terça-feira, 30 de novembro de 2010

Luz Do Bhagavata - Verso 8

O verde vívido da grama recém-crescida, as flores sazonais, os cogumelos, as borboletas e as outras variedades da estação chuvosa representam perfeitamente uma família próspera absorta na vaidade de suas posses.

O homem rico exibe sua opulência de várias maneiras coloridas. Ele possui uma bela mansão residencial com um enorme terreno e um jardim bem cuidado. A mansão é decorada com mobília e tapetes modernos. Ele possui automóveis com polimento ofuscante e um aparelho de rádio que recebe e transmite notícias ao vivo e canções melodiosas. Tudo isto cativa o seu proprietário como se ele estivesse numa terra de sonhos por ele mesmo criada.

Quando esse mesmo homem era tão árido quanto a terra não cultivada e não tinha nehuma dessas opulências, seu comportamento era simples. Porém, desde que obteve todos esses meios materiais de desfrute, ele esqueceu-se do princípio de que tudo no mundo vem e vai como as estações mutáveis. O belo Forte Vermelho e o Taj Mahal foram construídos por Xá Jahan, que deixou o local há muito tempo, e muitos outros vieram ao mesmo local e se foram, como flores sazonais. As posses mundanas assemelham-se às flores sazonais. Ou as flores murcham, ou o próprio jardineiro se vai. Esta é a lei da natureza. Portanto, se desejamos vida, conhecimento e bem-aventurança permanentes, devemos buscá-los em outro lugar, não na estação chuvosa, temporária e mutável, que é repleta de muitas variedades de visões prazerosas que se desvanecem quando a estação acaba.
A manifestação dos elementos materiais não passa de representação sombria da realidade. Ela é comparada à miragem no deserto. No deserto não existe água, mas o cervo estulto corre em direção à água ilusória do deserto para saciar sua sede. A água não é irreal, porém, o lugar onde a procuramos é ilusório. O avanço da civilização materialista é exatamente como uma miragem no deserto. O tolo cervo corre atrás da água no deserto com toda a velocidade, e a ilusão da água move-se à sua frente à mesma velocidade. A água não é falsa, mas não devemos buscá-la no deserto. A entidade viva, devido a sua experiência passada, lembra a verdadeira felicidade de sua original existência espiritual, contudo, desde que se esqueceu de si mesma, busca felicidade espiritual ou permanece na matéria, embora isto seja impossível de alcançar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Purgatório Da Beleza E Do Caos

Mais uma vez, veja só, o Rio de Janeiro é notícia internacionalmente.

Alguns me perguntaram (meses atrás, antes do pleito eleitoral) a respeito das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), implementada na gestão do atual governador, reeleito mês passado. Minhas respostas costumavam ser reticentes: 'isso está estranho', 'esse negócio está esquisito'. E aconteceu. Para alegria do senhor governador Sérgio Cabral, aconteceu depois das eleições. Mas, para tristeza e medo da população carioca, aconteceu. Após desterritorializarem o narcotráfico em 14 favelas escolhidas, os indivíduos economicamente prejudicados (leia-se narcotraficantes) reagiram. E, pela primeira vez na história dessa cidade, vê-se uma união da criminalidade: nesse momento, não importa a facção às quais os narcotraficantes "pertencem", nesse momento a UPP desses indivíduos significa "Unidos Pelo Pó".

Apoiadas pela grande mídia e aplaudidas por grande parte da população residente, as ações das forças policiais prometem o máximo de ostensividade, seguindo a estratégia do enfrentamento e alimentando a lamentável estatística de ser essa polícia - a do Rio de Janeiro - a que mais mata e a que mais morre no mundo.

Não sei quanto tempo durará essa empreitada. A "cidade maravilhosa" está, na data dessa postagem, no 6º dia de ações/reações armadas. A certeza que guardo é a de que nenhuma mazela social será totalmente desfeita sem que se reduzam drasticamente as desigualdades.

Agora é hora - como sempre é - de colocarmos a mão na consciência e auto-refletirmos o seguinte: "até que ponto estou envolvido nisso?". Poderia responder a essa indagação estendendo o tópico em mais um ou outro parágrafo, mas a idéia é que você responda por si próprio. Até porque, talvez, as respostas possam ser diferentes. Até que ponto estamos envolvidos nisso?

Em tempo, uma sugestão de leitura: "São Sebastião ainda olha por nós e algumas considerações".

Abraços.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Luz Do Bhagavata - Verso 7

Os pequenos córregos que quase secaram durante os meses de maio e junho começam agora a transbordar suas margens, tal como os novos-ricos que subitamente excedem os limites de seus gastos.

Deve-se aprender a gravidade com o mar e o córrego. Embora muitos rios lancem suas águas no mar, este permanece sempre dentro de seus limites. De forma semelhante, deve-se usar apropriadamente os bens da vida e não esbanjá-los visando a propósitos que não têm valor permanente. Pessoas descontroladas e luxuriosas brincam com os bens do corpo e acumulam riqueza. Contudo, o vigor físico deve ser usado para auto-realização, não para gozo dos sentidos.


Os seres humanos têm duas classes de temperamento. Alguns são introspectivos e outros são esbanjadores. Aqueles que são esbanjadores ficam cativados pelos aspectos externos da beleza fenomenal e não têm compreensão da manifestação total. Sua introspecção está praticamente adormecida, e por isso são incapazes de auferir qualquer lucro permanente da riqueza da forma de vida humana. Porém, quem desenvolveu a introspecção é tão grave quanto o mar. Enquanto os esbanjadores permanecem calmos e tranqüilos em seu torpor, aqueles que são graves usam toda a vantagem oferecida pela forma de vida humana.


Embora as propensões animais do corpo devam ser minimizadas, aqueles que são esbanjadores excedem-se por certo tempo no desfrute material. Entretanto, tão logo a estação chuvosa da vida termina, eles tornam-se tão áridos quanto os leitos de rios secos. A vida tem por objetivo a causa certa, ou sat - aquilo que existe para sempre. No mundo material nada é sat, eterno, todavia, o mau negócio do mundo material pode ser usado para o melhor propósito. A mente dedicada ao esbanjamento é um mau negócio, mas pode-se fazer o melhor uso da mente através da introspecção.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Voto Derradeiro Nas Eleições 2010: O Que Fazer?

Tão logo foi oficialmente divulgado o segundo turno presidencial entre Dilma Rousseff (para mais 4 anos de PT) e José Serra (para mais 4 anos de PSDB), notei que me encontraria em um grande dilema para o novo pleito eleitoral.

A votação derradeira acontecerá no próximo domingo, 31. A dúvida que paira sobre esta mente é se devo anular o voto teclando 50 (ou qualquer outro número que não o dos candidatos, embora o 50 carregue um aspecto simbólico) ou se devo anular o candidato José Serra teclando 13.

A candidata Dilma não me empolga. Votar nela seria, no meu raciocínio, votar na plataforma petista, que, embora não seja a ideal, é muito mais próxima dos menos favorecidos do que a plataforma tucana, altamente elitista no seu mergulho neoliberal.

Mais que isso, votar em Dilma seria o ato formal de comprovar o meu medo no retorno dos tucanos ao governo federal. As gestões de FHC (nas quais José Serra foi ministro da Saúde e também ministro do Planejamento) representaram oito anos que eu não gostaria de ver o Brasil experienciar de novo.

No debate de ontem, anunciado como o penúltimo da televisão, ficou bastante claro uma coisa: tanto Dilma quanto Serra estavam mais preparados em apontar os podres dos oponentes do que propriamente a apresentar uma política pública que contemple a massa de necessitados.

Num determinado momento, foi feita uma pergunta ao tucano que comparava os 8 anos de governo do PSDB (5 milhões de empregos gerados) com os quase 8 anos de governo do PT (cerca de 15 milhões de empregos gerados). O tucano "preferiu" falar da Petrobras, numa explanação que não contemplou palavras como "emprego", "trabalho", "renda", supostamente no mesmo campo semântico da pergunta a ele feita. Daí eu pergunto: houve um debate? Dou-me a liberdade de responder: não, não houve. Talvez tenha havido um conflito. Mas, infelizmente, não um conflito de idéias - por mais incrível que possa parecer, os dois candidatos em muito se assemelham - e sim um conflito na esfera pessoal. Para tristeza dos eleitores, obrigados a comparecerem a uma zona eleitoral e depositar seu voto numa específica urna eletrônica, sobraram duas coligações de mensaleiros. Não há moral de nenhum sobre outro ali. Ambos, quietos, já estariam errados. Mas eles fazem questão de falar. Debater que é bom, quase nada.

Bem, talvez você esteja querendo saber para quem vai o meu voto. Devo confessar que tenho mais medo de um novo governo tucano do que empolgação por um novo governo petista. 8 anos atrás, fui votar pela primeira vez. 16 anos de idade (ou 17 recém-completados, não lembro) e um sentimento de esperança personificado na figura barbuda e carismática de Luís Inácio "Lula" da Silva. Lula foi eleito, e a política privatizatória de Fernando Henrique desfeita (dou graças a Deus por isso). Os indicadores sociais deram saltos. O Brasil melhorou. Mas vieram escândalos, alguns deles lamentáveis, principalmente por envolver um partido que enchia a boca para falar de "ética". Em 2006, dei meu voto no primeiro turno para Heloísa Helena. No segundo, para Lula. Nesse ano, votei em Plínio de Arruda Sampaio, um indivíduo que chegou a me comover com a sua linda candidatura. No segundo turno, o que fazer? Retornando ao sentimento de esperança - campanha "a esperança venceu o medo" -, a minha única esperança nesse segundo turno é de conotação utópica: de que o povo brasileiro anulasse o voto. Votar em Dilma seria motivado pelo sentimento de medo: medo de uma eleição de José Serra. Não posso trair um sentimento tão nobre quanto o da esperança. Por mais utópico que pareça. Tá decidido: vou anular.

Bom voto para todos. O país que merecemos é esse que está aí. Nada mais que isso.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Uma Unidade Resgatada

70 dias. O que você faz em 70 dias?

São 10 semanas. Mergulhados na rotina cotidiana, nem nos damos conta do que podemos fazer nesse período. No Chile, trabalhadores de uma mina ficaram soterrados e conviveram por 70 dias privados de toda comodidade, sem poder sequer ver a luz do sol. Surpreendentemente, aquelas 33 pessoas (leia-se 33 heróis) conviveram harmoniosamente, esbanjando inclusive bom-humor.

Não sei o que esse fato marcante possa ter representado para você que está lendo essas palavras nesse momento. Mas, para mim, foi bastante significativo. Uma verdadeira aula de valorização da vida. Uma volta por cima - literalmente - inspiradora. A mobilização internacional para acompanhar o resgate também é um sinal positivo. Eu, se fosse cineasta, correria atrás dos direitos de transformar essa história em filme. Não sou, então dedico, humildemente, essa postagem a cada um dos 33 indivíduos que tanto ensinaram àqueles dispostos a extrair algum aprendizado dessas situações inusitadas que a vida por vezes pode nos proporcionar.

Mais que uma unidade de mineiros, creio que a humanidade pode ter sido resgatada. Um resgate de valores. Viva a vida!

Juan Carlos Aguilar, um dos mineiros resgatados, retorna à mina para acompanhar uma missa de agradecimento, acompanhado de esposa e filha.

Que os próximos 70 dias sejam muito bons para todos nós!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

14:53h, 28ºC

O relógio digital situado no estádio Jornalista Mário Filho, vulgo Maracanã, apontava esse horário e essa temperatura. Enquanto isso, lá estávamos Gaia, Samadhi e eu a andar em torno do "maior do mundo" (hoje um canteiro de obras gigantesco). Ao fato.

Num determinado momento, as cadelas começaram a tentar me puxar pro lado. Era exatamente na direção onde passava um sujeito andando com um copo de sorvete. Trouxe as coleiras mais pra perto e seguimos em frente.

Eis que o camarada olha pra elas e, de alguma forma, toma a iniciativa de oferecer-lhes um pouco de sorvete! Nunca havia visto isso antes, ainda mais na rua, sem "conhecer" a pessoa. Acha que acabou? Está apenas começando...

Ele: aê, elas podem tomar um pouco desse sorvete? Eu abaixo o copo...
Eu: pô, acho melhor não, é capaz delas avançarem...
Ele: ah! Então eu coloco um pouco aqui [apontando pro chão] pra elas.
Eu: beleza, cara!

Nesse momento, o sujeito pega uma colherada generosa de sorvete, se abaixa e sacode a colher generosamente para que o sorvete caísse no chão. E lá foi a Samadhi devorar, sem deixar nada pra Gaia.

Ele: a outra não tomou, vou botar mais.
Eu: demorô.

Nesse momento, segurei a Samadhi e lá foi a Gaia abocanhar o sorvete.

Eu: ó a alegria delas...
Ele: se amarram, né?
Eu: pô, valeu aí...
Ele: valeu!

E lá foi ele andando, tomando o resto do sorvete, gentil e espontaneamente compartilhado.

Nunca vi nada dessa natureza antes. Coisas assim, aparentemente banais, me fazem ter esperança na espécie humana, mesmo diante de uma sociedade que nos enche de motivos para temermos o futuro que se aproxima. Isso faz diferença.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Festival De Cinema Do Rio

Do dia 23 de setembro até hoje, cariocas e/ou viajantes que encontram-se na Cidade Maravilhosa puderam curtir o Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Não me considero um cinéfilo (esse termo me sugere algo como "sujeito alucinado por cinema", creio que esteja num estágio pouco mais são que esse) mas o fato é que consegui ver vários filmes. De segunda-feira até ontem foram 4 (sendo um de fora do Festival). Vamos a alguns pitacos.

Comer, Rezar, Amar

É, esse não era pelo Festival (estava sendo exibido no circuito comercial). O filme tem várias paradas com as quais me identifico: aborda a Itália, a Índia, futebol, devoção, vegetarianismo, espiritualidade, trilhazinha sonora brasileira. E tem a Júlia Roberts, né? De toda forma, achei o olhar demasiado hollywoodiano (leia-se superficial). O início do filme parece fragmentado, meio que sem sentido, mas aos poucos a história vai ficando interessante. A atuação de Júlia é convincente (pra variar) e, mesmo com o tanto de estereótipos toscos (por acaso é comum no Brasil o pai beijar o filho na boca?), vale dar uma olhada. Pra quem não sabe, esse filme deu bastante polêmica entre os torcedores da Lazio: no livro que deu origem à obra audiovisual o personagem torcia pelo clube da camisa celeste, enquanto na película o cara "virou" torcedor da Roma. Roma, justamente a maior rival da Lazio. Alguns adeptos mais exaltados sugeriram o seguinte: "coma, reze, ame, leia o livro, mas não vá ao cinema". Eu, teimoso, acabei indo. Não empolgou, mas achei que valeu. Detalhe: meiaentrada segunda-feira por R$3,50 é o que há!

José Martí: O Olho Do Canário

Inspirador! História bem contada, que flui bem, se desenrola com coerência. O diretor conseguiu adentrar no drama dos personagens de uma forma muito sensível e contar a história de um dos pilares da Revolução Cubana. Confesso que pouco - quase nada - sabia a respeito da opressão espanhola sob o povo da ilha da América Central, e a biografia de José Julián Martí Pérez me comoveu. O desfecho da história com uma das poesias de José Martí associada à imagem da cena foi absolutamente memorável. "Viva Cuba libre"! Viver por um ideal, pense nisso.

Poesia

Filme coreano que retrata a vida de uma senhora humilde, empregada doméstica e que cuida do neto sozinha. A história, ao meu ver, carece de um clímax, mas é de alta sensibilidade. A relação da senhora com o Alzheimer, a vida do neto, o trabalho que lhe dá sustento e a poesia tecem uma trama cheia de mensagens sutis. Me lembrou um pouco o filme "Mother". Esse seria o "Grandmother". Grandiosa é a atuação da atriz Yun-Jung Hee.

Lope

Na cerimônia de encerramento do Festival de Cinema do Rio, muita badalação no Cinema Odeon. Lá estava eu, quase que de penetra, sendo cumprimentado por alguns "famosos" que deveriam achar que eu também tô no ramo haha... Falando do filme, pode-se dizer que a obra cresce. Cresce absurdamente, a ponto de parecer que trata-se de uma co-produção onde os primeiros enfadonhos minutos foram de autoria de algum amador da indústria cinematográfica e, a partir de um certo momento, a obra ganha vida e toma ares de um filmaço. Recomendo que assista e dou a dica: não saia antes de terminar. Mais um daqueles filmes com um final para se guardar na memória.

Também assisti o filme israelense "O Errante" (semana passada). Esse daí achei de uma genialidade sinistra. Tão genial que foi mal compreendido pelo público. Justifica-se: quadros mal encaixados (certamente propositalmente, talvez para causar desconforto), 0 de trilha sonora (a vida real também não tem musiquinha de fundo, senhoras e senhores), seqüências demoradas de cenas (pela primeira vez pude ver um ovo ser fritado na grande tela). A realidade perturbadora do protagonista é tratada de forma seca, mostrando que o diretor Avishai Sivan veio não para ser mais um, mas para deixar a sua marca. Em tempos onde o cinema-entretenimento trás cenas em ritmo alucinante e tirando do espectador a mera possibilidade de "pensar o filme", O Errante está aí. Vá preparado para algo que escapa do comum. Ou então, nem vá.

O Errante: pessoas acostumadas com o "jeito Hollywood de ser" terão dificuldades de encarar o filme israelense.

Antes ou depois de "O Errante" (desculpem, não lembro mesmo), assisti ao filme "A Última Estação", que conta a biografia de Liev Tolstói. Como não poderia deixar de ser, o filme tem significativo viés filosófico, apoiado na mente iluminada daquele russo, que optou por um modo de vida baseado no voto de pobreza, no vegetarianismo e na castidade. É agradável o fluir do filme, mas senti que a história de Tolstói "não coube" na película de 112 minutos. Merece uma trilogia. E, se possível, com a mesma equipe que participou dessa obra.

A Última Estação: Christopher Plummer parece a própria encarnação de Tolstoi, em filme com sabor de quero mais.

domingo, 19 de setembro de 2010

Num Dia Te Pedem Crack, No Outro Te Sugerem Jesus

Saudações.

O título da postagem não tem qualquer intenção de gerar polêmica, apenas me pareceu como apropriado ao que brevemente mencionarei neste tópico. Não é um artigo, uma especulação, uma dissertação, nada disso. Somente a exposição de fatos que aconteceram comigo nos últimos dias. Então, desfrutemos desse "momento querido diário" haha...

Bem, dia 7 de setembro, terça-feira (feriado nacional, OK?), estava eu voltando para casa. Andando pela Lapa, vem até mim um sujeito forte, careca, dirigindo-se com educação etc e tal. Era uma figura ligeiramente sinistra, sobretudo se levarmos em consideração que a rua estava deserta.

Continuando. O sujeito vem até mim e eu ajo com absoluta naturalidade, cumprimentando-o (cheguei a pensar que poderia acontecer algo indesejável, mas - não pergunte-me como - mantive total serenidade). Não lembro exatamente o que eu estava vestindo, mas acho que era uma calça jeans, camisa de manga comprida e mochila nas costas. De resto, a barba largadona e essa cara que Deus me deu. Continuando (desculpe, a idéia de detalhar não é fugir do assunto, mas tentar contextualizar). Onde estava? Ah sim, na Lapa, continuando. Eis que vem o diálogo.

Sujeito: opa, tudo tranqüilo?
Eu: tudo na paz...
Sujeito: cara, desculpa te abordar assim, mas é que tô precisando de uma ajuda...
Eu: cara, tô só com o da passagem aqui...
[mochila nas costas, tava ciente que poderia dar algum caô, mas segui sereno]
Sujeito: não, cara. Não quero dinheiro, não.
Eu: então diz aí.
Sujeito: é o seguinte, vou pegar a estrada agora pra Volta Redonda. Mas, sabe como é que é [na verdade, não sei], tô precisando de umazinha... Tu sabe onde arrumo um crack?
[algo me dizia que o cara achava que eu carregava várias pedras na mochila]
Eu: cara, num sei não... de repente tu consegue ali atrás.
Sujeito: tem nada, tô vindo de lá...
Eu: num sei mesmo então... o que posso te desejar é que faça uma boa viagem e vá com Deus
[não disse exatamente isso, mas foi algo por aí]
Sujeito: valeu, desculpe qualquer coisa.
Eu: vai na paz.

Passam-se cerca de duas semanas até o dia de hoje. E, praticamente no mesmo local geográfico, por volta das 15:40h desse 19 de setembro, vem outro sujeito na minha direção. Tcharam!

Esse era de pele preta, falando um português relativamente distante da norma culta (desculpe a ponderação, é que fiz uma redação em concurso na parte da manhã e aí algumas coisas banais acabam chamando atenção). Acho que, numa fração de segundo, minha mente me transportou para o feriado da Independência, quando fui abordado pelo careca branco. Dessa vez, o assunto era outro.

O camarada segurava alguns livretinhos e uns papéizinhos retangulares e veio me falar sobre Jesus Cristo. Antes de falar a respeito do Mestre dos Mestres, o sujeito cumprimentou-me e pediu desculpas por qualquer incômodo, forçando ainda mais a lembrança do episódio supracitado. Dessa vez, nem cheguei a falar o "tô só com o da passagem". Deixei ele dizer. Bastou eu perguntar onde fica a Igreja "dele", que ele logou chamou um camarada que estava a poucos metros, dizendo: "ei, vem cá, o irmão aqui tá interessado!". E lá foi papo... Bem, não cheguei a prometer uma visita à instituição religiosa - até porque não tenho muita identificação com a Igreja Evangélica - mas foi agradabilíssimo falar de Jesus onde, dias atrás, vieram me pedir como usufruir do consumo de entorpecentes. Algo, no mínimo, curioso.

Uma pergunta que me faço é: será que tô com cara de drogado? Primeiro, o careca branco vem me pedir crack. Depois, "me apresentam" Jesus. Estava vestindo calça jeans, moleton e carregando a mesma mochila. Sem pedras, garanto.

Ah! O título do livretinho é "Perdão, Certeza E Paz". E o do folhetinho retangular (o qual li quando estava no ônibus) é "A boa semente da palavra de Deus quer encontrar uma terra boa no seu coração". Assim seja.

Abraços.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um Novo Caminho

Um Novo Caminho foi um dos filmes que estiveram no Festival de Cinema Francês, realizado em junho desse ano (veja esta e também esta postagem). Não rolou de assistí-lo na ocasião do festival, mas a sinopse e o visual do trêiler me convidaram a não desistir da empreitada e, ontem, tive a grata oportunidade de ver essa obra de Philippe Godeau.

Usando poucas palavras, cravo aqui que trata-se de um filmaço. A atuação de François Cluzet dispensa adjetivos e o filme flui no ritmo certo para passar a mensagem. E que mensagem! Deveriam disponibilizar uma cópia de Um Novo Caminho em cada bar desse planeta.

Um Novo Caminho

Direção: Philippe Godeau

Com: François Cluzet, Mélanie Thierry, Michel Vuillermoz

Título original: Le dernier pour la route

Drama - 1h47 - 2009
(Faixa etária 14 anos)

Hervé, dono de um agência de notícias, decide se livrar da dependência ao álcool. Longe de tudo e graças aos outros, consegue lutar e começar uma nova vida...

"Um filme profundamente humano (…) François Cluzet, sombrio, misterioso, tenso, irônico, deixa aflorar uma sensibilidade, uma dor, uma humildade comoventes" – Le Figaroscope.

Nosso Lar

O filme baseia-se na obra de Chico Xavier e homenageia, dignamente, o centenário de nascimento desse médium que dedicou toda a sua experiência humana em serviço do próximo. "Nosso Lar" é um dos 16 títulos desenvolvidos na parceria Chico-André Luiz e, obviamente, está vinculado à doutrina espírita. Seja você espírita, católico, budista, evangélico, Hare-Krishna, islâmico, candomblecista, ateísta ou o que quer que seja, recomendo que assista esta produção brasileira em cartaz nos cinemas desde sexta-feira.

Não é por uma questão de concordar ou discordar daquilo que é exposto, mas por se tratar de algo absolutamente plausível de ser observado. Imersos em tanta futilidade veiculada pela grande mídia, uma obra como "Nosso Lar" surge como um oásis no deserto e o fato de colocar em discussão valores espiritualistas (não necessariamente religiosos) já é algo louvável.

Para saber mais a respeito do filme, recomendo que acesse esta página. Mas o importante mesmo é que você não desencarne antes de assistí-lo. Parabéns ao diretor e roteirista Wagner de Assis e a todos os que participaram. Chico e André, onde quer que agora estejam, certamente sorriem.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Bom Descanso, Francisco Varallo!

Desde hoje, não há mais remanescentes vivos da final da Copa do Mundo de 1930. O argentino Francisco Varallo, mais jovem jogador a representar seu país naquela decisão vencida pelos uruguaios, desencarnou hoje, segundo informação de familiares e publicação de internet.

100 anos de idade, aos quais esse blógui prestou uma homenagem ao parabenizá-lo pelo aniversário centenário.

A quem interessar, clicando nos dois línquis dessa postagem pode-se ver um pouco da história de Varallo pelos gramados, segundo maior artilheiro da história do Boca Juniors.

Bom descanso, Francisco Varallo!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sobre O Debate Para Governador No Rio De Janeiro

No último parágrafo do tópico anterior havia dito a respeito do debate para o governo do estado fluminense, e cá estou para falar sucintamente sobre o que ocorreu no evento.

Da esquerda para a direita: Jeferson Moura (PSOL), Sérgio Cabral (PMDB), Sérgio Costa (mediador), Fernando Peregrino (PR) e Fernando Gabeira (PV).

Sérgio Cabral, candidato à reeleição, compareceu e foi atacado de todas as direções, tendo conseguido descolar dois direitos de resposta. Os questionamentos variavam, indo desde o fato de a primeira-dama Adriana Ancelmo ser advogada da SuperVia e do Metrô (empresas concessionárias de transporte público e alvo de seguidas críticas) até o caso de os cabos eleitorais de Cabral receberem o dobro de salário que professores da rede estadual (os militantes pagos pelo governador ganham R$1200 enquanto o piso na educação está em R$610).

Foi interessante observar que Cabral, na tentativa de se defender, acaba muitas vezes se complicando ainda mais: atacava o governo de Anthony e Rosinha Garotinho (hoje partidários de Fernando Peregrino) mas já foi a eles coligado, como lembrou o adversário do PR.

Um dos pontos altos do debate foi quando Jeferson Moura, do PSOL, chamou o "verde" Fernando Gabeira de "ex-Gabeira", estando atualmente assumindo uma posição que confronta a história política do candidato coligado ao DEM (!) e ao PSDB (!). Gabeira "se defendeu" dizendo que não é mais "um adolescente", como se estivesse arrependido das lutas que o caracterizaram. Disse também que não tem mais um "ideal socialista", pois tal fenômeno teria arruinado países como Cuba, Rússia e China (!). Jeferson Moura, na réplica, foi direto ao comentar a coligação de Gabeira: "antes só que mal acompanhado".

Quanto a propostas, pouco houve. O lado positivo é que a política educacional de Leonel Brizola, na década de 80, foi lembrada com carinho e colocada como meta por Jeferson Moura, a qual Fernandro Peregrino mostrou concordar.

Aguardemos, tem muita água pra rolar. E se propostas aparecerem, melhor.