quinta-feira, 21 de maio de 2015

Seletividade Penal: Arcanus Para Quem?

Arcanus é um termo latim que quer dizer "secreto", "misterioso". A Polícia Federal, que costuma escolher nomes extravagantes para suas empreitadas, apelidou de Operação Arcanus sua ação que privou de liberdade funcionários da ANVISA e da própria PF, supostamente envolvidos em crimes tipificados no Código Penal. Considerando que os policiais prenderam pessoas meramente suspeitas, isto é, sem possuir provas sobre a culpabilidade dos detidos, o nome que sugere Segredo e Mistério para a Operação Arcanus é absolutamente adequado.

Em nome do espetáculo midiático ou seja lá do que for, nesse exato momento tem pai de família honesto em cárcere do Estado. O mesmo Estado que faz vista grossa com corrupção ativa do alto escalão do governo.

Gozam liberdade aqueles cuja corrupção se flagra. Imunizados.

Aqueles contra os quais sequer há provas, a prisão se deflagra. Injustiçados.

Nunca pensei que fosse sentir com a força que sinto agora o quanto não somos iguais perante a lei. Que todas as vítimas de injustiça sejam amparadas. E que nós consigamos viver sem sermos injustos com ninguém. Do contrário, entraremos todos pelo (Ar)canus.
Enquanto você vê o porto do Rio de Janeiro (cenário da Operação Arcanus), um político nos furta em Brasília (por baixo dos panos).
 Operação Arcanus na mídia: Jornal do Brasil, O Dia, Manchete Online. Perceba como os textos se repetem e como ninguém se preocupa em verificar se há ou não há provas. A quem interessa tudo isso? Em tempos de enxugamento de contas públicas, convém desconfiar a forma como estão tratando esses agentes.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Análise Dos Sambas-Enredo Do Carnaval 2015 - Grupo Especial, Rio De Janeiro

12 agremiações, duas noites, milhões de espectadores. É o carnaval carioca se aproximando e trazendo com ele o maior espetáculo já produzido pela espécie humana: o desfile das escolas de samba.

Vamos aqui analisar as doze composições de 2015 (letra, melodia e algo mais).

Unidos da Tijuca. Seu enredo é a Suíça e seu desafio imenso: não será simples para a Tijuca desenvolver um carnaval na ausência do gênio Paulo Barros. A voz de Tinga, atual bicampeão com Vila-2013 e Tijuca-2014, fortalece um samba que não empolga. Mas que tem tudo para funcionar na avenida. Ou quase tudo.

Acadêmicos do Salgueiro. Culinária mineira é dose. Sem o Quinho, então... O Salgueiro foi a escola que mais despencou na qualidade de sua composição, deixando saudades do ótimo enredo Gaia. É possível que as coisas melhorem na Sapucaí, notadamente devido à força da bateria Furiosa e da comunidade salgueirense. Além, é claro, da plástica de Renato Lage. Aguardemos. De preferência, ouvindo o samba do ano passado.

Portela. Não basta ser portelense, precisa participar. Parece que o prefeito Eduardo Paes está levando esse pensamento a sério. Desde que se tornou o manda-chuva da cidade, a Portela não cansou de falar do Rio de Janeiro. Em 2015, de novo e novamente mais uma vez. Wantuir e Wander são dois intérpretes de alto nível e o samba tem tudo para levantar poeira. Já estou até tossindo.

União da Ilha do Governador. Irreverência é a síntese e a essência de um samba descontraído e que dá o seu recado. Lembra o enredo "Fama", apresentado pelo Salgueiro em 2013. Com a voz do inconfundível Ito Melodia, a bateria do prestigiado Ciça e a concepção do talentoso Alex de Souza, a agremiação insulana tem tudo para proporcionar ótimos momentos na Sapucaí.

Imperatriz Leopoldinense. É o samba da emoção. O casamento da letra e da melodia beirou a perfeição, cabendo elogios aos compositores e ao intérprete Nêgo. O desafio é conseguir no tom poético e introspectivo da canção alcançar a energia necessária para agitar os componentes de uma escola tachada como "fria".

Acadêmicos do Grande Rio. O título é péssimo, fazendo alusão proposital a um palavrão. Só por isso, entendo já caber uma penalização. A composição em si possui passagens interessantes e um andamento melódico viciante. As repetições das rimas "ar" e "er" na estrofe que antecede o refrão principal tornam o trecho cansativo. Acredito que a grande aposta da escola resida na parte visual, pois o enredo é de fácil entendimento e o carnavalesco conseguiu fazer de Maricá um quase-paraíso em 2014.

Beija-Flor de Nilópolis. Depois de exaltar farsas como Roberto Carlos e Boninho (na primeira teve a complacência dos jurados e na segunda, não), a Beija-Flor vem com um enredo com mais cara de Beija-Flor: África. Neguinho da Beija-Flor, um patrimônio do carnaval, fez interpretação magistral: ele consegue cantar o mesmo tema na mesma entonação sem se tornar necessariamente repetitivo. "Negro canta, negro clama liberdade". A sensação é de que já ouvi isso antes. Mas, vá lá, antes repetir a exaltação à africanidade do que homenagens a marionetes da ditadura. Salve Guiné!

Estação Primeira de Mangueira. É o samba do ano. Os refrões carregam a cara e o DNA da Mangueira. Gostoso de ouvir, fácil de memorizar, prazeroso de cantar. Mulher brasileira em primeiro lugar! Só espero que não gere conotações xenófobas ou sexistas, porque pra quem curte uma polêmica, dá pra encontrar terreno fértil nesse trecho. Sugiro colocar isso de lado e deixar a Mangueira passar.

Mocidade Independente de Padre Miguel. Simples e direto, o samba da Mocidade é um prato cheio para as surpresas do inventivo Paulo Barros. Eu já fico viajando se o genial carnavalesco não vai inovar numa interação entre a ala das baianas e a bateria... Roda baiana, cai nesta folia! De verde e branco com a bateria! Que o mundo não acabe antes do desfile da Mocidade. Ironicamente, a escola que foi campeã pela última vez com a voz de Wander Pires, entregou ao Bruno Ribas (campeão com Paulo Barros) os dizeres "a hora é essa", logo após o refrão. Para quem acredita em superstição...

Unidos de Vila Isabel. Mais uma vez, a Vila traz para a Sapucaí um dos melhores sambas do ano. A letra é inteligente e o andamento é gostoso de cantar, mas talvez vacile pelo fato de não apresentar "quebras melódicas", isto é, não rola aquele suingado. De toda forma, é fato que quem nasce lá na Vila nem sequer vacila, ainda mais com a Swingueira de Noel na área. Se a dignidade volta pro ninho, é o momento certo para a comunidade de Isaac, Noel e Martinho cantar com força o samba esse ano. Com mais força do que o que se (ou)viu no primeiro ensaio de 2015.

São Clemente. A aurinegra de Botafogo trocou sua marca registrada - a irreverência - pela emoção. O enredo em homenagem a Fernando Pamplona, assinado por ninguém menos que Rosa Magalhães, chega a parecer uma declaração de amor. Se a escola (leia-se a comunidade clementiana) conseguir agitar o sambódromo mesmo tendo um samba sem explosão e sendo a primeira a desfilar na segunda-feira, o resto está em ótimas mãos: basta contar o número de carnavais conquistados por Fernando ou Rosa (ele é tetra e ela é hepta).

Unidos do Viradouro. Confesso ter dificuldades para analisar esse samba. Vejo nele qualidades e potencialidades permeadas por um ar de "tá faltando alguma coisa". É pouca coisa, acho. Até porque a letra tem beleza. Mas falta algo, principalmente por se tratar de uma escola com a incumbência de abrir os desfiles, uma posição historicamente ingrata no carnaval carioca (e isso é muito mais culpa dos jurados do que qualquer outra coisa). Torcendo para que esse algo que talvez esteja faltando apareça na Sapucaí, com a energia de uma comunidade que voltou ao seu lugar.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Rock In Rio Card...íaco

Com toda a publicidade pesada em torno das vendas do cartão que dá acesso ao Rock In Rio 2015, é óbvio que era esperada uma grande demanda por ingressos na manhã dessa quarta-feira. Só que não houve uma operação à altura por parte dos organizadores do megaevento a fim de atender o usuário.

Acessei a página oficial às 10h (horário de início da comercialização do cartão) e simplesmente fiquei sem atendimento até 11h30, momento em que saí para almoçar.

Às 12h30, novo acesso ao sítio fornecido e... nada. Foram mais trinta minutos de espera.

Amante do rock, tentei novamente às 14h. Apenas por volta de 15h30, consegui avançar da tela de espera para a tela de compra. Contente com a iminência do sucesso nessa empreitada de mais de cinco horas, tive a decepção de receber a mensagem de que aquela sessão havia expirado - uma notificação que somente ocorreu após preenchidas todas as etapas solicitadas, isto é, no final dos finalmentes.

Consegui adquirir o Rock In Rio Card em 2011 e também em 2013. Em 2015, fui novamente pontual. Porém, traído pelo sistema. Curiosamente, a página oficial do Rock In Rio informa que as vendas foram concluídas em uma hora e quarenta minutos. Então como foi possível acessar a tela de compra cinco horas após o início das vendas? Seria aquela uma tela fake?

Enfim, decepcionante.

Haverá novas vendas em abril. A carga de ingressos? Deve ser o que sobrar das remessas aos patrocinadores e aos "escolhidos". Já estavam à venda muitos Rock In Rio Card antes mesmo do horário de venda. Só não vê quem está com os olhos vendados.

P.S.: não adianta fazer comercial hollywoodiano na televisão e deixar o cliente na mão.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Roberto Carlos E Friboi - São Tantas Violações...

A liberdade talvez seja o direito mais básico daqueles que lutam por ela. Impedir alguém de ser livre é matá-lo em vida.

Roberto Carlos, ao saudar Augusto Pinochet durante a ditadura militar, mostrou-se absolutamente indiferente à liberdade daquelas pessoas oprimidas por um regime que violou sistematicamente os direitos humanos mais básicos.

O grupo JBS-Friboi, ao explorar, confinar, engordar, torturar, mutilar, matar, embalar e vender seres sensíveis, mostra-se absolutamente indiferente à liberdade daquelas criaturas oprimidas por um padrão de produção e consumo que viola sistematicamente os direitos animais mais básicos.

A ditadura de Pinochet já se foi. Os matadouros da Friboi estão na ativa, batendo recordes de abates no Brasil e no mundo, enchendo piscinas de sangue inocente diariamente.

Hoje, veiculou a notícia de que Roberto Carlos e Friboi romperam o contrato firmado. Contrato esse onde a pessoa física pró-ditadura era garoto-propaganda da pessoa jurídica pró-massacre. Ao meu ver, Roberto e JBS têm muito em comum. Felizes aqueles que boicotam ambos.

Enquanto isso, no holocausto permanente, sofre o boi.


Vídeo de Roberto Carlos saudando Augusto Pinochet:


Imagem onde sofre o boi:

Indicação de filme para saber mais sobre as indústrias de animais para consumo:

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Banco Itaú Descobriu Meu Número De Telefone

Estava eu, tranqüilo e calmo, usufruindo o horário de almoço num ambiente agradável nas dependências do IBAMA. Lendo um livro, rodeado de árvores. Eis que, não mais que de repente, toca o telefone. Número: 08199756191. Não sei quem é nem de onde seja. O livro que eu lia cutucava as feridas do capitalismo (feridas que o neoliberal convicto na sua fé cega considera virtudes do sistema). Pausa na leitura, atendo a criatura.

- Alô.
- Alô, por favor, o senhor Eduardo?
- É ele.
- Senhor Eduardo, boa tarde, eu falo em nome do banco Itaú.
- Boa tarde, senhora. Pois não. (Mais um pouco e eu perguntaria no megablaster nível da ironia "em que posso ajudar?" haha...)
- Senhor Eduardo, por segurança essa conversa está sendo gravada, eu tenho para você uma ótima oportunidade de um cartão TudoAzul Itaucard com benefícios exclusivos para você.
- Não tenho interesse, obrigado.
- Poderia me dizer por que não está interessado, senhor Eduardo?
- Sim. É que não gosto, não tenho qualquer afinidade com o banco Itaú e prefiro não me associar a esse grupo de nenhuma maneira.
- Obrigado, senhor Eduardo. Tenha um bom dia.
- Obrigado. Boa tarde, senhora.


Importante: todo o tom do diálogo foi de respeito mútuo.

Separar a corporação nociva da funcionária explorada é uma arte. É claro que uma corporação como o Itaú não é digna de um tratamento respeitoso (basta ver como trata seus funcionários e como realiza seus negócios), mas a menina que me atendeu é vítima. Sequer sei o nome dela (acho que ela não chegou a dizer, cumprimentando com um "eu falo em nome do banco Itaú"). Mas eu seria um tremendo hipócrita comigo mesmo se dissesse que não quero o cartão deste banco porque já tenho outro. Não! Não quero por causa do Itaú ser o Itaú! E a sábia funcionária, lá no fundo, deve ter gostado da recusa. O simples fato de não ter perguntado meus motivos pela aversão à instituição bancária que paga seus ordenados denota que ela também deve ter suas queixas em relação ao patrão.
Ah! O livro que tô lendo é esse aí da foto. Recomendo! (O livro, não o banco!)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

4.348.950!

Quatro milhões, trezentos e quarenta e oito mil, novecentos e cinqüenta!

Esse é o número que marcou as eleições no Rio de Janeiro. Marcou silenciosamente, porque as forças midiáticas deram pouca ou nenhuma atenção ao fato histórico. E, tenhamos certeza, deram pouca ou nenhuma atenção ao fato histórico não porque o julgam irrelevante. Ao contrário: a grandeza do acontecimento assusta os acomodados. Como assustaram as manifestações de junho de 2013. Resta saber até quando conseguirão esconder a verdadeira vitória eleitoral no Rio: votos em branco, votos anulados e abstenções foram maiores que os votos em Luiz Fernando Pezão.

Surgem, imponentes, algumas perguntas: qual a representatividade de um governo que nasce da escolha de uma minoria? Qual a legitimidade desse representante? Até que ponto um processo que ignora a voz da maioria pode ser considerado efetivamente uma democracia?

Mais do que a questão estritamente matemática de que 4348950 é maior que 4343298, essa vitória da negação a Crivella e Pezão demonstrou, nas urnas eletrônicas, que ainda ecoam os gritos entoados nas calçadas, praças, ruas e avenidas do Rio de Janeiro. Os milhões de manifestantes e os milhões de eleitores têm em comum a lucidez de identificarem quem não os representa. Falta à legislação eleitoral a sensibilidade de validar esses anseios e refazer - com outros candidatos - todo e qualquer pleito com resultados como esse. Seria, pelo menos, democrático.

Propagandas para votar em Pezão ou Crivella preencheram sistemas de rádio, internet e televisão. Estavam também em jornais, revistas e panfletos. Invadiram casas, condomínios e guetos. Era a "livre" escolha do eleitor por um ou por outro. Só que a liberdade, sem aspas nem manipulações, se fez de fato presente no último domingo de outubro de 2014. Não queremos um nem outro! Esse grito, legítimo, não ressoou nos meios de comunicação. Algo que reforça o teor da vitória, casando com aquela máxima de que a revolução não será televisionada (pelo menos não numa mídia antidemocrática). E se alguém ousar dizer que o Rio escolheu Pezão, lembre a esse alguém que a escolha da população se concentrou em branco, nulo e abstenção. A negação é a vencedora dessa eleição. O vacilo é dar ao 2º colocado o poder de governar. Não nos representa.







domingo, 17 de agosto de 2014

Renovação Em Alto Paraíso


Domingo passado vivenciei algo marcante. Algo que começou no sábado, quando viajamos mamãe, irmã e eu para Alto Paraíso de Goiás. Essa cidadezinha pertencente à Chapada dos Veadeiros tem todo um astral especial. É em Alto Paraíso que está situado o ponto mais alto do Planalto Central, estimado em 1691 metros. Ou seja, o nome da cidade é correto por ambos adjetivos.

A viagem para lá no último final-de-semana foi a nossa primeira conjuntamente, e certamente outras virão. Se Deus quiser, virão! Ar bom de se respirar, lugar bom de se caminhar, cachoeira capaz de até a alma lavar... Enfim, vale visitar.

Mas o que aqui quero compartilhar transcende essa dimensão paradisíaca da localidade a nordeste no estado de Goiás. Trata-se de um fato envolvendo uma perda provisória que se transformou em um ganho definitivo. Eis a história.

No sábado, por volta das três da tarde, chegamos à cachoeira dos Cristais. Conseguimos carona com nosso primo, numa daquelas sincronias incríveis da vida: tão logo desembarcamos na rodoviária, caminhamos até um restaurante que anunciava comida vegana e, enquanto iniciávamos o contato com funcionários no convidativo estabelecimento gastronômico, nosso primo passou de carro com o padrinho de mamãe. Se tivéssemos marcado previamente, duvido que acontecesse de maneira tão precisa. E lá fomos nós deixar bagagens na pousada para de lá partirmos para a supracitada cachoeira.

Depois de caminhar, mergulhar e saborear - física e espiritualmente - as maravilhas do lugar, voltamos para casa. Digo, para a pousada onde ficamos hospedados. Somente lá, já à noite, demos falta de um objeto. Era a pochete de mamãe, contendo dinheiro (cerca de R$300), celular, documentos e algo mais. Documentos que, se não recuperados, impediriam a viagem de volta (a de Alto Paraíso para Brasília, de ônibus, e a de Brasília para o Rio de Janeiro, de avião).

Entramos em contato com o "proprietário" das cachoeiras (nossa, como é difícil escrever uma frase como essa... uma paisagem naturalmente concedida jamais deveria ser propriedade de alguém!). Ele disse que, antes da abertura do local para visitação (marcado para às 8h), iria procurar pela pochete. Fomos dormir preocupados, mas de alguma maneira confiantes de que na manhã seguinte receberíamos uma boa notícia. Como o local tinha diversas cachoeiras, foi primordial identificar nas fotos em que lugar a pochete havia sumido, até para facilitar a procura. Segundo nossa pesquisa na máquina fotográfica, estaria no "Espaço Zen". Então, vamos tentar ficar nesse estado, em sintonia com o nome do lugar... Tudo vai dar certo...

Na manhã seguinte, o rapaz disse, por telefone, que não poderia descer até a cachoeira pois naquele domingo não havia funcionários para ficarem na lanchonete (local de recepção dos visitantes) enquanto ele fosse fazer a busca. A partir dali, iniciamos os procedimentos para sair da pousada em direção à cachoeira. Para não incomodar a manhã dominical de nossos primos, fomos "de táxi" (entre aspas pois não era exatamente um táxi, mas uma espécie de carona paga), cujo motorista e filho de dois anos e cinco meses eram duas figuras simpáticas.

Chegando lá, desci na frente. Mamãe e irmã realizavam registros fotográficos do caminho enquanto fui aceleradamente na expectativa de sair do Espaço Zen dizendo amém. Hare Krishna Hare Krishna / Krishna Krishna Hare Hare / Hare Rama Hare Rama / Rama Rama Hare Hare. Era o mahamantra na mente e aquela belíssima paisagem nos olhos.

Chegando na cachoeira do Espaço Zen, encontrei aquela beleza já vislumbrada na tarde anterior. Com uma iluminação diferente, pois agora aquele ambiente era banhado pelo sol matutino. Mas nada da pochete. Infelizmente, nem sinal dela. Alguns minutos depois, ainda ali, por alguma razão misteriosa eu simplesmente me recusava a sair. Razão que a razão não explica. Até que chegou uma senhora, sorridente, indo dar um mergulho. Acho que a cumprimentei com um "bom dia". Acho que ela respondeu reciprocamente. Perdoem-me não lembrar os detalhes, adoraria relatar cada vírgula com exatidão. Segundos depois da chegada da senhora, apareceu um senhor que a acompanhava. Com um astral leve, como se sempre tivesse boas notícias. O cumprimentei. E ele, vendo-me olhando ao redor praticamente sem sair do lugar, me perguntou se eu estava procurando alguma coisa.

- Estou... É uma pochete, que na verdade nem é minha, mas de minha mãe... Perdemos ontem nessa cachoeira e viemos hoje tentar procurar... Só que não achei...

Então, tal qual um anjo anunciando uma boa nova, o senhor declarou:

- E se eu te dissesse que achei essa pochete?

A partir daí, a manhã de domingo foi transformada. A pochete estava com ele, intacta. Disse ter pego com a intenção de posteriormente procurar o dono pela agenda de celular, o que seria mais seguro do que deixar lá.

Olha só como são as coisas... Saímos da pousada para a cachoeira com pressa para sermos os primeiros a localizar a pochete. Não fomos. Por sorte, ou melhor, por bênção, quem a pegou foi um anjo disfarçado de gente. "Nem sei como te agradecer", disse para ele. E não sabia mesmo. Como não sei até hoje. Como provavelmente jamais saberei. Talvez seja para situações assim que existe a palavra "obrigado". E minha gratidão não cabe em um vocábulo.

Ali, no Espaço Zen, renovei minha fé na humanidade.

sábado, 26 de julho de 2014

Atenção! Na "Gol", Feirão E Promoção Rimam Com Enganação

Visando vender passagens nesse final-de-semana, a companhia aérea "Gol" abriu uma divulgação que pode ser vista da seguinte maneira em sua página oficial na internet.
Imagem da página inicial de companhia aérea, anunciando "Super feirão Gol só neste fim de semana".
Esse "super feirão" foi iniciado na noite de sexta-feira. Nas primeiras horas, fui dar uma checada na esperança de descolar uma boa decolagem. Teria várias chances, pois estava acessando pouco tempo após a abertura da "promoção" e o período do vôo, segundo a empresa, era entre 01.08.2014 e 31.10.2014. Certamente encontrarei algo interessante!, pensei comigo mesmo. Pura inocência.

Então, vamos aos fatos.

[1] Os preços das passagens de ida estavam superestimados, como se o valor cobrado nas passagens de volta (no melhor dos casos R$39) tivesse sido deslocado para o primeiro trecho. E como a venda é casada, isto é, obriga a compra da ida junto com a volta, o supostamente promocional valor da volta torna-se enganoso.

[2] As configurações dos vôos de volta são estarrecedoras. Se você quer sair de sua cidade numa sexta-feira após o expediente, encontrará diversas opções para pagar um valor mais alto que o normal - afinal, essa é a passagem de ida da enganação, ops!, "promoção" (aspas obrigatórias). Mas para voltar para a cidade onde você reside na manhã de segunda-feira, isto é, após aproveitar o final-de-semana com sua família ou com quer que seja, você simplesmente não encontra um único vôo direto pelo propagandeado valor de trinta e nove reais. Nenhum! Somente vôos em horários inviáveis e com pelo menos uma parada, jamais direto.

[3] Comparando as opções entre as diferentes companhias através de uma página de pesquisa de preços de passagens aéreas (utilizei o "ViajaNet", mas há também a "Decolar", entre outras), em nenhuma das simulações pesquisadas foi encontrada vantagem em emitir passagens pela "Gol". Posso exemplificar.

[3.1] Partindo na noite de sexta 15.08 e voltando na manhã de segunda 18.08. Melhor opção: Azul.
[3.2] Partindo na noite de sexta 05.09 e voltando na manhã de segunda 08.09. Melhor opção: Avianca. Segunda melhor opção, com diferença de quatro reais e trocando o aeroporto Santos Dumont pelo Galeão: Tam.
[3.3] Partindo na noite de sexta 12.09 e voltando na manhã de segunda 15.09. Melhor opção: Avianca. Segunda melhor opção, com diferença de 50 reais e retornando 3 horas mais cedo: Avianca.
[3.4] Partindo na noite de sexta 19.09 e voltando na manhã de segunda 22.09. Melhor opção: Avianca.

Então chega aquele momento que você cansa de pesquisar, já constatando que a "promoção" do "super feirão" rima com enganação (agora não precisa de aspas, grifo nosso).

Vamos então compartilhar essa informação, coisa que faço agora nesse blógui e que já fizera na própria noite de sexta-feira pelo Tuíter. A companhia aérea respondeu uma das tuitadas (a que segue abaixo incorporada). E as respostas da "Gol" são tão verdadeiras quanto sua "promoção". Se quiser acompanhar, eis o histórico: https://twitter.com/edurhcp/status/492852347245457408

Nesse momento, não cheguei a uma conclusão
Do que seria mais grave em toda essa situação
Se é aquilo que a "Gol" chama de promoção
Dizendo se tratar de um super feirão
Ou se é a posterior argumentação
Que não reconhece que o consumidor está com a razão
Se mostrando uma empresa perfeitamente encaixada com a réchi tégui #enganação. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Que A Paz Seja O Meio Em Qualquer Ambiente

Lá se vai mais de um ano sem postar nada nesse blógui, recorde absoluto desde o momento em que foi criado. Não que o blogueiro se orgulhe disso, mas depois de passado algum tempo sem atualizações, veio o pensamento de que algo especial deveria marcar o retorno às atividades por aqui. Daí foi escolhida a data de hoje: cinco de junho. Neste dia celebra-se pelo mundo o Dia Do Meio (ou Dia Do Ambiente, ou, sendo redundante, Dia Do Meio Ambiente). Foi nessa data, só que no ano passado, que tomei posse como analista ambiental no Ministério do Meio Ambiente. Uma felicíssima coincidência essa questão da data, só que também uma mudança significativa no meu dia-a-dia, pois pela primeira vez passei a morar fora do Rio de Janeiro e longe da família. A adaptação à Brasília, apesar de secas climáticas e ausência de praia, foi tranqüila. Difícil mesmo é estar longe das pessoas que amamos. Quer dizer, uma distância meramente geográfica, pois onde há reciprocidade no amor, a proximidade é automática.

Recordando o 05.06.2013, lembro da aventura que foi tomar a posse no MMA. O vôo naquela manhã de quarta-feira, marcado para às 6h e com previsão de chegada por volta das 8h, teve um atraso inesperado e cheguei a comprar uma nova passagem numa outra companhia apenas para tentar garantir a chegada em Brasília em tempo hábil de efetuar os procedimentos para assumir o cargo. Entre idas e vindas, me vi correndo pelo aeroporto segurando o cinto numa mão e a calça na outra, parecendo qualquer coisa - exceto um cidadão dito civilizado. Também pudera: às 10h38 o painel informou que o avião sairia às 10h45, quando instantes antes a previsão era de um atraso de pelo menos duas horas (o aeroporto encontrava-se fechado devido às condições meteorológicas). Tão logo vi a informação do "última chamada", corri atrás de mamãe e lá fomos nós, literalmente correr contra o tempo para sair de lá voando. No final das contas, deu pra fazer tudo e ainda tive a felicidade de mamãe escolher um apê na capital federal que caiu como uma luva em todos os sentidos, local de onde digito essa postagem nesse presente momento.

Um ano que se passa. Olhando para o passado mais recente, a noite de ontem foi fantástica: tive a oportunidade de assistir a palestra de lançamento do livro Por Que Amamos Cães, Comemos Porcos E Vestimos Vacas, de Melanie Joy, que pisou pelo primeira vez no Brasil nesse 04.06.2014. Fascinante a maneira que a estadunidense conduziu a palestra, tenho convicção que foram lançadas sementes de germinação instantânea naquele auditório lotado de jovens, em pleno Instituto de Biologia na Universidade de Brasília. Uma noite que teve ainda degustação vegetariana pós-palestra. E que só não foi perfeita porque meus amores encontram-se a mais de mil quilômetros de distância - geográfica, pois os corações estão constantemente conectados.

Então é isso... Se puder deixar uma mensagem nesse Dia Do Meio (Ambiente), diria o seguinte: tudo o que você resolver fazer pelo ambiente, faça não pensando nele, mas pensando naqueles que vivem nele. Todas as formas de vida merecem respeito, e respeitar o meio é respeitar as formas de vida. Se o ambiente tivesse a capacidade de sentir dor e sofrer, eu diria que o fim é zelar pelo meio. Só que a capacidade de sentir dor e sofrer é experienciada por animais - humanos e não humanos. Portanto, empenhemo-nos em poupá-los de qualquer dor e sofrimento. Uma dessas maneiras é cuidando do ambiente. Cuidado que perderia o sentido se estivesse desconectado dos sujeitos que merecem esse cuidado: os seres sencientes. Não os coma. Não os vista. Não os use. Liberte-os. Assim, estaremos construindo um ambiente de paz e justiça, com princípio, meio e final feliz.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Festival De Cinema Francês 2013

Já virou tradição este blogueiro assistir e comentar sobre o Festival de Cinema Francês. Ano após ano, desde 2010, o público brasileiro foi agraciado com ótimas seleções da recente filmografia francesa, podendo desfrutar de obras de altíssimo nível. E dessa vez não foi diferente. A grande maioria dos filmes assistidos entram, no mínimo, na lista dos recomendados. E não são poucos os que merecem o rótulo de imperdíveis.

Infelizmente, porém, esse ano o festival teve um acúmulo de inconvenientes jamais visto antes na história desse evento anual. Filme cortado (sim, cortado, com sequências inteiras não aparecendo, fragmentando abruptamente a obra), filme dessincronizado entre áudio e imagem (palavras do próprio diretor, que compareceu na sessão), sessões praticamente vazias com a ilustre presença dos artistas (testemunhei isso noutros anos e o cenário se repete) e artistas que não compareceram (incluindo a garota-propaganda do festival). De quebra, o Rio de Janeiro, que ano passado teve duas semanas de exibições e ainda uma bela repescagem, dessa vez não contou com mais que uma semaninha em cartaz. Nem assistindo dois filmes por dia o cinéfilo conseguiria dar conta das quinze obras disponíveis. Enfim, muitos erros cometidos mas, mesmo assim, aquele sabor de quero mais. Quero mais tempo, quero mais respeito, essas coisas.
  
Há também tópicos sobre as edições de 2010 (este e mais este), 2011 e 2012 do Festival.

Renoir
Confesso ser um completo ignorante sobre a vida de Pierre-Auguste Renoir. E como o filme dirigido por Gilles Bourdos aborda um curto espaço temporal do artista, além do azar de ter assistido uma exibição defeituosa (com cenas e sequências que não foram apresentadas no cinema Odeon Petrobras), teoricamente seria um ingresso jogado no lixo. Só que não. A delicadeza da filmagem, a exuberante fotografia, a atuação magistral de Michel Bouquet (87 anos de idade e uma performance tão precisa que parece que ele e o pintor são uma pessoa só), além da beleza estonteante de Christa Theret (a musa do artista) são ingredientes que engrandecem esse belo filme. Pretendo assistir novamente, pois se já foi emocionante acompanhar a história entrecortada por problemas técnicos, creio que vê-la na íntegra será ainda melhor. Também teria sido ainda melhor se os artistas convidados tivessem comparecido, embora eles merecessem uma sala lotada e uma exibição correta.

Adeus, Minha Rainha
Uma ousada reconstrução dos últimos dias de Maria Antonieta no trono, sob uma ótica que jamais tinha visto na história da retratação da Tomada da Bastilha. O diretor Benoît Jacquot conseguiu fazer uma sólida narrativa que colocou a leitora da rainha (a belíssima Léa Seydoux) como protagonista numa obra que polemiza ao supôr uma relação homoafetiva entre Maria Antonieta (Diane Kruger) e sua grande amiga Gabrielle de Polignac (Virginie Ledoyen). Além de ser um retrato de época muito bem realizado e proporcionar uma forte mensagem sobre o conceito de fidelidade, o filme também vale pela beleza feminina daquelas três. Um final capaz de arrancar lágrimas, um trio capaz de arrancar suspiros.

Anos Incríveis

Com um ótimo tempo de comédia, Michel Leclerc foi muito feliz ao tratar de temáticas polêmicas permeadas pelo bom humor. A história corre com um dinamismo marcante, com ótimas sacadas que vão ajudando a manter o filme interessante, embora possam haver algumas cenas desnecessárias. As críticas à sociedade capitalista e à mídia golpista não eliminam uma reflexão sobre os ideais revolucionários socialistas, onde a grande conexão entre uma coisa e outra é cada risada que é proporcionada ao espectador. Comédia com cê maiúsculo mesmo. Achei particularmente muito bacana rever a atriz Maiwenn, que esteve ótima em Polissia (Festival de Cinema Francês 2012) fazendo uma personagem também ativista pelos direitos humanos, mas com uma personalidade um tanto distinta desta em Anos Incríveis. Ah! Fica comprovado que a combinação Michel Leclerc + Sara Forestier + Revolução = boa comédia. Palavras de quem assistiu Os Nomes Do Amor (Festival de Cinema Francês 2011).

Camille Claudel 1915

Filmaço. Os elogios feitos ao diretor Bruno Dumont após assistir Hadewijch mostram que o blogueiro não estava sendo precipitado: é, sim, um dos grandes diretores do cinema atual. O andamento lento do filme é na medida certa para retratar o drama de Camille Claudel (na pele da ótima Juliette Binoche). Há na obra uma virtude louvável de passar mensagens e reflexões com tamanho vigor e sutileza que é como se não pudéssemos escapar à nossa própria consciência - mérito de todos os envolvidos com direção, roteiro, fotografia, atuação etc. A cena final com as legendas retratando a biografia do que aconteceria com a protagonista é alguma coisa arrebatadora, de fazer reduzir o estoque líquido armazenado no aparelho lacrimal. De novo: filmaço.

O Homem Que Ri
De uma sacada genial os perfis dos três personagens que conduzem o filme. Do homem de semblante amargo mas que parece sempre sorrir (vivido por Marc-André Grondin) à mulher cega mas que tudo parece enxergar (Christa Theret, aquela que faz a musa de Renoir), passando pelo filósofo encarnado por Gérard Depardieu, são muitos os elementos que colocam em xeque as sociedades humanas, não faltando argumentos para questionar a ética monárquica, cristã e a própria conduta individual. Muitas vezes caminha para o clichê, mas mensagens dessa natureza são sempre bem-vindas, assim como este filme dirigido por Jean-Pierre Améris também o é. Diria que a obra completa é muito melhor do que o trêiler pode sugerir (e olha que assisti ele umas três vezes).

Aconteceu Em Saint-Tropez

Para quem gosta de um filme onde simplesmente não há como definir onde começa e onde termina a tríplice fronteira entre o drama, a comédia e o romance, eis uma obra cinematográfica daquelas imperdíveis. O conflito familiar em torno de dois irmãos cheios de diferenças consegue conciliar o que muitos suporiam impossível, com a capacidade de preencher até o supostamente trágico com altas possibilidades de risadas. Falando em risada, o pai dos irmãos protagonistas é a garantia certa. E pra quem identificar a semelhança física dele com o Roberto Carlos (aquele indivíduo que comete algumas canções), as coisas podem ficar ainda mais cômicas. E pra quem acredita que tudo está bem quando termina bem, o negócio é relaxar e curtir o muito bem dirigido filme de Danièle Thompson.

O Menino Da Floresta

Os brutos também amam. Esta frase talvez seja a síntese da animação dirigida por Jean-Christophe Dessaint. Para o público acostumado aos filmes produzidos pelos estúdios Pixar, é possível que O Menino Da Floresta pareça superficial demais. Mas acredito haver neste filme muito mais coisa oculta do que propriamente explícita. A amizade construída entre o pequeno selvagem e a simpática Manon, além de reflexões em torno do quanto a nossa personalidade é moldada pela forma como somos educados por nossos pais (e como há momentos em que a desobediência é a única alternativa ética) são alguns dos ingredientes que compõem um filme que tem na simplicidade da leitura uma de suas maiores virtudes.

Prenda-me
Diferente de tudo o que já vi, essa foi provavelmente a história mais genial (ou, pelo menos, original) que assisti no Festival de Cinema Francês 2013. E a genialidade (ou, pelo menos, originalidade) gira em torno de algo relativamente simples, só que absolutamente incomum: a autora de um dito crime perfeito resolve assumir, anos depois, a autoria do assassinato do seu marido (até então visto como suicida). Mas o que torna esse filme imperdível transcende esse ato em si, pois o grande barato está em observar as nuances que levam a mãe de família à delegacia e a delegada ao perdão. Destaque também para a técnica de filmagem onde a câmera filma em primeira pessoa, fazendo o espectador enxergar com os olhos da protagonista (grande sacada!). Conceitos de liberdade e prisão transitam filosoficamente de maneira a repensarmos o que é, em essência, estar livre. Sophie Marceau e Miou-Miou estão ótimas em seus papéis, mas talvez nem precisassem: Jean Paul-Lilienfeld dirige algo tão brilhante que é como se a história em si já se bastasse. Mas vá lá, as duas estão realmente muito bem (sem esquecer do altamente convincente Marc Barbé). E você não pode deixar de assistir. Do contrário, estará preso.

Ferrugem E Osso
Aquele que teve a oportunidade de assistir o pesadíssimo O Profeta e associou o filme ao nome do diretor já deve ter ido ao cinema "preparado" para acompanhar o mais novo filme de Jacques Audiard. Pesado, de novo. Talvez não tanto quanto aquele, mas, como bem definiu minha mãe: visceral (e olha que ela só assistiu o anterior, mostrando que tem os dez dedos do diretor nessa arte de fazer filmes marcantes). A personalidade de Ali (Matthias Schoenaerts, absolutamente excepcional) e a química dele com os demais personagens (sobretudo a Stéphanie vivida magistralmente por Marion Cotillard) é uma coisa de louco. E, assim sendo, muito se deve às ótimas atuações destes e de todo o elenco em geral. Só que faço questão de exaltar também o genial Audiard, que dirige, produz e faz o roteiro de maneira a beirar a perfeição. Com intensidade e sensibilidade até dizer chega, Ferrugem E Osso é um filme para ficar para sempre na memória. E a cena do pai querendo salvar o filho no gelo me dá arrepios só de digitar... Assista. Mas vá "preparado".

quarta-feira, 17 de abril de 2013

513 Anos Depois...

Inédito. Como diria o outro, nunca antes na história desse país um grupo de indigenistas adentrou o Congresso Nacional, encarando a ordem estabelecida institucionalmente e reivindicando os seus direitos constitucionais, para espanto e surpresa de amedrontados deputados.

Brasília. Construída estrategicamente para sediar a capital da República Federativa do Brasil, afastando geograficamente os governantes do grande contingente populacional. O Congresso, inacessível que só ele, recebeu ontem ilustríssimos visitantes em seu plenário.

Estranhos. Mas que visitantes são esses? Não usam ternos nem gravatas. Cobrem pouco o corpo e estão demasiadamente coloridos para os padrões desta Casa. O que querem fazer aqui? O Estado Democrático de Direito não pode tolerar esse tipo de situação.

Direitos. Aqueles indivíduos ali presentes estavam reivindicando direitos que foram conquistados após séculos de dizimação e opressão, seja por colonizadores europeus, seja por engravatados eleitos. Um grito pacífico de indigenistas contra a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 215.

Pecado. Essa PEC é um pecado. Mortal. Quer dar (mais) poderes ao Congresso Nacional, retirando da FUNAI a incumbência da demarcação das terras indigenistas. E se as coisas caminham muito mal nas supostas mãos da Fundação Nacional do Índio, imagine sob domínio da bancada ruralista!

Revoga, revoga! Basta de afrontar os direitos dos verdadeiros donos dessa terra. Não são estranhos, são e somos nós, nosso sangue. E se há alguma barbárie ou selvageria nos tempos de hoje, esta é o massacre diário que se promove a mando de latifundiários usurpadores da liberdade alheia.

Foi numa terça-feira, datada dezesseis de abril de dois mil e treze, quase quinhentos e treze anos depois de Pedro Álvares Cabral berrar Terra à vista! à bordo de uma caravela. Jornais impressos podem evitar publicar, emissoras televisivas podem fingir não existir, portais de grandes grupos midiáticos podem se esforçar para ignorar e omitir. Mas a verdade ninguém apaga. Em 16.04.2013, na opinião deste que vos digita, aconteceu o fato mais marcante da história desse país. E hoje, um dia após o acontecimento emblemático em pleno plenário, aumenta a convicção de que a revolução não será noticiada. Pelo menos não por esses que estão no poder.

segunda-feira, 11 de março de 2013

11.03.2013

O movimento pelos direitos animais comemora nesse dia onze de março de dois mil e treze uma conquista das mais significativas: a proibição de comercialização de cosméticos testados em animais.

Trata-se de uma decisão histórica e que a princípio se refere à União Européia, mas que certamente encontra um potencial gigantesco para chegar a todos os blocos econômicos mundiais.
(Leia também: Fim dos testes de cosméticos em animais, anuncia marca japonesa Shiseido)

A medida vem ao encontro de reivindicações que datam de mais de duas décadas, envolvendo esforços da cadeia The Body Shop e da organização Cruelty Free International.

A partir desta data, coelhos não perderão a visão para que uma criança britânica escove os dentes. A partir desta data, macacos não serão submetidos a condições severas de estresse para que um adolescente alemão passe sabonete no corpo. A partir desta data, animal nenhum será entorpecido até a morte para análise de cosméticos usados por um habitante italiano. Entre muitos outros exemplos.
(Leia também: Teste em animais)

É evidente que estamos diante de um avanço no percurso em direção à libertação animal. Mas há muito ainda o que ser percorrido. Indústrias como a alimentícia, a farmacêutica e a de vestuários, para só citar essas três, carregam em si a dor e o sofrimento de bilhões de seres inocentes.

Enquanto a legislação não avança no sentido de dar proteção legal aos animais não-humanos, cabe ao indivíduo consciente boicotar os produtos que exploram animais. Exatamente como sugeria Mahatma Gandhi: Seja a mudança que você quer ver no mundo.

Enfim, comemoremos essa data que tem tudo para ser um marco. O trajeto não termina aqui. Estamos apenas começando. Rumo ao abolicionismo.