brevemente sobre os filmes que assisti até o momento. E fica a dica: vá ao cinema!

Coco Chanel & Igor Stravinsky

Bom filme, que mostra como as emoções vividas pelas pessoas influenciam diretamente nos seus respectivos trabalhos. Stravinsky direcionava para suas composições uma genialidade que era moldada pelos seus sentimentos cotidianos. Um dos grandes momentos do filme é quando a esposa (traída) de Igor demonstra ter ciência do romance de seu marido com a estilista Coco Chanel, dizendo: “vejo muito mais paixão na sua música”. Quem não se apaixonaria pela música de Stravinsky? Ou pela beleza de Anna Mouglalis?

Hadewijch

A atuação da protagonista é algo de outro mundo. Se formos levar em consideração que é o primeiro papel cinematográfico da atriz Julie Sokolowski, chega a ser espantoso o quão convincente é o desempenho dela. O filme segue um ritmo que permite um diálogo entre diretor/espectador. E, quando parece que temos certeza do que vai sair dessa conversa, Hadewijch surpreende e emociona com um desfecho belíssimo. De altíssima sensibilidade narrativa, faço questão de colocar o nome de Bruno Dumont entre os grandes diretores da atualidade.

Faça-me Feliz

Comédia gostosa (sem fazer trocadilho com a bela atriz Frédérique Bel) e que flui muito bem. É verdade que a seqüência em que o protagonista está na festa na casa da filha do presidente lembre muito o filme “Um Convidado Bem Trapalhão” (com o lendário Peter Sellers), mas isso não tira a originalidade da obra de Emmanuel Mouret.

O Profeta


Filme muito bem dirigido, com atuação irrepreensível de Tahar Rahim e um roteiro que tira o fôlego e perturba. Certamente causará ainda muita polêmica. No cinema onde assisti (Unibanco Artelplex), a classificação etária estava como 12 anos. Absurdo. O próprio gerente do cinema reconheceu o erro e aumentará para 16 anos (“bondade” dele, era pra pelo menos 18). Aliás, se você tiver 20, 30, 40 ou o que for, só assista se for forte. A obra de Jacques Audiard é de deslocar da poltrona do cinema.

Oceanos

Assista-o. A abordagem sobre os oceanos é perfeita. A partir da exibição desse filme, você verá que qualquer obra sobre os mares pode ser qualificada como AO e DO – Antes de Oceanos e Depois de Oceanos. Tiro o meu chapéu para os diretores Jacques Perrin e Jacques Cluzaud.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Balanço De Março

Cinemas, jogos, chuvas, moedas, show... esse mês de março foi que foi.

Assisti "Um Olhar Do Paraíso", "Ilha Do Medo", "Educação" e "Como Treinar O Seu Dragão". Quatro bons filmes, cada um à sua proposta.

Dia 3 fui ao Maracanã, arrastado por dois urubus, assistir Flamengo e Madureira. Partida horrorosa dentro de campo e público presente em números bisonhos: o clube da "maior torcida do mundo" levou pouco mais de duas mil pessoas a pagarem ingresso para vê-lo jogar. E eu, um mané por completo, era uma delas.

Dia 5 foi aniversário de mamãe, parabéns pra ela! (:

Dia 6 a chapa esquentou aqui em casa. Aliás, a chapa molhou - e como molhou - aqui em casa. Um plástico localizado (de forma suspeita) na calha fez com que a chuvarada que caiu dos céus entrasse pelo sóton e improvisasse um chuveiro em pleno corredor do segundo andar de onde moro. Foi muito sinistro, a casa ficou mais de uma semana com aquele cheiro de água impregnado (sim, água tem cheiro).


É o que parece: água caindo pelo teto.

Dia 9, um camarada e eu estabelecemos um novo recorde de troca de moedas por cédulas. Fomos a uma franquia do Mega Matte com centenas de moedas (valores de 50 centavos e 1 real), totalizando R$307,50. Foi o passatempo da noite da funcionária do caixa, que mantinha na face uma expressão de grande satisfação por estar renovando incrivelmente o seu estoque de troco. De nada.

Dia 14, Fogão e Olaria no Engenhão. Se na semana anterior havia pego chuva dentro de casa, dessa vez o banho foi na minha segunda casa. Caíram águas torrenciais e o estádio chegou a ficar às escuras por queda de energia. Não entendo uma parada: se a nossa matriz energética vem das hidro-elétricas, havendo muita hidro, como pode faltar a elétrica? O fato é que nem pude voltar de ônibus pra casa, pois o ponto tinha virado uma piscina - o piscinão do Engenhão. No meio de tanta água, sobrou pro telefone celular. Ele já vinha se comportando de forma suspeita, e depois desse episódio pediu arrêgo legal. Mas, no dia seguinte, como de forma sobrenatural, ele voltou a funcionar. Não é lá um funcionamento pleno (ele passou a estar "carregando" mesmo fora da tomada), mas é espantosa a resistência do aparelho.

Acabou o papo de chuva? Nada. Dois dias depois do jogo de pólo aquático na grama do Engenhão, São Pedro voltou a me contemplar com os seus serviços meteorológicos. As cadelas e eu, dando uma humilde volta no Maracanã, recebemos um dilúvio pra lavar até a alma. Elas podem se sacudir e espirrar água pra tudo que é lado, mas e eu?

Mas tranqüilo. A gente vivencia essas paradas numa boa. O "problema" está na interpretação, não na coisa em si. E, realmente, não havia problema nenhum. Estava por vir era algo maravilhoso: o show de Franz Ferdinand, na Fundição Progresso. Faltam-me adjetivos pra qualificar aquilo que testemunhei à altura do que o show merece. Vou me limitar a dizer que foi absolutamente Franztástico.


Momento em que o vocalista Alex Kapranos voa para a galera: fechando com chave-de-ouro.

Franz Ferdinand [20mar2010] Rio De Janeiro from 3DURLZ on Vimeo.



Na última segunda-feira, Armando Nogueira despediu-se do corpo físico. É uma figura que me faz lembrar de vovô, não apenas por ambos terem trabalhado juntos ou por ambos serem jornalistas ou por ambos amarem futebol e entenderem desse esporte como poucos. Acho que o que me faz recordar é o conjunto dessas características somados à simplicidade e singeleza com que expõem suas opiniões, engrandecendo o mais banal dos acontecimentos, como por exemplo um gol numa partida de futebol. Como colocou Chico Alencar através do Twitter:
'A morte não é o fim do mundo: quem morre muda, e quem muda melhora'. Do Armando Nogueira, que partiu hoje, no 1º dia da Semana Santa.
Vai ver todas as águas de março, fechando o verão, anunciavam a despedida desse poeta das crônicas esportivas.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ilha Do Medo

Havia assistido o trêiler desse "Ilha Do Medo" e quando vi que ali estavam o diretor Martin Scorsese e o ator Leonardo DiCaprio, de imediato me veio em mente que os dois trabalharam juntos num filmaço chamado "O Aviador". Passados alguns dias, vovó disse-me ter gostado muito desse mais recente trabalho das duas feras, e outras duas ou três pessoas afirmaram também terem gostado do que viram. Pra dar aquele "empurrão final" ao cinema, um camarada ligou-me hoje afirmando que o filme é bom pra... pra... enfim, ele disse uma palavra de sete letras que denota que o filme é demasiado bom. Então, hoje à tarde, lá fomos mamãe e eu ver qual é.

E trata-se, de fato, de um filmaço. Daqueles filmes que ficam na sua cabeça, te fazendo repensar o desenrolar da história, te "perturbando" (no melhor sentido do termo, se é que o termo chega a ser apropriado), te fazendo pensar e ter dúvidas quanto à tudo aquilo que você acabara de ver. O filme terminou há mais de duas horas, e ainda está vivo, muito vivo.

Se você não o assistiu e tem a idade mínima recomendada pela censura, encaminhe-se para uma sala de cinema e saboreie a obra. Faça isso e interrompa a leitura disso que estou digitando. Vou compartilhar com vocês - de preferência que já tenham assistido - como interpretei o filme. Exatamente, como interpretei. Scorsese foi tão brilhante no desenvolvimento e no desencadear dos acontecimentos que deixa o espectador na dúvida sobre o que efetivamente era "a verdade" naquilo tudo. E isso torna o filme ainda mais especial e instigante.

Abaixo, a "ficha técnica" do filme.
Ilha do Medo
Título original: (Shutter Island)
Lançamento: 2010 (EUA)
Direção: Martin Scorsese
Atores: Leonardo DiCaprio , Mark Ruffalo , Ben Kingsley , Emily Mortimer , Michelle Williams
Suração: 148 min
Gênero: Suspense
Status: em cartaz
Repito: se você ainda não assistiu, termine a leitura aqui. Se possível, volte depois de assistí-lo.

Bom, agora que só ficaram os leitores que já assistiram o filme, vamos em frente, rumo à uma interpretação possível do filme "Ilha Do Medo".

O agente federal Teddy Daniels (Leo DiCaprio), inteligentíssimo, acaba se metendo numa encrenca. Encrenca essa que ocupa basicamente a totalidade das quase duas horas e meia de filme. Encrenca essa que é na melhor das intenções, na tentativa de desvendar um mistério desafiador e de fazer justiça com o assassino de sua mulher. Isso mesmo, na minha opinião Teddy de forma alguma matou sua mulher. Quem quer que você cogite essa hipótese é o sagaz diretor Scorsese - além, é claro, da junta psiquiátrica altamente mafiosa que toma conta da ilha.

Pois bem. O filme teve a audácia de denunciar os tratamentos psiquiátricos que fazem uso de cobaias involuntárias, isto é, que de nenhuma forma consentem em oferecer seus cérebros para a satisfação de interesses alheios. Teddy não apenas discorda disso tudo, mas quer provar que aquilo de fato ocorre no perímetro da ilha. Mas como fazê-lo se, lá dentro, as pessoas querem levá-lo a pensar que ele mesmo enlouqueceu, sendo mais um paciente a ser tratado? Sinistro, muito sinistro. Ao meu ver, o filme tem algumas cenas-chave. [1] O bilhete "run" que uma paciente deu ao agente federal (sem que o "seu parceiro" pudesse observar); [2] a aparição de uma falsa Rachel Solando; [3] o diálogo arrebatador com George Noyce; e [4] a conversa "esclarecedora" na caverna, com a verdadeira Rachel Solando. Tudo isso junto me parecem as pilastras de sustentação de um filme onde não há uma única fagulha colocada em falso. Nem a de Andrew Laeddis.

O fato desse filme me fazer postar pra falar sobre ele e de me fazer sair da sala de cinema cheio de dúvidas - felizmente, tive a sorte de assistir com alguém que argumentou de uma maneira que corroborou minhas (pseudo)convicções - indicam que, mais do que valer o ingresso, é um filme para se guardar na memória. Ou mesmo para se ver novamente.

Parabéns, Scorsese, DiCaprio e a todos envolvidos nessa obra-de-arte cinematográfica.

Filmaço.